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013 - ou: Marco Zero

MARCO ZERO

Por Karine Rosa

Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias. Quarenta idas ao nosso lugar preferido. Duzentas noites de sonhos com você. E nada. Nenhuma notícia, nenhuma carta, nenhuma ligação. E eu esperando que você, pela primeira vez na vida, resolvesse cumprir alguma de suas inumeráveis promessas. E nada.

Toda quinta-feira. Porque quinta-feira para mim é um dia angustiante demais por tudo que faz parte da minha rotina e também porque quinta-feira era o dia que a gente se conheceu e se você estivesse por aqui até as quintas-feiras de hoje iriam parecer lindas. Sentar em frente ao meu telefone em casa e esperar alguma coisa. Esperar que ele tocasse ou que eu saísse de minha zona de conforto e covardia e resolvesse te ligar de uma vez. Nada.

Confesso que algumas vezes ouvi um toque agudo e constante assim de longe e atendia correndo, achando que fosse você aí do seu lado do mundo querendo saber qualquer coisa de mim. Nunca era você querendo saber coisa alguma. Nunca era nem o telefone tocando. Nunca era. Era só imaginação. E eu aqui querendo saber qualquer coisa sobre você e esse seu lado do mundo e querendo ligar e não tendo coragem. E o telefone no gancho. E ouvir de longe ele tocando. E unhas batendo na mesa e fazendo aquele barulho constante de cavalgada, chato, de uma espera angustiante. 

Dessa vez não. Dessa vez nada de ficar em casa na quinta-feira. Nada de olhar para o telefone e ficar o ouvindo tocar sem tocar. Ônibus e metrô e chego à Sé. Sento em um dos bancos da praça e fico olhando tudo à minha volta. O grupo de turistas se revezando para tirar a foto no prisma hexagonal de mármore para mostrar que estiveram no centro geográfico de Sampa. E eu querendo estar no centro geográfico de outro lugar do mundo.  

Quando dão uma brecha e ninguém está por ali, me aproximo. Não, eu não queria tirar uma foto. Eu só queria fazer qualquer coisa. Qualquer infeliz coisa que me fizesse parar de querer correr para casa para ver se você ligava. Fico olhando a parte superior do monumento. Paraná, Rio de Janeiro, Minas, Santos, Mato Grosso e Goiás. Todos esses nomes gravados em uma placa de bronze com letras maiúsculas na borda do hexágono. No meio, a representação de lugares importantes da cidade. Penso: nenhum desses lugares é importante para mim. Você não está em nenhum deles.

Volto a me sentar em um dos bancos, que agora também está ocupado por um casal e quase sinto náuseas. Me concentro nas pessoas indo e vindo apressadas. O rapaz no auge de seus 23 anos vestido com roupa social e com uma mochila preta nas costas esbarra no senhor de camiseta e calça jeans que vem na direção contrária. Talvez esteja querendo chegar logo no metrô e não encarar a multidão de bichos que parecem ficar por lá no final de tarde.

Olho a escada cinza da Catedral. No canto esquerdo, um homem com trajes simples, camiseta marrom e uma bermuda jeans rasgada, a sobe ajoelhado. Está no terceiro degrau. Faltam cerca de vinte e cinco. Algumas pessoas, sentadas na escada, ficam o olhando. Outras estão deitadas, cochilando, sem sequer notar qualquer coisa à sua volta. Penso: será que se eu fizesse uma promessa como essa, de subir escadas de joelho, será que tudo ficaria bem entre nós de novo? Acho que não. 

Resolvo entrar na Igreja e pedir qualquer coisa assim. As duas torres de uns noventa metros de altura, uma de cada lado, de pontas verdes-água com uma cruz em cima, parecem ainda maiores. Me sinto a menor das criaturas do mundo. Além disso, a Catedral da Sé, para mim, é quase igual à Igreja Voltiva, em Viena, que você dizia que era aonde nós iríamos nos casar um dia. Lembrar isso faz meu coração dar uma pontada.

Desisto. Sou fraca mesmo, não consigo parar de pensar em você mesmo. Giro meus calcanhares e desço as escadas, assim que vejo que o orelhão foi desocupado. Eu quero ligar. Vou ser corajosa. Chega de esperar uma ligação sua que nunca veio.

O telefone retangular azul logo a minha frente, olhando para mim e eu escutando o que ele diria se telefones pudessem falar: vai, me usa e liga, eu deixo. Respiro fundo. “Eu consigo”, fico pensando. A cabine redonda amarela em sua volta, tentando dar o máximo de privacidade que alguém pode ter ao telefone no meio da tarde, no meio de uma rua.

- Moça – uma mulher com seus trinta anos mais ou menos, cabelos presos em um rabo de cavalo e expressão cansada me cutuca no ombro. Viro-me em sua direção. – você vai usar o telefone? – balanço a cabeça afirmativamente, enquanto coro por estar a tanto tempo olhando o telefone sem ter coragem de discar logo esses números. 

Aí lembro que fugi de casa e do meu próprio telefone porque não queria ligar. Fui pra rua porque não queria ligar. Fui andar e ver gente e ver lugares e qualquer coisa que me fizesse esquecer.

Disco os números que já decorei e espero. Será que você sente essa vontade de ligar e saber como eu to, como eu ando, se eu já te esqueci, se eu tenho outro alguém? Talvez você também escute o telefone tocando de longe e atenda e nada. Talvez você tenha ligado e tava ocupado. Ou eu não tava em casa. E por isso talvez você tenha desistido. De ligar e de...

- Pronto. – você atende com voz de sono. Então lembro que aí já é madrugada.

- Oi – eu falo e espero que você reconheça a minha voz e você fica em um silêncio que me dá vontade de chorar. E eu rezo baixinho: não pergunta quem é.

- Nossa – você fala e eu suspiro. – quanto tempo. Como ta? – você boceja e eu espero que isso não seja um sinal de que quer desligar.

- Bem e você?

- Também. E aí, o que foi?

- Nada, só tava com saudade. – suspiro. Não devia ter ligado.

- É, eu também. Pensei em te ligar... 

- Ahn...então qualquer hora liga pra gente conversar. Vou deixar você dormir. Desculpa por ter te acordado.

- Ta, eu ligo. Se cuida.

- Você também.

Te amo. Não, não falo. Você já desligou. Eu também. Ando de novo em direção ao marco zero. Talvez um marco zero seja tudo o que eu preciso. Nada de você daqui para frente. Nós dois sabemos que você não vai ligar. Você não desistiu de ligar. Você desistiu de mim. Vou deixar você dormir agora. Em outra cama. Bem longe do meu coração. Talvez eu nunca te esqueça mesmo. Talvez eu pense em você durante muito tempo. Mas nada de esperar que você aja como se me amasse a partir de agora. Porque você não ama.


Conto feito para um trabalho da faculdade Mackenzie - 2011. 
Por Karine Rosa 

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