28 de julho de 2014

Where were you

Cheguei em casa. Puta que pariu, vou ser bem sincera, essa é a pior parte. No trabalho, tem as metas que me distraem. Tem o chefe, tem aquela amiga que quer me contar do final de semana, tem a galerinha da copa, tem o café, tem a lanchonete no térreo que tem um pão de queijo sensacional, tem meia dúzia de problemas que, caceta, tenho que resolver ou já posso começar a descolar os adesivos que grudei no computador.  Em casa não tem nada disso. Só tem você.

Tem você na minha cama porque foi você quem saiu pelas lojas daquele shopping de móveis lá da zona norte pra achar um colchão que não fosse ferrar com a minha coluna. Tem você na coleção de discos que cê resolveu me dar junto com a vitrola marrom que conquista todo mundo que visita minha (puta que la mierda, isso soa horrível) casa. Tem você nos cantos rachados dos pratos que minha mãe me deu quando resolvi morar sozinha e ainda não tive dinheiro pra substituir por outros. Tem você nas correspondências porque ainda tem os boletos da nossa viagem pra Buenos Aires – a última vez em que a gente foi feliz. Ou, sei lá, a última vez em que eu achei que a gente era.

Dica para o resto da vida: nunca dividir uma viagem em vezes o suficiente pra dar tempo do cara ir embora. Que daí cê só fica com a parte ruim da viagem. Que nem eu fiquei com a parte ruim de você.

É uma verdadeira bosta ainda ouvir falar de você. Mas vocês se amavam tanto. Mas ele parecia louco por você. Mas eu achei que vocês fossem casar. Mas vocês faziam um casal tão bonito. Que porra, né? Eu também achei tudo isso, só que ele não. Eu também sonhei com o conto de fadas. Eu também achei que, sei lá, eu fiquei aqui, na doença, na pobreza, nas ligações de cobrança, no dia do desemprego, no dia que o seguro-desemprego acabou, nas bebedeiras em que ele quebrava a casa inteira, nas ressacas em que ele pedia desculpas, então, não sei, achei que ele ficaria também.

E ele não ficou.
E cê arrumou as coisas, cansou e foi procurar outra novinha pra te dar tudo, pra sugar tudo, pra chupar até a última gota de sangue antes de sair pela porta e dizer: eu não tô a fim de lidar com os seus problemas. 

Mas ah, eu cheguei em casa. E tem uma faxina enorme que preciso fazer até te arrancar inteiro das paredes. Porque, porra, cê não tem ideia do mal que cê me fez. Mas espero, de verdade, que eu consiga ver, qualquer hora, algum bem nessa merda toda também.



Oh baby why did you run away?

I was there for you
In your darkest times
I was there for you
In your darkest nights

But I wonder where were you
When I was at my worst
(Maps - Maroon 5)

16 de julho de 2014

Sem querer

Tinha de ser daquele jeito? No meio de uma balada que eu fui só por ir, sem make pesada, sem paetê na roupa? Você viu o que quando olhou pra mim? A sapatilha sem graça? O batom clarinho? Alguma coisa te fez atravessar a pista e tentar, e não foi o meu sorriso, aposto.

A conversa gritada ao pé do ouvido não foi legal, me fazendo supor que como qualquer pessoa naquele lugar, você queria curtir. Previsível. Eu entrei na sua, dancei no seu ritmo e me deixei levar. Um beijo, dois beijos, três beijos. Ok, tira essa mão daí! (Eu não bebi o suficiente pra perder a dignidade). Piadas toscas, propostas ridículas. Telefone? Claro, passo sim. Hoje em dia isso nem é tão pessoal, ninguém liga mesmo. Que diferença faz?

A diferença é que era você. Com todo a pompa de alguém educado que perde a linha de vez em quando, se arrepende e tem a decência de querer se redimir. 

E cê tinha que me ligar no dia seguinte. Desrespeitar o protocolo. Fazer convites irrecusáveis. Insistir. Cê tinha que ser legal, desfazer a primeira impressão e me deixar confusa. Cê tinha que ser diferente quando tudo o que eu queria era um cara igualzinho aos outros, pra suprir a carência e ir embora sem pedir ou dar explicação. Só pra fazer um carinho e ir embora. Custava ser assim? Não, cê tinha que querer ficar. E ir ficando.

Mas tudo bem, se você quer quebrar as regras e se apaixonar por uma garota insegura que conheceu na noite, acreditar nisso por sei lá qual motivo, pensar realmente que vai dar certo...Ora quem sou eu pra duvidar? Na verdade sua fé me comove, num tanto que eu fico pensando se eu dormi em alguma parte da historia e não tô vendo o que você tá vendo na gente.

Vê se me entende. Você me pegou desprevenida, de repente, no susto. Eu tô acostumada a levar rasteira, não lido bem com essas surpresas que parecem fazer cócegas no coração. Não me impede de gostar, mesmo não entendendo e desconfiando disso.

Mas ó, tem paciência comigo, desiste não. Eu tô engatinhando ainda, não cresci o suficiente pra saber amar desse jeito real que você tá pedindo. Aceitar alguém que chega da maneira mais improvável na minha vida, que vai se aconchegando e fazendo morada. É esquisito. Você me ensina como eu faço?

Se você dizer que me entende e ainda assim fica, eu digo que tento e de quebra faço dar certo. Juro.

SOBRE A AUTORA: DÉBORA SVAIGER tem 20 anos, e acha que toda dor pode ser curada com um punhado de palavras. Tem mais fé do que coragem, se apaixona e desapaixona na mesma velocidade que troca de cor favorita. Gosta de música alternativa, filmes que ninguém entende e tardes ensolaradas. Prefere as pessoas leves e tem preguiça de quem tem o ego como bichinho de estimação. A indiferença é a sua armadura de ferro pra aguentar gente vazia, amores mal resolvidos, e desilusões do dia a dia. 

5 de julho de 2014

É difícil escrever sobre o amor

É difícil escrever sobre o amor porque parece que tudo sobre o amor já foi falado. E ainda mais sobre o desamor. E todas as dores, e todos os choros, e todas as brigas. Tudo já foi vivido. E falar sobre o amor é, aparentemente, uma eterna repetição. É falar do amor até quando o amor não existe. E o problema de escrever sobre algo até a exaustão é que todo mundo acaba um pouco cansado de ler sobre o amor. 

É difícil escrever sobre uma coisa que cansa.

É difícil escrever sobre o amor em tempos de guerra. Em tempos de Copa. Em tempos de eleição. Em tempos de posts enormes no facebook falando sobre qualquer coisa que, no fundo, eu não quero ler. Aliás, é difícil escrever sobre qualquer coisa em tempos em que as pessoas não sabem mais apenas ler algo, não gostar e seguir a vida. Elas precisam falar que não gostam e escrever respostas e fazer colunas e...aquilo tudo que dá tanta preguiça. Meu Deus, aonde eu estava com a cabeça quando eu resolvi gostar de escrever?

É difícil escrever e, mais, escrever sobre algo que eles dizem ser fútil. É difícil escrever sobre o amor porque sempre acham que falamos do nosso amor e, portanto, das nossas dores, das nossas traições, dos nossos chifres, das nossas lágrimas e dos nossos amantes. Sem entender que, na verdade, é tudo mesmo um pouco nosso, ainda que seja bem mais seu, ou dele, ou dela, ou de ninguém. Porque escrever sobre o amor é viver um pouco o amor que a gente nem viveu. 


É difícil escrever sobre o amor porque eu me questiono diariamente se eu posso dizer, sequer, que eu escrevo. Ou só se uno umas palavras e publico textos que nunca deveriam ser lidos. 


É difícil. E hoje eu queria falar sobre isso. 


Mas eu insisto.


Ainda que questionem. Ainda que achem fútil. 

Ainda que não entendam nada.
Ainda que achem sempre que é sobre mim.
Ainda que pensem que eu sou só mais uma babaquinha com dor de cotovelo que resolveu falar sobre seus chifres. 

Eu escrevo sobre o amor porque eu realmente acredito que o amor (em todas as suas formas) é o início de todas as soluções do mundo.


Eu escrevo sobre o amor porque eu realmente acredito que a gente só vai chegar a algum lugar quando aprender a amar o outro. E, por isso, aprender a se respeitar de verdade. 

Eu escrevo sobre o amor porque eu ainda tenho que acreditar em alguma coisa bonita no meio de uma imensidão de coisas feias.


E se eu sou uma babaca por acreditar em tudo isso: que seja.


Sou uma babaca. E eu escrevo sobre o amor.


Lidem com isso. 

28 de junho de 2014

Nem Lésbica Nem Puta: Apaixonada Por Futebol

Ser mulher e gostar de futebol é estranho, mas é engraçado. É aprender a lidar com olhares meio torto de marmanjo sem noção que acha que a gente tá tentando conquistar ao falar que, sim, a gente não só acha graça em 22 homens correndo pelo campo, como não perde um joguinho que se preze no domingo à tarde. Ser mulher e gostar de futebol é aguentar as perguntas imbecis: ah, você gosta mesmo de futebol? Então me explica o que é impedimento. Como se impedimento fosse algo muito difícil de se entender. E responder, com a maior paciência, dando vários exemplos, sendo irônica, com sorrisinho de canto ao ver o sorrisinho de canto do sacana diminuir a cada resposta correta. É saber que você tem que entender muito mais do que o rapaz que discute com você se quiser ter alguma moral com ele ao abrir a boca e falar que o time dele é, ó, uma merda e não tem nada a ver com o fato do time dele ser, ó, coincidentemente, rival do seu e sim com o fato do time dele ter uma zaga ridícula e um ataque pior ainda; que o técnico só faz substituição mal feita e que por isso ele tá no meio da tabela e não no topo –mesmo quando seu próprio time não está liderando aquela merda de campeonato –Inclusive, ser mulher e gostar de futebol é entender todas as limitações do seu time de coração, os pontos fortes, fracos, e mesmo assim, na pior da situação, tipo o São Paulo no ano passado no Brasileirão, fazer como eu e colocar um avatar no twitter com a blusa do time pra dizer que: pois é, amor é assim mesmo, meio maluco né?

Ser mulher e gostar de futebol é ser apresentada para os amigos do seu pai e ouvir dele um “mas se for discutir futebol com ela, toma cuidado, que ela sabe tudo”; é ter que entender de técnica, tática, história e por que raios tem três estrelas na blusa pra provar pro carinha que você sabe mesmo da coisa. É ser chamada de mulher perfeita pelo carinha que gosta de você porque além de bonita, ainda entende do esporte. Mas também é aguentar cantada chata quando você resolve assistir o jogo num bar cheio de marmanjo e eles acharem que você está lá só para ver coxas e braços e peitos e barriga. Aliás, ser mulher e gostar de futebol é entender sim de coxas, braços, peitos e barriga bonita, mas também acompanhar a bola dentro de campo, porque mulher, você sabe, mulher sempre conseguiu se focar em mais de uma coisa ao mesmo tempo.

É pular sem medo de se despentear, mesmo que você ande sempre arrumadinha, quando o adversário quase faz gol no seu time; é mandar o juiz tomar no cu, quando você é a bonequinha da família; é abrir mão da roupa da moda pra colocar a blusa do seu time; e é gritar É GOL CARALHO mesmo quando você nem fala tanto palavrão assim, no dia-a-dia. Porque nada bate falar um caralho, depois de um gol do seu time em cima do grande rival numa final de campeonato; é não impedir o namorado de ir jogar uma pelada, mas pedir pra ele fazer um gol só pra você na partida com os amigos (e se puder me levar, cara, me leva que eu juro que não reclamo não!).

É assustar os homens porque você entende mesmo da coisa ao mesmo tempo em que consegue a admiração deles por isso; é deixar o namorado morrendo de ciúme porque você ás vezes fala demais do jogador tal, porque você sabe que o Cristiano Ronaldo não é apenas um rosto bonito e que, por Deus, a seleção da Itália vai ser gata assim na minha casa, por favor! É ficar louca quando um jogador desmaia em campo porque, diferente dos homens, somos passionais e não conseguimos disfarçar isso mesmo quando o jogador é do time rival. Ser mulher e gostar de futebol é não conseguir ver uma bola e não tentar ir lá dar uma embaixadinha mesmo que a gente não saia da primeira; é ouvir da mãe um berro de “por que é que você não vê futebol que nem mulher?” e não entender o que ela quer dizer com isso ou ouvir da sua avó que ela desconfia que você é lésbica, porque você tá sempre no meio de muito homem assistindo jogo. Ou é lésbica, ou é puta. Que no meu tempo quem gostava de futebol era homem.

No seu tempo, vó, podia até ser. Mas hoje a mulher foi pra rua, conquistou emprego, independência, voto nas eleições e o poder de decidir do que gostar ou não gostar sem ser censurada por isso. Hoje, a invasão feminina no futebol é incontestável. E a paixão mais ainda. E não somos nem lésbicas nem putas (ou podemos até ser, mas não por ser apaixonada pelo esporte), mulher que gosta de futebol é mais feliz – porque, sinceramente, não tem como não ser feliz com uma seleção como a da Itália na Copa do Mundo com um uniforme colado no corpo, né?

BLOGAGEM COLETIVA: O tema dessa blogagem foi futebol. E assumo que foi bem difícil escolher um texto para postar, a concorrência foi bem acirrada. Por isso, apesar de ter escolhido o texto da Fernanda Campos, lá do UDC, como o vencedor desta vez, vou convidar mais duas leitoras para escrever um texto pro blog (entro em contato em breve com as meninas escolhidas). Enquanto isso, apreciem os textos da galera que participou:

Ah, o futebol..., da Érica Larissa
Apito final, da Daniela Martins 
Dentro das Quatro Linhas, da Débora Svaiger
Fim de jogo, da Carol Ruedas
Retranca, do blog Serenata a Capella




23 de junho de 2014

Perdoa, moço

Era início de inverno quando ela decidiu ir embora. Nem pensou na cama fria que deixava (que espécie de pessoa vai embora quando a gente mais precisa de alguém pra nos aquecer?). Tinha silêncio, que foi o que mais ela deixou. E tinha ainda um milhão de coisas pra falar, mas que cê nem falou. Quem é que fala com um nó na garganta? Quem é que pede pra ficar quando já sabe que não fica? Ela foi embora e você pensou: que vá pro inferno!

Você ficou com a dor, o desamor, a tristeza, a desilusão. Cê ficou com a raiva, embrulhada pra presente, esquecida debaixo da cama, fazendo um barulho que só por Deus. Eu vou odiá-la pro resto da minha vida, cê pensou. E eu só peço: ainda que seja difícil, moço, perdoa.

Perdoa se ela não teve tato pra te dizer, assim, que o amor não é incondicional como a gente pensa. Talvez ela não tenha conseguido ser a mulher que você queria que fosse – e, pior, talvez isso doa mais nela do que em você. Ou talvez, na verdade, ela só não tenha passado ainda pela dor de um coração partido desses que ela deixou no seu peito. E aí é irresponsável com os sentimentos dos outros como se quebrar o coração fosse que nem bater o dedinho do pé na quina da cama (ela só não sabe que, apesar de passar, dói como se fosse o fim do mundo – nas duas situações).

Mas perdoa.

Perdoa se, mesmo com o início repleto de lembranças lindas, tenha acabado com o mesmo fim triste e patético de suas outras relações. Perdoa os gritos, as lágrimas, os silêncios, o ciúme, as portas batidas, a indiferença, as vezes que ela não ligou, as vezes que ela voltou quando devia ter parado de tentar te machucar e, principalmente, perdoa por ela não ter mais voltado.

Perdoa o que teve de menos e por tudo o que houve demais. Perdoa se o anúncio oferecia tudo bem diferente. Perdoa por você ter limpado tudo, trocado os lençóis, ajeitado a vida, preparado comida e arrumado imperfeições, tudo pra ela se sentir em casa, se sentir bem e vir pra ficar – pra sempre.

Perdoa se não teve amor, se não teve nada. E lembra que, apesar de tudo, teve carinho. Bem pouco, talvez quase nada, ou talvez um montão. E guarda na lembrança o tudo que ela te deu antes de te deixar com o quase-nada – a não ser com as lembranças ingratas de um amor que quase foi. E, quando lembrar do último sorriso que cê deu antes de tudo, perdoa. Que, na verdade, quando a gente perdoa o outro, tá mais é se perdoando e aceitando: nem sempre dá pra controlar os nossos finais.

17 de junho de 2014

BLOGAGEM COLETIVA: No meu mundo, mulher sempre gostou de futebol

Durante 8 anos, fui filha única. Filha única de um pai completamente apaixonado por futebol e torcedor doente do São Paulo, simpatizante do Bahia e apaixonado pelas histórias do Ronaldo e do Zico FC. Não é de se estranhar que eu tenha crescido acompanhando os jogos ao lado do meu pai, gritando, vibrando, sofrendo, chorando em derrotas, e sabendo exatamente o que  é um impedimento e de que palavrões é possível chamar um juiz. E isso nunca soou, para mim, como algo "estranho". Eu nunca me considerei uma "menina diferente" porque "entendia" de futebol.

Muitas das minhas melhores amigas são apaixonadas por futebol. Por sorte, a maioria, como eu, são-paulinas fanáticas (há algumas corinthianas e santistas pelo caminho, fazer o quê). Por isso, muitas aulas, intervalos, rolês e saídas acabam entrando em discussões futebolísticas. Falamos sobre os jogadores novos que o time contratou, sobre o técnico que queríamos que fosse demitido, sobre aquele jogo "roubado" ou sobre o sonhado título da Libertadores do "ano que vem". Algumas vezes, discutimos também com os amigos fanáticos, e batemos de frente, sem medo de algum possível deboche por "mulher não entender de futebol". 

No meu mundo, mulher sempre entendeu de futebol. Não necessariamente minha mãe, por questão de gosto. Mas minhas tias, minhas amigas, amigas da minha mãe, minhas primas e outras conhecidas quaisquer. Todas devidamente torcedoras - como dezenas de torcedores homens que também conheço. Todos farinha do mesmo saco - apaixonados por futebol. 

Meu pai me ensinou a assistir a futebol e minha mãe me ensinou a brincar de Barbie. Então eu era isso: uma criança apaixonada por futebol e Barbie. Uma garota que entendia de São Paulo e bonecas. Uma menina que sentava no sofá para ver uma partida do Rogério Ceni enquanto penteava o cabelo da minha boneca preferida. Mas diferente? Eu?

Nem toda mulher precisa gostar de maquiagem e nem todo homem precisa gostar de futebol. Tudo bem gostar de outras coisas, cara. Alguns dos meninos por quem já fui apaixonada gostavam de escrever. Outros de cantar. Outro - juro! - gostava de moda. E daí? Qual o problema nisso?

No meu mundo, mulher sempre gostou de futebol. Gostou de tudo o que bem entendesse. Frequentou os mesmos lugares que os homens, batalhou pelas mesmas coisas, bateu de frente com essa ideia sexista que dá pra dividir o mundo em "coisas de menino" e "coisas de menina". O mundo é só o mundo e eu, eu gosto do que eu quiser, cara pálida.

Entendeu?


BLOGAGEM COLETIVA - Inspirada no clima de Copa, a blogagem deste mês tem um tema central: futebol. Quer escrever sobre o assunto também? Posta no seu blog, deixa o link aqui nos comentários até dia 20/06 e eu vou escolher um para ser postado por aqui. E os outros estarão devidamente listados também. Legal, né? Então corre pra me mandar a sua versão do tema. 



....Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?



3 de junho de 2014

Eu podia

Eu podia, você sabe. Podia falar horrores de você e dizer que você me magoou e dizer que doeu e dizer que ninguém devia acreditar nas coisas que você diz. Eu podia contar daquele jantar de quarta em que você abraçou e jurou e  foi quem eu sempre achei que fosse. Pior, eu podia expor quem você foi quando se esqueceu de tudo e enfiou o dedo na ferida, como se tanta coisa tivesse ficado presa e você precisasse magoar qualquer um, qualquer um, pra doer menos aí dentro. Eu podia dizer como você me tratou como qualquer uma.

Eu podia falar mal e apontar os seus defeitos e dizer das mentiras que você conta numa tentativa frustrada de ser logo a pessoa que você queria ser. Eu podia contar daquela vez em que você desviou os olhos e fingiu que não era com você, ainda que você soubesse que era e ainda que soubesse bem da culpa que tinha. Eu podia jogar na cara todas as suas palavras vazias de quem tem muito o que falar – e fala muito – mas no fundo não diz nada além de: eu não tenho ideia do que tô falando. Eu podia falar sobre o tanto que eu apostei em você – e sobre o preço que tô pagando por essa aposta.

Eu podia te contar de como minha mãe ainda pergunta por você e quer sempre saber se você tá bem, se tá com saúde, por que não vem mais aqui em casa. Eu podia revelar que ela sempre me culpa pelo nosso fim, porque é isso o que vocês mais gostam de fazer: achar que quem erra sou sempre eu. Eu podia, realmente, te perdoar por tudo e esquecer qualquer coisa e achar que a gente conseguiria começar tudo de novo. Mas eu sei e você sabe que não é exatamente isso o que você quer.

Eu podia continuar gritando e continuar escrevendo e continuar falando para todo mundo sobre tudo o que aconteceu e me irritando porque você sequer deu a chance da gente tentar consertar. Eu podia continuar mastigando essas dores e remoendo esse passado e me questionando por que a gente acaba magoando e sendo magoado por quem a gente ama. Eu podia espalhar por aí sobre a pessoa horrível que você foi e como todos deveriam se manter afastados.

Eu podia, você sabe. Mas sabe também que o tempo passou e que, com o tempo, um pouco de maturidade é acrescentado à soma. Sabe também que eu não tenho mais saúde, nem tempo, nem disposição, nem energia para ser a menina besta que adorava uma boa briga como eu era até outro dia. Sabe também que eu aprendi algumas coisas ao longo do caminho, inclusive com você.

Por isso, de todas as coisas que eu podia te falar, falo isso: enquanto deu, você foi tudo o que eu achei que era. Enquanto deu, você me aguentou e segurou as pontas e ouviu minhas dúvidas sobre o mundo e o universo e a merda toda que a gente tá fazendo aqui. Enquanto deu, você foi – e de todas as coisas que eu quero lembrar, lembro disso: de todo o amor que você me deu e eu tentei devolver no tempo em que fiquei na sua vida. Porque o resto, o resto é só a vida sendo a vida e os defeitos sendo os nossos defeitos e polos iguais se repelindo. É só isso, sem mais conversas, sem mais reclamações, sem mais nada.

Porque eu podia, te juro, podia. Mas já não posso. Já não dá.

20 de maio de 2014

Vê se se cuida


Vê se não esquece de tomar seu remédio duas vezes por dia. Não cancela os alarmes que programei, que senão você nunca mais lembra, cê sabe. Tenta não esquecer de fazer refeições mais saudáveis – o médico pediu para você maneirar se quiser se ver livre da gastrite nervosa. Coloca salada no prato, pelo amor de Deus. Ou por amor a si. Ou pelo amor que você já teve por mim. Não importa, só tô pedindo para você deixar um pouco o bacon de lado e tentar descobrir as vantagens do alface. Tô só te pedindo isso: nem que seja forçado, se cuida.

Tenta dormir umas 8 horas por dia. Esquece essa mania insana de querer abraçar o mundo com esses braços curtos que cê tem. Você é nova, não precisa querer fazer tudo de uma vez. Eu sei que a vida passa rápido, que o tempo corre, que ontem você era uma criança e amanhã já vai ter quase quarenta, mas quem se importa? Ficar nessa neura de querer realizar tudo – agora! – ainda vai acabar te matando.

Eu sei que você sempre amou essa coisa maluca da cidade grande, mas pisa no freio de vez em quando. Pega a estrada e vai pro campo. Visita aquele hotel fazenda que a gente costumava frequentar. Ou procura outro pra não acabar esbarrando comigo pelos lugares em que a gente foi feliz. Mas procura um lugar em que te lembre que ok ser mais calma. Lembra que você precisa disso uma vez ou outra.

Liga para sua mãe se precisar chorar. Ou para o seu pai. Ou para aquela amiga de infância. Agora que eu não estarei aí, não hesite em pedir ajuda. Ou, se não tiver quem procurar, me liga. Não tem problema, pode me ligar. Eu te amei um dia (e, de algum jeito estranho e escondido, ainda te amo), não vou desligar na sua cara. Só não segura tudo isso. Não segura todas as dores. Nem fica achando que você precisa seguir o estereótipo de mulher feliz e jovem e alegre que a publicidade vende nos comerciais de margarina. E nem por um segundo pense que, só porque a gente não tá mais junto, eu deixei de me importar.

 Olha para os dois lados antes de atravessar a rua. Avisa aos outros pra onde você tá indo. E começa a ligar pras pessoas só pra lembrar que você tá viva. Tenha mais cuidado ao se jogar de cabeça em todas as relações que encontra. E poupa um pouco seu coração pra ver se você acha, finalmente, um cara que te mereça – como eu não soube merecer. E vê se se cuida, amor. Que é desesperador pensar que eu, logo eu, não vou mais cuidar. 

4 de maio de 2014

Me deixa deixar de te amar em paz

Eu me lembro bem da época em que eu era a única solteira do meu grupo de amigas e escutava todas contarem as desventuras de seus relacionamentos amorosos. Quando alguma delas terminava o namoro, as nossas reuniões se transformavam em sessões de terapia durante semanas. Eu só observava, nem se quisesse conseguiria dar algum conselho porque minha experiência com esse tipo de assunto era praticamente nula. Entre um gole e outro na minha cerveja preferida, eu tentava disfarçar que lá no fundo pensava que tudo aquilo era muito mais drama do que tristeza. Afinal, como era possível que alguém passasse meses sofrendo por uma mesma pessoa? Parecia algo tão improvável de acontecer...

Apesar de não ser muito boa em guardar detalhes, gravei na minha mente aquela sexta-feira, há dois anos, quando te conheci. Na primeira noite, nós já estávamos na mesma cama e dois meses depois, na mesma casa. Primeiro ficou um casaco para o caso de surgir algum imprevisto, depois uma escova de cabelo, um par de chinelos, algumas camisetas extras. Você deixava um pedacinho de você comigo, eu largava uma parte enorme de mim com você, e assim nós fomos ficando cada vez mais juntos. Na verdade, acho que eu sempre fiquei mais junto de você do que você de mim. Parece até que a vida se encarregou de nos casar, colocou as alianças em nossos dedos e nós nem nos demos conta disso. Todos nos chamavam de loucos, diziam que estávamos nos precipitando, mas eu preferia enxergar tudo de um jeito mais poético. Era bom ficar imaginando que nós tínhamos nascido um para o outro e que não oficializar a nossa situação era perda de tempo, afinal, nós passaríamos o resto da vida juntos.

Sabe, eu não acho que a culpa desse meu envolvimento exagerado seja sua, por isso nunca te ataquei, nunca quis me vigar e nem guardei rancor. Eu sei que a culpa foi só minha, daquela minha adolescência reclusa que não me deixou aprender que amores vêm e vão, e que da mesma forma que chegam, as pessoas também vão embora. Ninguém me avisou que amar é uma das relações mais desiguais que existe, que dificilmente o outro se entrega da mesma maneira que você e que ele não espera você se desapegar para ir embora. Ele só vai, quando dá vontade, simples assim, como quem se cansa de um livro na metade ou desiste de um filme nos primeiros minutos.

Mas se você quer mesmo, vai de uma vez, nunca te prendi quando nós estávamos juntos e não vai ser agora que nós nos separamos que eu vou começar a fazer o tipo controladora. Sei que às vezes não consigo demonstrar, mas o que eu mais quero nesse mundo é te ver feliz. Caramba, tenta entender que eu ainda tô apaixonada, e que é difícil aceitar que essa sua felicidade não pode existir aqui do meu lado. Queria muito ser como você, me desapegar de um amor em menos de três meses e depois ter força suficiente para bancar a civilizada e manter a pose de “ainda somos bons amigos”, mas desculpa, não consigo. Eu não sou assim. Não consigo ver você me apresentar sua nova namorada e agir como se não me importasse, como se algo não estivesse sendo roubado de mim.


Eu só não quero que você fique de passagem aqui na minha vida, indo e voltando quando dá vontade, e ganhando meus beijos e os meus carinhos quando te dá saudade. Talvez seja difícil pra você compreender o que eu estou dizendo, mas é que ter você pela metade não é suficiente pra mim, e te juro que não é egoísmo, eu só não quero você aqui do meu lado agindo como se esse pouco que você me dá fosse suficiente para que eu fique bem. Só quero que você me deixe deixar te amar, e não precisa ser assim de mansinho como você está tentando fazer, pode ser de uma vez só, de uma hora para outra, do mesmo jeito que você fez quando decidiu ir embora.


SOBRE A AUTORAVANESSA CORREIA tem vinte anos, cursa engenharia civil, mas ama escrever. Uma eterna apaixonada por livros, princesas, novelas mexicanas e sorvete de chocolate. Acima de tudo, uma garota que sonha. 
Ela é leitora do blog e eu resolvi convidar para postar um texto aqui depois de dar uma olhada lá no Diário de uma Garota que Sonha. Para saber um pouco mais da Van, você pode encontrá-la no  Twitter  ou no Facebook




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