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Peligrosa

“Entendem a letra de uma canção, mas são incapazes de entender a melodia.” (Livro: Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado)


De repente fez-se um silêncio absurdo.

Acuado, ele olhou ao seu redor para saber se as pessoas ainda estavam ali ou se ele tinha entrado em alguma espécie de mundo paralelo. Continuavam. O silêncio era explicado pelos olhos arregalados em direção a mulher mais linda que aquelas pessoas já haviam visto na vida.

Ninguém conseguia acreditar que alguém com aqueles olhos azuis podia ser algo além de um anjo.

Um anjo.

Ele também achou. No fundo, em uma parte que tentava esconder até de si mesmo, ainda achava. Um anjo com olhos de águia, que conseguia decifrar as pessoas em segundos. Aliás, a capacidade de decifrar o mundo era o que mais o encantava. Capacidade essa que ele não tivera com ela.

Mas não há que se julgar esse mocinho.

Ninguém diria.

Agora, assim, depois de tudo, todos gostavam de dizer “ah, mas eu já suspeitava”, “ah, com essa cara de fingida”, “ah, sempre desconfiei”. Mas não. Ninguém nunca nem suspeitara.

Um sorriso lindo. Um jeito só dela que encantava. Dançarina. Linda. Cheia de amigos. Super bem sucedida.
Ele, músico, sensível desde criança, sensitivo, ainda se condenava por não ter percebido. Fora alvo fácil aos encantos dela. A vítima predileta. A que mais ela tinha conseguido ferir – e ainda estar ali para contar a história.

A história:

Pessoas se apaixonam. O tempo todo. Em cada canto do mundo.

Não seria diferente naquele canto de São Paulo.

Eles se conheceram no Vegas, em uma noite da Augusta. Ninguém nem sabia que um “oi, oi, como vai?” ali podia render em alguma coisa. Ela estava escondida por detrás de quilos de maquiagem e um vestido curtíssimo. Estava com algumas amigas. Ele fora acompanhado de sua banda, apresentaram-se aquela noite.
No palco, ele, no canto esquerdo tocando guitarra, reparou nos olhares que ela lhe lançava. E, depois do show, foi lá, conhecer, ver quem era, se apresentar. Trocaram telefone. E o resto você já pode imaginar. Um relacionamento relâmpago. Desses que a gente nem sabe como chegou ao ponto em que chegou. Fato é que logo ela estava morando com ele.

“Eu te amo”, ele dissera.

Seu maior erro.

Ela nunca saberia o que era o amor.

Erro meu.

Melhor: ela sabia. Como a gente sabe a fórmula de física para a prova do vestibular. Como a gente sabe as partes teóricas de coisas que nunca colocamos na prática. Mas sentir amor? Não. Não que ela não quisesse. Não porque fosse uma escolha que fizera quando nasceu ou quando estava na adolescência ou depois de alguma decepção qualquer. Ela só não podia. Não tinha como.

Não existe amor em SP.

O presente:

O silêncio continuava. Ele já tinha se despedido de suas lembranças. Já sentia náuseas novamente por ter que ver aquela cena.

– Como você pôde se apaixonar por ela? – sua mãe perguntou, ao seu lado, ultrajada que seu filho tivesse convivido tantos meses com aquela pessoa.

– Não é como se eu tivesse tido escolha. – respirou fundo. – Quando eu vi, já tinha acontecido.

– A gente sempre tem escolha. – ela respondeu.

Mas ele não ousou a contrariar.

Talvez fosse verdade. Talvez algumas pessoas tivessem escolha.

Não ele. Não com ela. Não com o amor.

Lembrou-se, novamente, da última conversa que tivera com aquela mulher, já depois de tudo, já depois de saber bem com quem estava lidando.

– Por que eu? – ele perguntou – Não tenho dinheiro, não tenho influência, não faço parte da alta sociedade, não faço o perfil dos seus outros casos, nada que pudesse lhe interessar. Então, por que eu?

– Seus olhos. – ela respondeu, sorrindo. – Você estava encantado. Era fácil. Simples e rápido. O erro das pessoas é esse, deixar-se ser transparente. Há que se esconder, deixar-se ser mistério para que você possa ser levado a sério. Pessoas transparentes são alvos fáceis. Você foi um alvo fácil.

– Só isso? Não foi por que você gostou de mim, não foi carinho, não foi compaixão, não foi amor?

– Amor? – ela riu. – O que é isso? É de comer?

Então era isso. Ela estava com ele pelo simples prazer de usufruir de seu carinho, de sua atenção, de sua casa, de sua família, de seus amigos. Estava com ele pelo simples prazer de destruir seus relacionamentos, destruir sua banda, destruir seu coração.

Ela não era a única.

O mundo estava cheio de pessoas como ela. Olhos azuis que pareciam de anjo.

Anjo, certo?

Não que estivessem errados. Um anjo, caído.



Antes do fim, ele levantou-se e saiu sem olhar para trás.

Era ainda dia. Os carros passando de um lado para o outro. Já estava no alto do viaduto, encarando tudo.

– Submetida a julgamento nessa data, sob a suspeita de ter cometido nove homicídios contra seus ex-namorados por motivo torpe ou de benefício próprio, o Estado declara a réu Nicole Fernandes culpada.

Mas ele não ouviu o veredicto. Não importava.

Seis horas da tarde. O trânsito caótico. Um helicóptero filmava de cima aquela cena. Um corpo no meio da rua impedia que os carros passassem. Ainda não sabiam o nome, a identidade, o motivo. Sabiam, apenas, que aquele homem não voltaria para casa naquele dia.

Logo, quem sabe, descobririam.

Aquela era a décima vítima de Nicole F.

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