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Carta à Maria

Maria, 

Talvez você estranhe esse meu contato agora, sem um porquê definido ou sem alguma data comemorativa que o explique. Mas é que você sabe, me conhece (ou conheceu, já não sei mais), sou dessas que guarda as coisas para si até estourar e ter que colocar para fora. Guardo em mim, como uma frase de música que ecoa sem parar na mente, aquela mensagem de texto que você me mandou. Não tive créditos de lhe responder naquela ocasião, além disso eu estava brava (e talvez ainda esteja) e magoada e decepcionada. Decepcionada, além de tudo, porque eu acabei acreditando nessas idiotices piegas de amizades eternas.

Você sabe, Maria, eu teria mesmo o que lhe responder sobre aquela sua última mensagem, e é isso que lhe faço agora, então a partir daqui saiba que essa carta é explicada por minha necessidade de lhe explicar o porquê desisti de nossa amizade. Aliás, acho que é aqui que mudo a nomenclatura e peço perdão pelo engano: nunca desisti de nossa amizade, em momento algum, nem por um segundo. Desisti, de fato, de correr atrás de você. Mas acho que aprendi com o tempo, e com algumas outras amizades e textos que li por aí, que se você se afasta de alguém que lhe é muito importante por um motivo ou outro e essa pessoa não corre atrás de você, nem lhe mostra que você faz falta, nem nada, talvez você tenha feito bem em se afastar. Veja que aqui não considero sua última mensagem como um sinal de que você se importava: pedir desculpas não era exatamente o que eu esperava, sabe, era mais algo como correr atrás para mudar aquela situação.

Acho que nunca vou conseguir explicar, nem entender, o porquê fiquei tão brava com você, ou em que momento isso aconteceu. Foi mais uma soma de fatores, umas desculpas esfarrapadas de que não tinha tempo, tinha que ver o namorado, sair com o namorado, respirar o namorado. Ou ainda a desculpa de que tinha isso, aquilo, qualquer-coisa-mais-importante. Tudo bem, para um ou outro compromisso sem importância em qualquer dia, com uma amiga que você visse sempre. Mas sempre tais desculpas para uma amiga que você jurava ser uma de suas melhores, e ainda em datas especiais (como meus dois últimos aniversários) e ainda quando já fazia mais de um ano que não nos víamos, ou que não nos falávamos com frequência. Entenda, essas coisas machucam. Ainda mais quando você aprende que quem se importa de verdade se esforça, não dá desculpas. Não entenda aqui que eu esteja menosprezando qualquer coisa. Não entenda aqui que eu esteja pedindo para ser mais importante do que tudo em sua vida, até mesmo porque eu nem quero ser tão importante assim na vida de quase ninguém, e nem estou querendo a primeira posição. Não foi por isso que desisti de correr atrás. É só que amizades, na minha vida, vêm em uma das primeiras posições de importância, logo depois da família, você sabe. Porque eu aprendi com minha mãe que namorados vêm e vão. E namorados que realmente importassem deveriam ser introduzidos às amigas. Que seja. O que me levou a agir da maneira como agi (ou não-agi, porque sumi de vez) foi que percebi quais eram as prioridades da sua vida. Veja bem, você definiu quais eram as suas prioridades. Apenas defini também quais eram as minhas. Isso inclui também "quem" era minha prioridade. E, você, não sei quando aconteceu, deixou de ser uma.

Entenda também que tudo isso aconteceu (você com suas outras prioridades) em um momento em que mais pessoas faziam o mesmo, então tudo isso somou-se em uma mudança drástica de atitude minha que exigia que eu parasse de me dedicar tanto a certas amizades. E relevar tanto certas coisas. Engoli, portanto, muito para chegar até o ponto em que tive que correr para longe de tudo e de todos - inclusive você. Foram muitas vezes e muitos gritos de ajuda, muito choro, muita lágrima, muito velório (pois é, você não soube, mas pessoas extremamente importantes faleceram nesse tempo e não tive seu ombro) e você não atendeu. Não se culpe, não foi apenas você e por isso que tudo foi ainda pior. Foi mais umas duas, três pessoas que eu colocava no meu mais alto pedestal de amizades e que, assim como você, caíram dele com tudo no chão e tudo se partiu. O que doeu em mim - porque eram amigas (ou eu achava que eram) de verdade. E eu achei que isso incluía "amiga para qualquer coisa, em qualquer lugar, a qualquer hora". Vejo hoje que foi um engano. Terrível engano.

Enquanto arrumava meu armário outro dia, li uma de suas cartas que me deu em algum aniversário, não me lembro bem, mas acho que de 16 anos. Ou então era uma carta de final de ano, Natal. Não sei, a data específica não importa, mas lembro que quando acabei de ler eu fiquei pensando "mas era tão amizade, tão forte, tão...tão." Eu fico pensando às vezes porque a gente deixou chegar nesse ponto, mas sei lá, acho que é da vida, faz parte e tudo mais. Não sei direito. Acho, também, que nem tem mais volta. Você seguiu sua vida e eu segui a minha e nem vejo mais nossos caminhos se cruzando de jeito nenhum. Às vezes as pessoas simplesmente seguem estradas diferentes, e nem sempre essas estradas levam a um mesmo lugar.

Acho que o importante, tanto para mim quanto para você, é saber que foi verdadeiro enquanto durou. Que as promessas não eram mentiras, eram só momento. E depois que o momento acaba, elas podem até parecer vazias, mas nunca falsas. Acho que é importante lembrar, vez ou outra, tudo o que a gente significou uma para outra, o quanto a gente se entendia, o quanto a gente ria, vivia. Mas depois ver que hoje também temos pessoas que fazem todos esses verbos no presente. É importante saber que alguém foi importante assim na vida como você foi importante na minha. Essa carta - ou sei lá - serve para você saber, então, que você foi importante na minha vida. E que, de alguma maneira, sei lá, você ainda é.

Com carinho,


Karine.

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