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Cinza


“E de vez em quando tudo o que a gente quer é mesmo dar um tempo da vida.”
(Tati Bernardi)




Alguns dias nublados me fazem pensar em suicídio. Calma, não precisa começar a procurar a carta de despedida ou olhar pela janela se eu não tô lá estatelada no chão. Não é isso. Mas é que é cinza. E, vá lá, cinza não é das cores preferidas da maioria das pessoas. Cinza me dá sono e preguiça e vontade de ficar na cama o resto da eternidade. É isso: esse suícidio de um dia, esse direito de não existir. Dias nublados me dão vontade de não existir. Aquela vontade de não levantar e não tô falando de depressão ou tristeza profunda ou qualquer coisa de gente que pensa realmente em deixar de existir pra sempre. É só essa preguiça que dá de levantar da cama e tomar café e sorrir e falar e ouvir e tudo que a gente precisa fazer quando existe. Às vezes não dá vontade. É só uma necessidade absurda de abraçar o travesseiro e falar: tá, quando o sol voltar me chama. Não dá pra se sentir triste e frustrado e cansado em dias de sol. Dias ensolarados alegram na força, na marra, é tipo uma obrigação. O sol quente tá lá te gritando: e aí, minha filha? Olha esse céu azul, olha eu e você aí deitada sofrendo? Vai viver, garota, vai existir por aí e coloca uma roupa colorida! O Rio de Janeiro me entenderia. Ele e seu sol e seu mar e seu céu e seu Pão de Açúcar e seu Cristo Redentor. O sol é o Cristo do Rio, com seus braços abertos e gritando: dá pra ser triste comigo aqui? Dias nublados deveriam ser feriado nacional: tudo bem, galera, pode colocar aquele filme na tv, pegar o chocolate quente e vegetar. Deveria ser lei: o direito à não-existência. Só naquele dia, durante algumas horas. Sem ouvir ou falar ou sorrir ou tudo o que a gente precisa fazer quando existe. Só o direito de não ter que levantar e tomar café e ir pra faculdade e fazer prova e pensar em um assassinato qualquer. Só o direito de não ter que seguir a rotina do dia a dia. É isso: dias nublados deveriam ter uma balada, festa ou algo do tipo. Pra compensar. Vai sair pra compensar o dia. Vai existir um pouquinho depois de não ter existido o resto do dia. Ou talvez não. Ou talvez nem a festa ou a balada compensem. O travesseiro ainda seria mais atraente e o filme e o chocolate. E a espera do sol pra tudo voltar ao normal e a rotina e o sorriso e falar e ouvir e gritar e viver. Dias nublados me fazem pensar em não existir. Posso?


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