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As pessoas olham para ela sem entender. Para que todas essas crises sem motivo? Para que essa necessidade eterna de gritar? Cansa toda hora ter que ouvir os murmúrios de reclamação de alguém que costumava estar bem o tempo todo. Que saco. Antigamente ela era tão leve e tão feliz e tão simples de conviver. Agora tá aí com essas crises baratas de quem não sabe o que quer, o que é. Mas ela continua: tem um buraco dentro de si que ela não consegue preencher, então fica aí, nessa dúvida se é isso mesmo, se é isso aí.
Quando ela era criança, ela queria ser cantora. Depois quis ser presidente. Depois quis ser atriz. Depois quis ser jornalista. E foi ser jornalista, olha só. E todo mundo disse, mas, ah, que legal, parece você mesmo. E depois todo mundo disse, mas, ah, que coragem de fazer um curso que nem precisa de diploma. E ela sente esse medo desesperador do jornalismo ter sido só mais uma dessas vontades de menina mimada que não sabe o que quer ser quando crescer. E se ser jornalista não fosse realmente o que ela queria? Mas ela nem se questiona, porque é feio uma garota de quase vinte anos não saber o que quer ser quando crescer.
Ela tem uma vontade gigante de ir morar em uma praia, em uma casa simples, arranjar um surfista e ser feliz. Mas isso é tipo aqueles sonhos bobos que todo mundo fala, mas ninguém quer mesmo para si. Na real, ela queria, ela tinha vontade de ter uma vida assim, simples, leve. Vive tão cansada dos pesos diários que viver em uma cidade como São Paulo traz para si. Vive tão cansada dos pesos diários que é ser pseudopsicóloga de tantas amigas e de ouvir, aconselhar, tudo isso que sempre faz.
E ela queria um colo, sabe? Talvez tudo o que precisasse era um colo durante uma noite inteira e poder reclamar da vida sem ninguém reclamar de suas reclamações. E ela queria que no final alguém dissesse "tudo bem, tudo bem não saber se é isso memo, se é isso aí". Mas ah, que saco! Ela já foi tão mais leve, mais simples, melhor de conviver...

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