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023 - ou: o que não te mata endurece o coração

A vozinha mais bonita que chega do nada, depois de tempos sumida. E um sorriso que parece ser feito por encomenda. Ninguém nem imagina que por trás daquele sorriso há uma infinidade de interesses. Ninguém nem imagina que depois de conseguir o que quer e de soltar mais um de seus sorrisos amarelos, ela vira de costas e desaparece de novo. Ninguém percebe porque ela encanta de um jeito diferente, conquista, faz parecer que ama todo mundo.

Tem um jeito que te ilude fácil. Não adianta o quanto você observe, o quanto você seja desconfiada, o quanto você tenha um pé atrás. Antes mesmo que se dê conta, você faz tudo o que ela pede. E se importa. De verdade. Do tipo que corre atrás das coisas para ela desesperadamente. E ela conquista um sonho graças a você. E a seu esforço.

Aí vem outro daqueles sorrisos que te encantam. E você pensa: amizades assim que fazem a vida valer à pena. E você pensa: ela faria o mesmo por mim. E você pensa: ela está agradecida e está feliz e vai lembrar disso para sempre. E tudo bem, porque você não precisa de muito em troca além de saber que fez uma amiga feliz. Porque amizade é isso, ficar feliz pelo outro. Ou era.

Ela some depois de poucos dias. Você fica preocupada. Procura. Ela é quase indiferente a você. Você insiste em acreditar que ela anda ocupada, que é impressão, que não foi indiferença, foi pressa. Ela some e você começa a criar mil teorias: é a faculdade, é o emprego, é o namorado, é a família, é a vida. Você nem se dá conta que em nenhum momento ‘é você’.

Ela aparece de novo. Um sorriso daquele. Um abraço apertado. Uma declaraçãozinha de amizade que te comove. Um agradecimento por aquele outro favor. Uma gratidão que nunca demonstrou. Um amor de pessoa. Mas que amiga! E de repente: um outro pedido. Você ameaça fazer tudo de novo. Você quase corre atrás sem nem pensar. Você quase ajuda. Quase.

Mas você lembra de repente quando ela não estava lá. Você lembra da falta. Da ausência. Da indiferença. Você lembra que ela estava sempre ocupada. Que não tinha tempo. Que quando você precisou ela não pôde. Você lembra que ela some. Desaparece. Você lembra que nenhuma das vezes em que voltou deixou de pedir algo. Você lembra que não é tão ‘amiga’ quanto pensou.

E você fica sabendo que ela anda por aí dizendo que você é um ‘contato’.

Você se sente uma idiota. Dói. Machuca. Desilude. Mas o que não mata endurece o coração. E você sorri. Aquele mesmo sorriso. Faz aquela mesma vozinha fina. Encanta tanto quanto ela. E diz que não dá. E pensa: tem pessoas que merecem mais o meu esforço. E pensa: não vou me desgastar. E pensa: não sou obrigada. E sorri. Aprendeu a lição.

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