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021

Se você tivesse me procurado, como disse que faria, assumo que toda essa história teria sido bem mais simples e mais fácil. Eu fiquei esperando, enquanto fingia para todo o resto do mundo que eu não tava nem aí, que tinha os filmes, que tinha os livros, que tinha as baladas, que tinha a vodka. Fui me enchendo de coisas e pessoas e situações para não lembrar de alguns sentimentos. Assim, no plural. Porque deixou de ser só amor. Era amor, confesso. Mas era raiva, era ódio, era tristeza, era decepção. E era vergonha na cara. Mais do que tudo, era vergonha na cara. Porque eu jurei para mim mesma que eu nunca mais ia correr atrás. Você viu, tá de prova. Não liguei, não procurei, não fui atrás. Fiquei aqui, na minha, vivendo minha vida cheia de festas, bebidas, pessoas, risadas. Não parei de viver, não chorei horrores, não fiquei me lamentando. O que não significa que não tenha doído da mesma maneira. O que não significa que eu não tenha sentido uma falta absurda. O que não significa que eu não tenha pensado em você com uma frequência maior do que eu gostaria. Mas você pediu: vai viver sua vida e me esquece. Perdão se a segunda parte do pedido demorei a atender. Mas vivi. Deixei para trás essa necessidade absurda que eu tinha de ter você para mim. Deixei para trás essa necessidade absurda de saber como você tava, com quem andava, se tava feliz, se tava triste, se sentia saudade. Ok, dói, mas a gente supera, se arrasta por aí até que um dia a gente consegue estar de pé de novo. Sem essa de bicho de sete cabeças, coração partido não mata. Sangra, arde, dói, mas não mata. Não morri, tô aqui, não tá vendo? 
Tudo teria sido bem mais simples se você tivesse corrido atrás. Todo o meu silêncio, todo o meu sumiço, toda a minha indiferença era só essa vontade ridícula de que, uma vez na vida, fosse você quem ligasse, quem procurasse, quem sentisse falta. Que quisesse saber como eu tava, com quem andava, se sentia saudade. Era só essa vontade ridícula de que aí de longe você percebesse que todas aquelas festas, aquelas pessoas, aquelas bebidas e aquelas risadas não me preenchiam do jeito que você me preenchia. Era só sonho de que você se tocasse de que eu era sua, só sua, e seu lugar tava guardado e eu te esperava e eu te aguardava e eu tava dando o tempo que você queria. Eu era sua, tão sua. Mas você não correu atrás, não procurou, não ligou, não quis saber. Que droga, tão sua e você largou no vento como quem enjoa de um sapato velho, como quem troca de celular. Eu te esperava, droga, eu te esperava. Eu fui embora rezando que você fosse me buscar. Você nunca foi.
E aí chega uma hora, cara, que a gente tem que deixar pra lá. Sei lá, não entendo essas coisas de amor unilateral, não sou dessas. Não nasci pra isso. Nasci pra troca. Pra olho no olho, pra sinceridade, pra lealdade, pra fidelidade. Se sou louca e demente e vou morrer sozinha por acreditar nisso, ok, amigo. Ok. Mas eu sou assim, quem dera pudesse ser diferente. Quem dera pudesse aceitar esses restos e essas migalhas que você sempre me destinou. Mas não posso. Se for para me amar, me ame com força. Amorzinho meia-boca é pra gente meia-boca, cara. E eu tenho muita boca. E aí: deixei para lá. Doeu, sangrou, ardeu. Mas eu não faço o tipo que chora um desamor para sempre. 
Ontem recebi uma mensagem sua. Tive que sentir todos aqueles sentimentos que eu fazia de tudo para esquecer. Era raiva, era ódio, era tristeza, era decepção. Mas aí eu percebi que não era mais amor. Que eu só me importava como quem se importa com um amigo que desaparece e não dá notícias e volta quando os outros amigos sumiram. Que era raiva de quem se sentiu esquecida, mas não de quem se sentiu não-amada. Eu li sua mensagem e pensei: se você tivesse me procurado antes tudo teria sido tão mais simples e fácil. Mas amor, amor tem sim prazo de validade. Não dá para insistir em amar alguém que não te ama a vida toda. Eu não sei fazer isso. O amor deve ter se escondido aí em algum canto do meu coração. Mas eu vi a mensagem e só consegui pensar: ó, ó aí o que acontece. Você despreza alguém um dia, no outro ela te esquece.


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