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A última das amigas a casar. Ou talvez aquela que nunca se case. A que escuta três mil teorias sobre por que está sozinha, por que foi a que sobrou, por que não arranja o cara que vai a pedir em casamento e acabar com todos os seus problemas. A coitada, a sozinha, a encalhada. Acho, pra começar, que o casamento em si não resolve problema algum - de fato, é mais um deles. Não porque eu seja contra a instituição, acho até que eu sonhe em entrar toda de branco e coisa assim. Mas a união de duas pessoas diferentes, com manias diferentes, com vidas diferentes, com cicatrizes diferentes exige certa cautela e paciência. Ou pode dar muito problema. 
E a única madrinha solteira do altar é a que escuta como ela precisa do casamento. Porque alguém não consegue ser nada sozinha, certo? Não entendo - nem vou entender - a necessidade que algumas pessoas têm de cobrar relacionamentos alheios. Ah, mas nenhum namoradinho? Cuidado: vai acabar sozinha. E se acabar? Existe mesmo essa necessidade da aliança no dedo, do marido enroscado no braço, de mostrar pra todo mundo um troféu do tipo: consegui! desencalhei!?
Acho que o amor - e, portanto, o casamento - deveria ser bem mais do que um troféu. Troféu a gente guarda na estante e olha só de vez em quando - fica lá, para que os outros admirem sua conquista. Amor é bem mais do que algo a ser admirado pelos outros. Amor é interno, trato de duas pessoas, compromisso selado em silêncio. Amor não é aliança, festa, papel assinado. Isso é convenção social. Amor é lado a lado, é lutar junto, é ficar de mãos dadas. E se for pra ficar sozinha - que seja.  Amor não é obrigação, é presente.  
Deixa a última madrinha solteira em paz. Deixa que ela resolva seus próprios conflitos, que consiga ser feliz, antes de qualquer coisa, sozinha. Deixa que ela resolva se precisa de um namorado, se vai casar, se quer ficar sozinha. Não importa se ela tem 18 ou está beirando os 40. Se tem uma coisa que admiro nessa vida é que cada um resolve seus próprios problemas. E cada um decide o que machuca e o que não faz falta. Quando disseram que era "impossível ser feliz sozinho" estavam falando de amigos, família, não só de namorado. As pessoas ganhariam muito mais se se preocupassem com seus próprios relacionamentos ao invés de prestarem atenção nos (não)relacionamentos alheios.  Às vezes tem muito mais amor quem está sozinho do que aquele que se ilude em um relacionamento falido. Compromisso deveria ser muito mais do que provar qualquer coisa a qualquer um. Compromisso deveria ser, antes de tudo, uma promessa cumprida a uma pessoa. Não uma promessa quebrada aos que rodeiam.

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