Pular para o conteúdo principal

020

Eu sentia borboletas no estômago na primeira vez que eu iria ter a oportunidade de vê-los de perto. Era para ser uma tarde de autógrafos e eu havia dormido pouco, pois eu e minhas quatro melhores amigas não conseguíamos dormir de jeito nenhum. Quase cinco horas da manhã, saímos todas e seguimos em direção ao fim do mundo – é, porque ô lugar longe que eles resolveram fazer aquele evento. Evento também não é uma palavra para descrever o que toda aquela confusão foi. E reservo aqui o direito de dizer apenas isso. Não, não gosto de lembrar. A sensação que me vem toda vez que fecho os olhos e me lembro de pessoas caídas é horrível. Não foi nada do que a gente imaginou. Mas por pior que possa parecer, a gente os viu. Ali, pertinho, pela primeira vez. Foi péssimo e ao mesmo tempo surreal. Depois dessa vieram outras vezes. Horas e mais horas nas filas. Comprar ingresso, praticamente acampar na porta do Morumbi. Quase ninguém entendia. Mas não precisava. Eu entendia – era suficiente. Veio o primeiro, veio o segundo, veio o terceiro. Nenhuma vez foi como o primeiro. Nenhuma vez teve aquela emoção suficiente para me levar às lágrimas. Nenhuma vez mais tive coragem de passar tantas horas para assistir um show.  A coisa foi diminuindo, a sensação, a alegria. De repente eu tinha mais com o que me importar. De repente eles vinham fazer show e eu nem aí. De repente anunciaram que acabou e ok. Ok. A gente não sabe direito em que momento exato a gente vira uma página. Só depois de viradas muitas delas, quando já estamos em outra parte do livro, é que é possível olhar para trás e ver que já ficou, que foi. Eles foram para mim algo que foi. Foi lindo, foi ótimo, foi sensacional. Mas foi. Não é mais.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Querido namorado da minha ex-melhor amiga,

Ela chorou durante uma semana quando o primeiro cara quebrou o coração dela. E a gente passou o fim de semana vendo Diário de Uma Paixão e Um Amor Pra Recordar por vezes seguidas. A gente comeu brigadeiro, e tomou sorvete, e eu dei colo, e eu ouvi e limpei as lágrimas. Você não viu, porque você não tava lá, mas eu tava. 
Ela sofreu para escolher que faculdade iria fazer. E me fez ir a palestras e cursos com ela, mesmo que eu não estivesse interessada em nada daquilo. E me fez saber um pouco mais sobre as profissões que tava considerando. E pediu minha opinião milhões de vezes. E só decidiu o que iria prestar no vestibular aos quarenta e cinco do segundo tempo. Você não ficou nervoso com a ansiedade de ver se ela tinha passado na faculdade pública, mas eu fiquei. Porque você não tava lá, e eu tava. 
Ela conheceu um monte de babacas nos anos seguintes. E algumas vezes chorou, algumas vezes bebeu, algumas vezes disse que nunca mais ia ficar com cara nenhum. Algumas vezes ela só dormiu com …