19 de agosto de 2015

Era você?

Era você. Você sabia que era. Meus amigos, minha família, meu vizinho da porta da frente, meu chefe, sua mãe. Todo mundo olhava pra gente e jurava. Vocês vão ser felizes, eles diziam. Vocês foram feitos um pro outro, eles diziam. Vocês vão formar uma família linda, insistiam. Cê lembra? Eles juravam. Todos eles. Eu também. Eu jurava que era você.

Eu jurei que era você nas noites em que a gente não tava junto, mas em que eu depositava toda a confiança que tinha no nosso relacionamento. Eu jurei que era você quando eu arranjava tempo, sabe-se-lá-como, pra te fazer uma surpresa boba no meio do meu dia corrido e te ver com aquele sorrisão que eu tanto amava. Eu jurei que era você nos duzentos textos que eu escrevi sobre tudo o que a gente tinha. Ou sobre tudo aquilo que eu achava que a gente vivia. 

Eu jurei que era você pros meus amigos e pros outros caras que se aproximaram. 
Eu jurei até pra mim que era você.
Porque eu jurava - jurava, amor - que a história ia ser sobre nós dois.

E eu achei que valia a pena a saudade, a distância, os conflitos, as briguinhas bobas, os ciúmes bestas, as diferenças, as vezes em que eu queria ir embora e não ia, as vezes em que eu queria gritar e não gritava, as vezes em que eu quis alguém que me amasse melhor e não fiz nada. Eu achei que valia a pena ir nos requentando como quem tenta salvar um amor dia após dia, noite após noite, abraço após abraço. Ainda que eu soubesse que cê fugia de mim com uma velocidade assustadora. Ainda que eu soubesse que seus olhos fugiam dos meus porque te faltava coragem. 

Faltava coragem, não faltava? De colocar as coisas na mala e dizer que tinha acabado, que, porra, cê não podia fazer nada. Faltou culhão pra colocar as cartas na mesa e explicar que não era eu, ainda que eu continuasse pensando que era você. Faltou amor, sabia? Faltou um tiquinho de amor por mim, por quem você jurou tanto amar, pra me libertar de um relacionamento fadado ao fracasso porque você já sabia. Eu tava iludida ainda, mas você já sabia. E, se você realmente me amasse, você teria me contado.

Mas você preferiu voltar tarde pra casa. Você preferiu os silêncios. Você preferiu me afastar de você como se eu tivesse alguma doença contagiosa e grave. Você preferiu nos tratar com o descaso de um relacionamento passageiro e sem importância. Você preferiu minha raiva, meu desprezo, minhas lágrimas, meus gritos, meu "vai embora e não volta nunca mais". 

A gente podia ter acabado de um daqueles jeitos bonitos que casais que ainda se amam, mas não estão mais apaixonados, acabam. Mas você preferiu acabar como um desses casais que se odeiam.

Porque você preferiu me perder.
E eu só queria mesmo era te dizer uma coisa:

Foi horrível ter pensado por tanto tempo que era você.


9 de julho de 2015

Quando eu deixei de ser uma pessoa que escreve

Recebo algumas mensagens de vez em quando. Elogios, na maior parte das vezes, bem fofos. Mas que, quase sempre, repetem algo que me deixa bastante intrigada: as pessoas têm mania de dizer que nós, que escrevemos, temos um dom para a coisa. 

Eu nunca soube entender se escrever é realmente um dom. Quer dizer, sim, muitos escritores que amo parecem ter nascido para escrever, como seres abençoados que respiram prosa e poesia, mas, para mim, mera pessoinha que escreve num blog na rede mundial de computadores, escrever sempre foi muito mais prática do que dom. 

Eu realmente não acho que tenho o dom da escrita.
Apenas calhou que eu gosto de escrever. E, quando você gosta de escrever, você, normalmente, curte ler. E quando você lê coisas legais e gosta de escrever, você se questiona: poxa, será que eu consigo escrever algo minimamente legal assim também?

E aí você tenta.
E tenta.
E tenta.

E muitas vezes você não gosta. De vez em quando, você publica textos que odeia. Outras, deleta o texto correndo para aquilo não ficar salvo em lugar nenhum. Acontece de você publicar um texto que amou e, três semanas depois, reler aquilo e não acreditar que teve coragem de divulgar pra alguém além da sua mãe. 

É assim que é.
E você vai tentando, tentando, tentando.
Aí um dia você recebe uma mensagem elogiando as suas tentativas e isso te motiva a escrever um pouco mais. 
Prática. Tentativa e erro. Dia após dia.

Aí um dia a vida te esmurra na cara com a realidade e você se vê muito mais focada em correr atrás dos seus planos do que continuar escrevendo. E aí você entra num caminho difícil porque quanto mais tempo você fica sem escrever, mais difícil é voltar. Entende por que eu questiono tanto essa coisa do dom? Não é sentar em frente a uma tela em branco e fazer milagre. Escrever é difícil pra caramba.

Notar que você era uma pessoa que escrevia e, de repente, não é mais uma pessoa que escreve é um pouco desesperador. Aconteceu comigo nos últimos tempos e eu fiquei: ok, e agora, como faz?

Bom, tô aqui tentando fazer. Entende? Tentando reassumir a prática de escrever e, ok, talvez os textos do retorno não saiam do jeito que planejei e eu publique um, dois, dez textos que odeie. Acontece.

Mas escrever é tentar.
E tentar.
E tentar.

Quem sabe um dia eu chegue lá.

10 de junho de 2015

A minha dor é diferente da sua, meu bem. Ainda bem.

Doeu quando a sua atualização de status de relacionamento surgiu na minha frente. Abrir o seu perfil e ver que a nossa foto não está mais na capa. Não é mais o meu sorriso bobo que enfeita o seu facebook. 

Doeu pra caralho quando vi que o meu perfil tá vazio sem você, enquanto o seu já tem alguém no meu lugar. Doeu pra caralho ler a legenda da foto que você colocou com ela. Doeu demais porque era a mesma que você costumava colocar nas nossas fotos. 

Doeu muito no dia em que você me deixou. Por uma mensagem de texto. Por uma briga idiota. 

Doeu mais ainda quando você explodiu porque eu não aceitei voltar. Eu já não aguentava mais aquela palhaçada toda. “Seu amor todo era falso então, e a sua frieza me espanta”, você me disse. Doeu.

Dói. 

Mas sabe o que não dói? Deitar a cabeça no travesseiro pra dormir. A minha consciência tá tranquila. O coração ainda bate meio dolorido sentindo a sua falta, mas carrego a paz de saber que fiz tudo o que podia, que me entreguei por inteiro. Te coloquei em primeiro lugar sempre, te compreendi, te ouvi. Te amei. 

Não dói pensar que poderíamos estar juntos. Porque não poderíamos mesmo. Já não tinha mais jeito, o nosso relacionamento já tinha passado do prazo de validade. Mas mesmo assim eu mantive o respeito em todos os momentos. Respeitei o seu espaço e os seus sentimentos, como até hoje. Escolhi as palavras com cuidado pra não te ferir. Coisa que você não fez. 

Dói porque foi amor e a decepção que você me causou, e ainda causa, machuca. Dói porque tem que doer, até que uma hora vai passar, eu sei que vai. Mas não dói quando penso que você sente a minha falta. Não me leve a mal, mas tenho certeza que você sente. Deve pensar em mim todas as noites, e bater aquele arrependimento, né? Pode confessar, eu sei que dói. Mas isso dói só em você, não em mim.

Sabe o que dói em mim? Ter sido magoada pela pessoa que mais amava e tinha escolhido passar o resto da minha vida. 

Já em você deve doer saber que não tratou com o carinho que deveria alguém que só te amou. Deve doer quando você olha pra trás e vê que colocou tudo a perder por besteira, por impulso, por infantilidade. 

A minha dor é ruim. Mas a sua, meu bem, (ainda bem!) eu não tenho que sentir. Essa fica toda pra você.


7 de junho de 2015

A gente é quem sabe, pequena

"E até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei"

(Último Romance - Los Hermanos)


Do abraço no fim do dia pra recuperar as energias. E sobre ser o colo um do outro nos momentos de desespero. Dos segredos divididos na cama, os medos debaixo do travesseiro, as inseguranças, o desejo que dê certo contrariando a tudo e a todos. E sobre segurar a mão do outro num gesto mudo, dizendo só: relaxa, eu tô aqui. Disso tudo eles não sabem. Porque eles não tão.

Os sonhos que a gente resolveu compartilhar. E sobre as noites acordados. Aquela quinta-feira em que a gente achou que não tinha mais jeito. E do dia em que a gente descobriu que amar nem sempre é fácil, mas que a gente topava tentar mais um pouco. Das brigas, dos ciúmes, das lágrimas, da vontade de mandar o outro sumir ao mesmo tempo em que a gente não quer largar. Ninguém sabe. Ninguém sabe o esforço que é amar apesar de.

Sobre o quanto quem nos ama torce pra gente dar certo. E como a gente queria que nada entre a gente desse errado. Do tanto que eu me esforço pra ver um sorriso seu e das milhares de coisas que você faz só pra me fazer feliz. Do quanto eu sou viciado no seu beijo. E do tanto que eu sou viciado em você.

Da saudade que eu sinto. Da vontade que eu tenho que você seja a mulher mais realizada do mundo. E sobre como eu não consigo gostar de alguém que não consiga gostar de você. 

Eles não sabem dos nossos planos. Não sabem sobre aquilo que é difícil nem têm ideia de como foi fácil me apaixonar por você. Eles não sabem pelas fotos, nem por vídeos, nem por tudo aquilo que eles acham que enxergam na gente. Eles não sabem dos silêncios nem das palavras sussurradas ao pé do ouvido antes de dormir. Então eles acham que sabem do quê?

A gente é quem sabe de tudo que é bom. E de todo o resto também.
"Porque do nosso amor...a gente é quem sabe, pequena".
E eles não sabem de nada. 
Nada. 


30 de maio de 2015

Não, eu não quero ser salva

Olha, acho que a gente precisa conversar. Conversa franca, papo reto, de uma vez por todas, sabe? Preciso falar desta coisa que, para mim, parece tão óbvia, mas, para você não faz muito sentido: 

Eu não preciso ser salva da solteirice. 

Você pode deixar para lá, ok? Essa coisa de querer que eu arranje um namorado, conheça alguém legal, aquele amigo do seu namorado que está disponível, um conhecido que você jura que tem tudo a ver comigo, aquele irmão da sua amiga. Esquece. Eu não quero conhecer ninguém com a obrigação de ser o novo cara da minha vida. E, se uma hora eu quiser, deixe que seja escolha minha. E não por que você acredita que eu preciso de alguém pra me fazer feliz.

Porque eu não preciso.

Eu sei que eu escrevo sobre o amor, eu sei que eu adoro comédia romântica, eu sei que, às vezes, eu também reclamo que, caralho, não conheço ninguém legal. Mas isto não quer dizer que você precisa fazer da minha solteirice a sua missão, ok? Eu não tô numa torre com a vida congelada esperando pra ser salva pelo primeiro príncipe bacana que aparecer. Eu tô cuidando da minha vida, dos meus sonhos, dos meus planos, dos lugares em que eu quero chegar e de todas as pessoas que eu amo. Na hora que eu quiser alguém legal pra dividir tudo isso comigo, pode deixar, é missão minha.

Não é que eu não te entenda; eu entendo. Eu entendo que você só queria que eu fosse feliz. Eu entendo que você só queria que eu tivesse alguém legal, como você tem. Eu entendo, eu juro. Até aquele olhar melancólico que você faz cada vez que eu conto que, não, não era ele. Eu só quero que você entenda que: tudo bem. Tudo bem eu ser solteira, sozinha, leve, livre e desimpedida. Tá tudo mais do que bem.

Uma hora eu conheço alguém legal, resolvo juntar os trapos, dividir as escovas no mesmo copo do banheiro? Talvez. Talvez aconteça e eu entenda, de repente, por que você queria tanto isto pra mim. Ou talvez não. E ok. Mas chega. Porque eu também já sofri muito com todo mundo dizendo o que eu devia ou não devia fazer, quem eu devia ou não devia conhecer, como eu devia ou não devia levar a vida. Alô, eu sou independente pra tomar minhas próprias decisões, eu sou independente pra escolher o que quero e pra decidir ser feliz da maneira que eu bem entender. Beleza?

Chega dessa ditadura do "é impossível ser feliz sozinho". Porque, não sei se você sabe, mas há inúmeras formas de ser sozinho. E ser solteiro não é, necessariamente, sinônimo de estar mergulhado na solidão. Assim como colocar "relacionamento sério" no Facebook não te libera de se sentir completamente abandonado no mundo em madrugadas vazias. Ser sozinho é triste. Mas estar solteiro não.

Ok? 



17 de maio de 2015

Cansei de brincar de ser trouxa

Eu cansei das mensagens visualizadas e não respondidas. De ter que estar pronta pra quando você quisesse, mas nunca poder contar com sua presença quando eu queria. Eu cansei de ser sempre tudo do seu jeito, de mendigar sua atenção, de tentar me encaixar entre um horário e outro da sua agenda, de me esforçar pra caber nuns buraquinhos esquecidos da sua vida. 

Cansei das idas e vindas, cansei da falta de atitude, cansei das vezes em que você disse que eu era tudo o que você queria, só não era agora, só não era a hora. Eu cansei de escrever sobre você, de dizer que ia te esquecer, de voltar atrás, de tentar mais um pouco, de insistir mais um tanto. Eu cansei naquela noite em que você não voltou. Naquele silêncio em que a gente não dividiu. Na madrugada inteira que você não me aqueceu e eu morri de frio. 

Eu cansei depois daquele seu olhar vazio quando eu apareci de surpresa. Eu cansei de achar que era você, e era eu, você só não sabia. Porque, quando é, a gente sabe desde o começo. Eu cansei naquela tarde, lá na casa da sua família, quando você me apresentou só como uma amiga. Amiga?

Eu cansei do quanto você me torna clichê. E, pelo amor de Deus, cansei do tanto que eu fico repetitiva por causa de você. 

Cansei de paixão barata, cansei dessa coisa de amor que dói, cansei de ficar mal por um cara que nunca sabe se vai ou se fica. Cansei de tudo isso: essa sua eterna indecisão de quem não quer agora, mas também não quer perder pra sempre. Cansei do chove-e-não-molha, cansei de gente que nem fode nem sai de cima. 

Eu cansei da palhaçada, cansei dos joguinhos, cansei de ter amor só até a hora que você quisesse. Fica aí no seu cantinho com tudo isso, não tem problema, quem sou eu pra querer que cê mude qualquer coisa por mim. Não é? Eu tinha que aprender mesmo que as pessoas não mudam pela gente. Eu que fui otária de tentar me mudar por você. 

Mas fica tranquilo: que eu cansei e tô pulando fora. Ou melhor: tô é te jogando fora da minha vida. Que até pra ser babaca tem prazo de validade. Então vai, pode ir. Pode sair por aquela porta ali. Que você não engana mais essa trouxa aqui. 

6 de maio de 2015

Por aqui, por ali e por aí

Eu sei que de vez em quando vocês reclamam que eu sumo por aqui (e eu sumo mesmo, é verdade), então vim relembrar vocês que vira e mexe tem post meu em outros blogs também. Vocês podem encontrar textos meus lá no Depois dos Quinze e no Entre Todas as Coisas também.


E vocês podem sempre me encontrar no twitter @kahrosa, no instagram @kahrosawho ou no snapchat /kahrosa.
E falando em outros blogs, tô querendo fazer um novo post de indicações. Então, se quiserem, deixem os links com seus blogs nos comentários para eu dar uma olhada.
Gracias,
besos

28 de abril de 2015

Tem amor, pequena

Tem um pouco de sol atrás das nuvens – você vai achar se olhar bem, pequena. Tem um pouco de carinho na gaveta do armário: deixei ali na minha última visita pra você encontrar na madrugada de uma terça qualquer, quando doer. Tem um pouco de nós dois em cada uma daquelas fotos antigas que cê guarda naquele seu mural cheio, na parede do quarto. Tem um tanto da gente nas doses diárias de ligações e mensagens. E tem amor, pequena. Tem sempre amor, um bocado, em qualquer canto que cê olhe e que eu olhe. Amor não há de faltar, daqui ou daí, nunca.

Tem saudade, pequena, é verdade. E eu pensando como é que cê tá aí do seu lado do mundo. E eu pensando que, ah, eu queria você aqui do meu. Tem uns choros escondidos no banheiro quando eu penso que ainda demora pra você voltar, meu bem, mas aí eu lembro que alguns amores aguentam. E o nosso é desses: daqueles que aguentam o que vier. E já veio tanto, não veio?

Tem uma certeza, pequena, que eu nem sei se devia ter. A gente não devia dar certeza quando se trata de sentimentos incertos, não é? Mas sabe o que eu queria tanto te dizer outro dia? Que eu vou te amar hoje e até o fim do mundo. Sabia? Amar você é daquelas coisas que eu preciso, pequena. Ouviu bem? Eu preciso de ti. Do jeito que der. Toda torta, com todos os dramas, com todas as neuras. E eu espero que cê precise de mim desse jeitinho todo errado que eu também sou.

E tem cuidado, pequena. Se cuida daí que não poder te cuidar é das minhas maiores dores. Mas tem sempre um tiquinho de cuidado em cada “eu te amo” que eu te solto, em cada “dorme bem” que eu te deixo. Tem um pouquinho de mim em você e eu guardo você aqui no peito com o maior cuidado de todos. E você volta – ou eu vou, não importa. Porque tem amor, pequena.


Tem sempre esse tanto de amor.



*Texto feito pra uma amiga que ficou um bocado de dias aqui e ele lá. Mas agora tá lá, sendo cuidada e amada. E agora eu que tô aqui morrendo de saudade.  

27 de abril de 2015

O problema é o que fica

Era pra este ser um texto feliz. 

Não era pra ser sobre você, de novo você, de novo as mesmas despedidas, de novo o mesmo adeus. Mas decidi que vou fazer texto sobre o fim até fechar o livro de vez. Assim, sem me julgar por mastigar dores, ou imaginar como seria você aqui, ou ainda sentir um tico de raiva de como as coisas foram. Disseram por aí que "este é o problema da dor. Ela precisa ser sentida" (A Culpa é das Estrelas). Eu completo: algumas vezes, o adeus também precisa ser dito, gritado, escrito: em letras garrafais.

Mas este não é um texto triste.

Este é um texto sobre recomeços. 

Você sabe qual o problema com eles? Não é o que vai. Não é você que foi. Isso dói no fim, isso dói na despedida, isso dói na briga, isso dói um dia após, dois, três. Depois de todo este tempo, não me dói mais você. Me dói o que ficou. Me doem as lembranças, me doem as fotos espalhadas pelo quarto, me doem as memórias postadas em todas as nossas redes sociais. Me doem as perguntas que ainda fazem sobre você. Por onde anda? O que anda fazendo? Nunca mais?

Me dói não ter o que responder.

Me dói o quarto vazio, me dói o tempo necessário para me refazer, me doem as músicas que continuam me lembrando de nós dois. Me doem as cartas que esqueci de rasgar e me doem os filmes que a gente ficou de assistir. Me dói o que a gente foi, não mais o que a gente poderia ter sido. 

Mas você sabe qual a solução para os recomeços?

Os que prometeram e cumpriram, os que deram ombro-amigo, deram lenço, deram abraço, deram colo. Os que aguentaram a barra, os que limparam as lágrimas, os que disseram que já voltavam e voltaram. Os que entenderam o que era amizade, os que brigaram, alguns gritaram, mas não deixaram de amar. 

O carinho de quem cuidou, o amor de quem esperou que eu me refizesse, a compreensão de quem sabe que dói, dói sim, mas passa. A solução foi quem ficou.

A solução foi a força que eu tirei sei lá de onde, e um pouco do orgulho que me manteve em pé, junto com a certeza de que, às vezes...só às vezes, perder alguém é, no fundo, se livrar. Porque a gente tem mesmo é que rezar pra que essa gente que só atrasa e diminui mantenha a maior distância possível. 

E com tudo isso, eu aprendi:

O problema dos recomeços é o que fica.
A solução, também. 


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AVISO IMPORTANTE: Acho que todo mundo aqui está ciente de como as coisas estão tristes e complicadas no Nepal após o terremoto que aconteceu por lá, não é? Muitas vidas perdidas, muito sofrimento, muitos problemas. Eles estão precisando de muita ajuda do mundo inteiro pra se reerguer. Por isso, se você puder, te peço de coração pra ajudar com uma doação aqui, ó: https://presentedobem.org/plumsocial. Você pode fazer muita diferença!

13 de abril de 2015

O fim nunca é

Você foi embora. Assim, sabe? Sem toque poético ou despedida artística ou um daqueles abraços de meio de filme em que a gente diz: se um dia quiser voltar, volta. Você foi embora. Simples. Seco. Do jeito que o correr do cotidiano foi nos deixando. Arrumou as coisas e foi como vai um qualquer depois que cansa e não tem mais nada a dizer. E a gente não tinha, não é? As palavras foram todas caladas numa mistura de fim e de começo. Eu vou ter que aprender a ficar sem você.

Você foi embora. E eu não tenho muito o que dizer. Que amores acabam? Porra. Sabia disso no começo? Amores acabam, porra. E, depois que acabam, o silêncio que fica é insuportável. Meu cachorro late te procurando e eu olho com aquela cara de dó de quem olha o marido traído que é o último a saber. Sabe? Como eu conto pra ele que você não vai voltar? Como eu conto isso pra mim?

Ele foi embora.

E essa nem é a parte que dói. Talvez seja só a parte que alivia. O que doeu foi todo o resto. Antes dele ir, sabe? Doeu durante os gritos, durante as brigas, durante os choros descontrolados. Doeu nos jantares em que ele não apareceu, nos encontros entre amigos em que fui sozinha, nas madrugadas em que esperei e ele não deu as caras. Doeu nos dias em que eu estava tão cansada pra encarar tudo que me esqueci no trabalho até tarde da noite. E nos almoços de família em que eu não tirei o sorriso pra ninguém reparar. Doeu quando eu vi que não tinha mais jeito, doeu enquanto eu achei que ainda tinha, doeu enquanto a gente tentou se salvar e tirar a água do barco furado.

Doeu pra caralho.

Mas o depois, o depois do fim é até libertador. Quando você arrumou as coisas e foi. E eu quase te amo de novo pela coragem. Abandonar um amor é sempre se abandonar um pouco. E você se abandonou. Deixou um pouco de você em cada canto que é pra eu me questionar se ainda não dava. Mas não dava, a gente sabe que não. Nosso fim foi corte seco de edição.

Você foi embora. Sem toque poético ou despedida artística ou abraço em que eu digo: se um dia quiser voltar, volta. Não volta. Por favor, não volta. Deixe que nossa história acabe porque uma vez na vida eu preciso me livrar das vírgulas e colocar um ponto final. E eu preciso que você vá. De vez. 

Eu só te transformei em texto pra fingir que foi bonito.
Mas você sabe: o fim...o fim nunca é.