12 de janeiro de 2017

A vida é trem-bala, parceiro


Tentei postar o primeiro texto de 2017 algumas vezes. Antes do ano acabar, eu tinha escrito um sobre as resoluções para o ano novo. Também tinha um rascunho sobre perdão que eu podia ter colocado aqui. E um outro sobre amor. 

Mas nenhum deles explicava o que eu estava (e estou) sentindo, então resolvi que postá-los não seria sincero. Sei que isso não é um diário, mas às vezes o que você menos quer é um texto falso. Não é?

Quero começar 2017 sendo sincera com os outros e comigo mesma: não tô bem. Tô ficando e vou ficar, sei disso porque isso também vai passar (certo, Chico Xavier?), mas ontem eu não tava bem. Hoje, tô um pouco melhor, mas de vez em quando ainda dói. Vai doer um tempo. Vai ser difícil de acreditar. 

É que meu fim de ano foi pesado e triste, repleto de lágrimas, dores, choros angustiantes e uma despedida inesperada. E, não adianta, a gente nunca aprende a dizer adeus, aprende? Nessa época do ano, então, quando a gente deveria estar feliz; enquanto todo mundo está comemorando a chegada de um novo ciclo. É difícil; foi difícil. Como dar pause no mundo e explicar que a gente não quer um novo ciclo sem quem ficou pra trás?

Mas a vida continua, eles dizem. E a gente continua porque tem que continuar. 

E, enquanto eu continuo, enquanto aqui vamos recolocando os pedacinhos que caíram do coração, vim dividir uma música que vem me servindo de consolo: Trem-bala, da Ana Vilela. Talvez você inclusive já tenha escutado, porque ela está sendo bastante compartilhada depois de ter sido cantada pela Ana e pelo Luan Santana no Caldeirão do Huck, em 2016. Mas, se ainda não escutou, fica aqui a mensagem que eu deixo pro início desse ano. 

A vida é trem-bala, parceiro. 
E a gente é só passageiro prestes a partir.



13 de dezembro de 2016

Não trocaria minhas saudades por nada


Houve um tempo em que eu odiava sentir saudade. Puta sentimento doído, né?, eu pensava. Puta dor desnecessária que aparece quando a gente menos espera, numa quinta à tarde, quando a gente olha sem querer a foto de uma lembrança antiga. Sentir saudade pra quê?

O negócio dói mesmo, é verdade. Saudade é daquelas dores que pegam de jeito, que nem soco no queixo que deixa a gente tonto no final da luta. 

Mas, pensando bem, sentir saudade é bom. 

Que bom é ter essa certeza bonita de que, em algum lugar do passado, ainda que por poucos segundos, minutos ou dias inteiros, a gente foi feliz. A gente sorriu e riu e ganhou essas memórias alegres que nos invadem às 3 da manhã do dia 30 de dezembro, quando a gente olha pra trás. 

Vem com um buraco no peito, é verdade, e às vezes acaba numas poucas lágrimas ou numa dor de estômago ou numa pontada aguda no peito, mas, preciso ser sincera: não trocaria minhas saudades por nada.

Porque, se o contrário da saudade louca é o arrependimento de não ter me arriscado, de não ter ido quando quis ir, de não ter voltado quando precisei. Se o contrário de sentir falta de tudo o que vivi é não ter vivido, de fato, nada do que quis, de que me adianta? De que me adianta não vivenciar esses vazios sinceros que a gente sente quando lembra de um amigo, de um ano específico, de um país do outro lado do mundo? 

Então, que eu sinta saudade. Saudades loucas, doídas, sinceras. Que, às vezes, passe um dia inteiro nostálgica, pensando em tudo que passou e não volta mais. Porque prefiro isso a não sentir falta de nada. Ou de ninguém. 

7 de dezembro de 2016

Você foi a escolha que eu nunca pude fazer


Você foi a escolha que eu nunca pude fazer. Não que você não tivesse passado na minha cabeça e dominado meu coração, mas você chegou um pouco tarde mesmo que ainda fosse tão cedo. Não culpei ninguém por isso não – apenas eu mesma. Quer dizer, quem mandou querer sair esbaforida pra resolver a vida tão cedo? É que a vida tem dessas volta e sempre, não é? De te encostar na parede e dizer é agora ou nunca e fazer você decidir. Mesmo que por causa disso eu tenha corrido, eu quero te dizer que eu lembro todos os dias do que não aconteceu.

Eu lembro do quanto eu gostava do teu abraço assistindo Malhação. Eu lembro que você nem tinha barba e eu adorava sentir as tuas bochechas lisas nas minhas. Eu lembro que você fingia estudar e eu te flagrava me olhando por cima do livro que você deveria ler. Eu lembro que você sempre esteve lá por mim. E é sério, não é que eu não queria estar lá por você, mas a vida falou mais alto. E talvez a nossa incapacidade de compreender o que tínhamos fez a vida passar por cima da gente.

Passou o momento, oras. Acontece. Eu sei que ficamos os dois segurando toda essa tensão no ar, fingindo que nada estava acontecendo, por mais tempo que deveríamos. E droga, eu realmente lembro que nada aconteceu. Mas e você? Lembra quando você me deu um bolo porque a tua mãe não te acordou? Lembra quantas horas a gente passou confidenciando um pouco de tudo? Lembra do teu ciúme disfarçado? E é sério, não que eu não senti algo por você, mas seria um pouco sem sentido admitir isso. E eu sei que você concorda comigo, certo?

Você foi a escolha que eu nunca pude fazer. Aquele cara que me fez tentar ser mais consciente todos os dias, sabe? O tipo de pessoa que me fez querer ser mais, me cuidar mais e me respeitar mais. Aquele cara que me escutou sem julgar e me considerou independente do caminho que segui. O tipo de pessoa que me fez entender que existem pessoas boas no mundo. Você foi a escolha que eu nunca pude fazer. E talvez só por isso você conseguiu ser tanto. E muito. E sempre.



5 de dezembro de 2016

Eu preciso que você pare de esperar que eu "encontre alguém"

texto para pessoas solteiras

Tive uma crise há alguns dias. Eu, que em 95% do tempo ando bem resolvida com as minhas últimas decisões. Que sei bem que não preciso de um homem para me sentir realizada, feliz, bem-sucedida e inteira. Eu, que fiz a faculdade que quis, trabalhei nos lugares que desejei, juntei um dinheiro suado e me aventurei sozinha do outro lado do planeta. Mesmo quando muita gente achava que eu não conseguiria. 

Eu tive uma crise. Uma dessas que a gente não conta para ninguém (nem mãe, nem pai, nem irmão, nem melhores amigos) porque se envergonha de ter tido. Uma dessas que a gente não gosta que vire texto e fique exposta para quem nem te conhece. 

Ainda assim, eu tô contando pra você: tive uma crise.

Conto porque preciso que você pare. De verdade, já disse isso uma dezena de vezes, mas dessa vez eu preciso de verdade. Chega, está bem? Chega de querer me apresentar amigos que eu não pedi para conhecer. Ou de me falar daquele aplicativo que uma amiga sua usou e conheceu o amor da vida (provavelmente, eu já o usei também). Chega dos olhares de pena, como se eu fosse menor ou pior. Chega de me dizer, com a voz arrastada de dó, que uma hora eu encontro alguém. 

Eu preciso que você pare de esperar que eu "encontre alguém". 

O que você não entende é que, ainda que eu seja bem resolvida, ainda que eu esteja feliz e leve e realizando meus planos e sonhos, todo mundo têm seus 5 minutos de solidão em que bate o desespero. E, nesses momentos, eu me lembro de você. Você e seus olhares de pena. Você e suas frases repetidas para todas as pessoas solteiras que conhece. Você e sua vontade que eu case. 

É você que passa na minha cabeça no meio da madrugada, enquanto eu abraço meu travesseiro e choro, me achando uma merda por ter sido a que ficou pra trás. 

Porque é isto, entende? É isto o que você me faz sentir. Que não importa que eu tenha conquistado o emprego que queria, ou que eu pague as minhas contas, nem sequer que eu ajude financeiramente pessoas que eu amo. Não importa que há pessoas que me leem e que realmente gostam de mim, ou que eu tenha um número grande de amigos em quem posso confiar. Você me faz sentir como se nada disso importasse e, por alguns segundos, eu sou apenas a menina solteira no meio de um monte de amigos-casais. A que ficou pra trás enquanto todo mundo se encontrava. 

E você precisa saber que dói. Não ser solteira, mas você. Você me dói. Você torna mais difícil todo o trabalho de aceitação, de elevação da autoestima e de me sentir independente emocionalmente para seguir a minha vida do jeito que eu quiser. Você torna a tarefa diária de me aceitar como eu sou (e como eu tô) mais dolorosa, mais pesada e, com certeza, mais necessária. 

Por isso, por favor, vê se dessa vez você entende: eu preciso que você pare de esperar que eu "encontre alguém". Porque eu já me encontrei.  


28 de novembro de 2016

O agora é subestimado

Talvez seja a ocasião, mas, ultimamente, metade das conversas que tenho em algum momento chegam ao mesmo lugar: quais são meus próximos passos. Caramba... Eu não sei. Eu não sei o que vou fazer amanhã, semana que vem, ou, nos anos seguintes. Eu não sei! Frequentemente acontece de eu estar tão exausta que sequer consigo vislumbrar os próximos minutos. É como estar de volta à adolescência: uma criaturinha assustada sem saber o que fazer a seguir. E às vezes me pergunto se chegamos mesmo a descobrir... As coisas mudam com tanta frequência que tenho sorte se consigo acompanhar.

Eu, especialmente, tenho mudado tanto. Nos últimos meses, vivi tantas coisas que eu sequer havia imaginado que só o fato de eu manter minha sanidade (quase) intacta já me parece o bastante por agora. E o agora é sempre tão subestimado.

Tudo parece uma corrida. Uma história superficial em que cada momento é vivido em expectativa por algo que ainda não aconteceu; em que só o que existe é isso: expectativa. E às vezes nem é por tanta coisa assim. É só essa ideia de que a próxima pessoa, o próximo emprego, o próximo-seja-lá-o-que-for deve ser melhor. É um ciclo vicioso, me arrisco a dizer. E me mata lentamente.


Ao menos uma vez eu quero me deixar vivenciar exatamente este momento. Este bem aqui. Sem preocupações com o almoço de amanhã, o que farei quando acabar a faculdade ou o livro que comprei há semanas e ainda nem cheguei à metade. Minha vida já é estranha o bastante sem que eu precise adicionar uma dose extra de ansiedade. Eu só preciso estar viva. O restante eu descubro no caminho. Eu nunca lidei bem com roteiros, de qualquer forma.

* * *

O motivo da minha ausência por aqui é este: eu estava escrevendo um livro sobre a violência contra a mulher. Caso se interessem, ele está disponível para download neste link aqui: http://wp.me/p6p8qn-1vo.