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Voo 6747

Olhei pela janela bem rápido, só para sentir mais um pouquinho como era estar longe do meu universo. E então, puft. As férias acabaram e o avião já não estava mais no chão. Eu ainda estava muito leve e muito alegre para me importar que agora tudo iria voltar ao normal mesmo que o normal andasse me parecendo tão chato. E por isso ainda não estava triste. Mas também estava muito indisposta e com uma dor insuportável por ter ficado fora de mim e ter comido de tudo e em todas as quantidades que não deveria na última semana. E por isso não estava mesmo feliz. 

Peguei o livro que deveria ler para o vestibular só porque gosto tanto de fingir que eu consigo ser eu um pouquinho mesmo quando estou muito cansada de mim. Mas não consegui ler mais do que duas páginas porque eu estava com muito sono e no dia seguinte a rotina voltaria ao normal. Fechei os olhos e fiquei imaginando as pessoas me empurrando na Sé e decidi que eu deveria me dar o direito mais vezes de não ser a menina do sorriso amarelo e sim a garota do riso fácil. 

Meu estômago doeu e eu prometi silenciosamente que entraria em um regime o mais rápido possível. E lá estava eu novamente. Menos de meia hora de viagem e eu estava voltando. Encostei minha cabeça e escutei o ronco do meu pai e a respiração alta do meu irmão. E ri. Era engraçado como eles conseguiam não se importar com nada e ninguém e eu não conseguia fazer isso. E era irritante exatamente por eles não se importarem com nada e ninguém e esquecerem qualquer educação que se preze. 

O lugar ao meu lado tinha gente, mas nunca esteve tão vazio. E aí eu senti vontade de gritar por alguém, mas achei que ninguém ia me ouvir. Tanto tempo por aí gritando e ninguém nunca escutou mesmo. 

E então o piloto disse que já iríamos pousar e que estava frio em São Paulo. E eu já era eu mesma de novo. Sorriso amarelo, a dor tinha passado, as férias também. Eu gostava tanto da garota do riso fácil que eu conseguia ser de vez em quando, quando não perdia tempo me importando com coisas tão inúteis. E, quando era essa garota, sentia tanta saudade daquela do universo particular, que gostava tanto de se privar desse mundo maluco. 

E, de um jeito meio estranho, eu sempre estava buscando entender qual dessas era eu. E qual delas era só a que eu conseguia ser. 

E, no fim, talvez seja só vazio.

Comentários

  1. não delete o blog.
    " não ser a menina do sorriso amarelo e sim a garota do sorriso fácil."
    me identifiquei.

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  2. não delete o blog. [2]

    eu gosto dele :'(

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  3. É que o texto inteiro foi tristemente meigo, encantador. O que estragou foi essa terceira observação sobre deletar o blog.
    Deleta não, flor. Por nós :D

    :*

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