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Mãos dadas


Não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele. 
(La Fontaine)

Recostei a cabeça na janela e me permiti ver. Um mundo que estava deixando. Não estava prestando atenção a nada. Não havia nada ao que prestar atenção. Havia dentro de mim muitos mais sentimentos e confusões aos quais deveria me atentar. 
Então me deixe explicar assim: não é nada feliz, nem alegre, nem libertador, nem novo, nem nada. É vazio puro, na verdade. Não é questão de amar ou deixar de amar, ou de ainda sentir algo por ele. É só o peso de uma aliança que não estava mais ali. É só que não é feliz o fim de algo que tinha tanto sabor de começo. 
– Com licença. – ouvi ao meu lado. E então senti minha cadeira se movimentar com o peso dele sentando-se tão próximo. Tentei evitar, mas foi como um imã, meu olhar foi puxado a ele e eu o vi. Primeira vez. 

Meu estômago retorceu. 

A gente sabe quando encontra alguém especial? A gente sente? Alguém avisa? Há sinos? Há borboletas? Há algo?

Não. 

Mas meu estômago retorceu.

Ele se movimentava sem parar. Com o canto do olho eu registrava cada ação. Sorri, quando vi que suas mãos suavam. A voz ao fundo anunciava que iríamos decolar. E então ele conferiu pela trigésima vez se o cinto estava apertado, se a cadeira estava na posição correta, se a mesinha a sua frente estava fechada.
– Medo? – não resisti a perguntar. Ele deu um pulo, como se só agora voltasse a perceber que havia alguém a seu lado. Sorriu, sem graça. E balançou a cabeça afirmativamente. – Não vai acontecer nada. Não dessa vez. 
– Como sabe? – perguntou. Eu ri. Queria responder: seria muita crueldade que Deus deixasse que acontecesse algo com você, pensei. E ri. Que piegas. 
– Eu só sei. – respondi. – Não vai ser dessa vez. Não agora. 
– O medo não passa com essa resposta. – ele riu. – Pedro. – ele se apresentou.
– Ana. 
– Posso te contar um segredo? – perguntei. Pode, ele respondeu. – Eu acabei de me separar. Não sei como eu me sinto sobre isso. Mas sei que se esse avião caísse e eu morresse, eu não ficaria tão triste. – ele arregalou os olhos e eu ri novamente. – Mas Deus não tem atendido minhas preces durante 26 anos. Então relaxa, não vai ser agora. Não dessa vez.
O avião acelerou. Ele fechou os olhos. Sem perceber, agarrou minha mão. Com força. Agarrei de volta.
– Não solta. – ele pediu em um murmúrio.
– Não solto. 
O avião já estava no ar há alguns poucos minutos quando ele abriu os olhos e virou para mim novamente. Estava sem graça. Ia soltar minha mão, mas eu a segurei com força. Sorri. Balancei a cabeça negativamente.
– Não solto. – falei novamente. Ele sorriu.
– Posso te contar um segredo? – Pode, eu respondi. Por favor, pode. – Minha mulher morreu em um acidente de avião há alguns anos. 
– Você a amava? – perguntei.
Ele me olhou estranhando. Acho que estava mais acostumada que perguntassem outras coisas: doeu; como você lidou; você superou? Mas eu só queria saber: ele a amava?
– Não. – ele respondeu. – Mas eu era apaixonado por ela. 

Entendi.

– Você o amava? – ele olhou para o meu dedo, para a marca da aliança que não estava mais ali.
– Não. – respondi. – Mas eu era apaixonada por ele. 
Ficamos em silêncio. Mas não foi um silêncio desesperador. Nossas mãos continuavam entrelaçadas. Assim, fortes. Como se não fossem mais se soltar. Não iam.
– Passou o medo? – perguntei.
– Passou. – ele respondeu.
– Indo para casa ou saindo dela? – eu perguntei.
– Depende. – ele respondeu. – E você?
– Depende. – ri. 
A viagem já estava quase no fim. Nunca fiquei tão triste de um vôo Rio-São Paulo ser tão rápido. Logo nós soltaríamos as mãos. E eu teria que enfrentar a realidade novamente. Que agora eu estava sozinha. Que não tinha mais aliança no meu dedo. Que depois de quatro anos no Rio, eu voltaria aos meus pais. Com o rabo entre as pernas, os planos destruídos, o fim de um começo. 
Minhas mãos começaram a soar. Minha garganta fechou. 
– Medo? – ele perguntou, vendo meu nervosismo.
– Muito. – respondi, com uma taquicardia desesperadora. – Não solta. – olhei para nossas mãos, enquanto o avião pousava. 
– Não solto. 
Desembarquei do avião com ele. As mãos ainda dadas, enquanto andávamos até o local onde iríamos pegar nossas malas. Falávamos coisas sem importância, mas que me fazia conhecê-lo melhor do que muitas pessoas que convivia há anos.
Ele era roteirista da Globo. Contei a ele que eu sonhava em escrever um livro. Ele contou que queria viajar o mundo. Contei que um dia eu moraria em Paris. Ele disse que só tinha medo de avião. Assumi o meu medo da solidão. Ele estava sozinho há quatro anos, desde a morte de sua esposa. Eu estava sozinha há dez horas. 
– Me liga. – ele disse, já com a mala na mão. Tinha acabado de gravar seu número em meu celular. Balancei a cabeça.
– Te ligo.
– É sério. Não esquece.
– Não esqueço.
Finalmente nossas mãos se soltaram. Mas enquanto eu olhava em seus olhos, tive uma certeza: nós entrelaçamos muito mais do que nossas mãos naquele vôo. 


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