18 de agosto de 2016

Então, deixa eu te contar: mudar é bom

Há uns anos, eu escrevi um texto e ele foi publicado em um site grande. Dezenas de pessoas começaram a me seguir, elogiaram o que eu escrevi, me mandaram e-mail, compartilharam no Facebook e no Twitter. Teve gente que me criticou também, mas na época eu nem liguei muito para as críticas porque eu não via problema algum com o texto (além de um erro de português que aconteceu bem na hora da edição). Eis que o texto era justamente sobre isso: falando sobre desilusões ortográfico-amorosas. Eu tava lá me achando muito engraçada e descolada escrevendo um texto em que eu reclamava dos erros de português dos outros. 

Bacana eu. 

O texto ainda circula por aí na internet e ainda continua publicado lá no site grande (não por vontade minha, mas eu concordei com isso quando eu enviei, então né…), mas ele não tá aqui, num espaço que eu controlo. Porque é mais um dos textos que eu me arrependo de ter escrito. É, tenho alguns deles. Já escrevi uns textos machistas e babacas, e esse: com preconceito linguístico. 

Tenho vergonha dele? Sim. Mas eu sei que ele não representa mais quem eu sou. Aquela era eu com 20 anos achando que sabia tudo da vida. Me achando muito descolada e me sentindo porque tava sendo publicada pela primeira vez em um site grande. Eu mudei de lá pra cá. Hoje eu acho aquele texto babaca e preconceituoso. E eu me incomodo quando eu ainda vejo ele compartilhado por aí com meu nome embaixo. 

Se alguém pegar meus tweets antigos, talvez ache um monte de coisa que hoje eu sou completamente contra. A gente muda com os dias, os meses, os anos, as experiências que passa e as coisas que lê. Que bom, né? Que bom que a gente não permanece com a cabeça fechada como se a gente tivesse todas as respostas do mundo no auge da juventude. 

Vez em quando, eu vejo gente pegando tweet antigo de gente famosa pra criticar. Pô, gente, tweet de 2010 pra ilustrar quem a pessoa é agora? Jura? Tá, tudo bem, é verdade: tem uns e outros aí que só pioram (a gente acompanhou recentemente um cantor aí que foi bem assim, né?). Mas a maior parte das pessoas - eu tento acreditar, pelo menos - mudam. Crescem. Amadurecem e abandonam pensamentos pequenos. Então que tal se a gente julgasse menos o passado dos outros? Se a gente parar pra olhar o nosso, talvez até se assuste.

Acho, de verdade, que o problema não é ter sido babaca no passado. Todo mundo já foi na vida. Sei lá, eu admito que já ri, compartilhei ou publiquei coisa babaca nas minhas redes sociais. Acontece. Acontece também que hoje eu tento ser melhor do que quem eu era. Porque isso é tentar evoluir. 

Não tem nada de errado em mudar. Na verdade, eu desconfio é de quem continua sempre igual. 




14 de agosto de 2016

Obrigada por isso


A primeira vez que quebraram meu coração, eu achei que não dava mais conta de amar. Sei lá, eu era nova e quando a gente é nova acha que as dores são as maiores do mundo. Não que eu queira minimizar a pisada de bola, não quero. Mas fato é que sobrevivi; venho sobrevivendo aos trancos e barrancos a mentiras, chifres, episódios de deslealdade e papéis de trouxa que nem cabem mais aqui.

Eu já era mais madura na segunda vez e tentei pensar que a gente sempre aprende alguma coisa quando cai. Mesmo que eu tenha caído feio, mesmo que tenha me ralado inteira, mesmo que eu tenha chorado escondido no quarto sem ninguém ver. Aprendi, eu acho. Que amar envolve reciprocidade, antes de tudo. E que eu não posso - e nem devo - convencer ninguém a me amar. Nem me ajoelhar implorando que o outro entenda o meu amor, que me ame, que fique. Quando a gente quer ficar, a gente fica.

A terceira, assumo: achei que o problema era comigo. Eu que amava errado, eu que não merecia o amor de alguém legal, eu que devia ter grudado chiclete na cruz ou qualquer coisa assim. Bom, eu pensei, acho que é isso: o amor não é pra mim. Porque deve ter isso (eu achava): gente que não nasceu pro amor; e tudo bem, eu era uma dessas pessoas. 

É verdade que eu nunca precisei do amor romântico pra ser feliz; eu tenho um punhado de amor em forma de amigos, família e irmãos. Mas doeu - acho que sempre dói - acreditar que o problema era meu. Me enxergar como não-merecedora de algo que tanta gente tinha e parecia tão feliz. Essa medalha não era pra mim, eu achava. Talvez outras fossem, essa não. E eu me achava um pouquinho pior a cada dia por causa disso.

Aí veio você. 

Veio você e foi fácil, depois de tantas vezes difíceis. Veio você e foi simples. Veio você e fez as minhas pernas tremerem e a garganta formar um nó porque, meu deus, acho que agora é amor-amor, não amor-meia-boca. Veio você e eu perdi o medo de amar. 

Não quero soar exagerada, cê sabe que eu não sou assim. Não tenho essa certeza toda que os casais têm que a gente vai viver junto o resto da vida. Não tenho. Talvez você nem seja o amor da minha vida. Talvez nossa história acabe daqui uns dois meses. Talvez eu chore, talvez você quebre meu coração, talvez eu quebre o seu. Relacionamentos são imprevisíveis e eu não coloco a minha mão no fogo por nenhum deles. 

Mas veio você. Sabe?

E depois de tanto tombo, depois de tanta lágrima, depois de achar que o problema era eu, você me fez acreditar que não, não é isso: eu também fui feita pro amor.  É, eu também mereço encontrar alguém legal e tirar fotos bregas no Instagram com legendas um pouco vergonhosas. Eu também mereço ser amada - quem não merece?

Você veio e me fez amar de novo. E me fez acreditar, pela primeira vez, que me amar não tem que parecer tão difícil. 

Obrigada por isso. 




11 de agosto de 2016

Verborragia

A parte complicada sobre não falar? O papel sofre. O papel sofre porque é nele que eu despejo todas as palavras que agonizam e nem mesmo passam pela boca a não ser em sussurros inaudíveis no meio da noite, quando ninguém vai ouvir.

Eu venho perdendo-me aos pouquinhos, numa tentativa de me encontrar. Eu sei, já disse isso antes. Mas, é que, dessa vez, surge uma nova percepção sobre isto. Por temer passar pela vida sem vive-la, estou me obrigando a sair da zona de conforto (mesmo que aos pouquinhos) e fazer aquelas coisas que eu sempre quis fazer, mas deixava de lado por medo.

Alguns momentos de ok, vamos lá” que tem me levado a uma série de outros momentos de pura e leve plenitude que, mais tarde, me jogam numa espiral de culpa e ansiedade e agonia porque eu não estou acostumada a me sentir assim. Certamente há um preço a se pagar pela liberdade, não? Alguma consequência, alguma coisa que vai me convencer de que eu nunca deveria ter agido?

O que mais angustia é que eu não sei. Não ainda. Por enquanto, só tenho medo. Medo do futuro enquanto tudo que eu queria era isto: poder ficar aqui, bem aqui, vivendo o agora. Pela primeira vez.




9 de agosto de 2016

Aquilo Que O Stalker Não Mostra

A notificação de que você havia curtido minha foto brilhou na tela quase que com a mesma rapidez que sumiu. No mesmo instante, pensei em seus dedos ágeis tentando ocultar a denúncia do seu stalker numa das minhas redes sociais. E aí dei um sorriso.

É estranho dar um sorriso quando antes só de pensar em você eu queria chorar. Mas sorri porque você nunca precisou se sujeitar a me vigiar nas redes sociais anonimamente para saber como eu estava, sabe? Você sempre pode muito bem chegar e perguntar.

Se você perguntasse eu te diria que esse período tem sido o pior de todos da minha vida, antes, durante ou depois de você. Teria te contado sobre minha depressão, a dificuldade que encontrei de sair da cama, encarar o dia, dar a cara a bater mais uma vez sabendo que ia apanhar muito. Teria te contado das crises de ansiedade que ando tendo. Das brabas, sabe? Dessas que parece que a gente tá sendo sufocada em nosso próprio corpo e não consegue nem gritar para pedir ajuda.

Eu teria te pedido ajuda.

Te ofereceria um café e pediria um abraço em troca. É justo, não é? Íamos sentar e eu te contaria tudo aquilo que nunca contei pra ninguém, porque só fazia sentido falar para você. Eu te falaria que o medo de formar, agora que entrei na reta final de curso, tá acabando comigo. Que o medo de falhar as vezes me dá a impressão de que vai me destruir. Que eu tô cansada de me fazer a Mulher Maravilha, sempre forte e poderosa em sua fantasia de amazona. Queria mesmo era ser só humana, não bancar a super-heroína.

E te diria que os sorrisos das fotos não são falsos. Alguns dias eu tô realmente bem e são esses que compartilho. Que as piadas das redes sociais não é porque tô de bem com a vida, é que tô tão desesperada que preciso rir para não cair em choro. Que meus sonhos paralisaram. Que meus planejamentos desandaram. E que a análise me mostrou que essa minha mania de controlar tudo é que tá ferrando boa parte da vida, sabe?

Aí você saberia que outras pessoas apareceram na minha vida e que eu tô bem com elas. De verdade. Mas que seu espaço ainda está vazio esperando sua volta. Você saberia que ainda sou trouxa o suficiente pra acreditar que temos chances, mesmo que eu distribua sorrisos por aí, que não toque no seu nome, que finja que você não me afeta tanto quanto me afetou. Você saberia, se me desse um alô, que tudo que eu mais quis nessa vida foi não ter te dado tchau.

Mas você preferiu ficar longe a se aproximar e dizer que talvez, bem talvez, lá no fundo e por baixo da decepção, também sente minha falta. Você preferiu acreditar na versão da Mulher-Maravilha que exibo por aí sem saber que, apesar disso, por baixo da fantasia, eu ainda queria você aqui.

Deve ter saído do stalker achando, mais uma vez, tudo aquilo que você me disse ao partir: que eu tenho tantas pessoas maravilhosas a minha volta que nem precisava mais de você.

E quer saber? Eu tenho mesmo pessoas maravilhosas ao meu lado.

Mas eu queria que você estivesse comigo, ainda assim.





2 de agosto de 2016

Já é 23

Quando eu saí de casa, aos 19, o mundo parecia infinito e assustador.

Sair do interior pra morar na capital, deixar a casa dos pais, o colo dos amigos de infância. Tudo isso pra entrar em um metrô lotado na Sé às 8 da manhã sem saber bem pra onde ir e na primeira baldeação já ter vontade de pegar um táxi e voltar pra casa. 

Aliás, desde que fui embora tenho procurado meu caminho sem muita certeza se eu tô na direção certa. Aí a gente só vai, sabe? A gente vai ao supermercado e enche a cesta de miojo porque tem medo de fazer feijão na panela de pressão. Colocamos a roupa pra lavar e esquecemos de colocar o sabão em pó, a gente descobre que a cama não se faz sozinha e a louça, meus queridos, fica na pia enquanto você não lava. 

O principal é descobrir que o que importa é ir. É buscar algo maior, melhor, que talvez seja sempre desconhecido. Porque quanto mais a gente vai, menos a gente sabe. E por incrível que pareça, quanto menos a gente sabe, mais a gente descobre que precisa continuar indo. 

Por mais que sair da zona de conforto seja algo que dói, e muito!, é preciso estourar a bolha pra ver o mundo lá fora com todas as cores, não só as que a gente já enxerga. E usar todas elas pra pintar nossa tela, que pode ainda estar em branco ou já ter alguns resquícios de cor, não importa. 

Não tem problema se no meio do caminho você sentar no chão do metrô e ligar pra sua mãe chorando, querendo colo. É normal correr pro banheiro com lágrimas nos olhos quando o primeiro chefe te dá um esporro. Tudo bem se você comer a comida direto da panela pra não sujar prato, a gente não conta pra ninguém. E também fica só entre nós aquela semana que você sobreviveu de Cheetos e Coca-Cola porque a grana tava curta. 

No final das contas, o mundo é sempre mais do que a gente pode ver e o tempo passa muito rápido quando a gente tenta desvendá-lo. Mas vale cada minuto, porque quanto mais a gente conhece do mundo, mais infinito a gente se torna.