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Das coisas das quais me arrependo

Todo mundo sempre diz que se arrependimento matasse, meio mundo estaria morto. Por outro lado, tá cheio de gente por aí gritando aos quatro cantos que não se arrepende de nada do que faz. Também já fui dessas. Mas se for pra ser sincera, sem máscaras, te revelo: me arrependo. De muita coisa.
Me arrependo de não ter largado tudo e ido viajar como eu disse que faria quando acabasse meu colegial. De não ter tido a coragem de me desprender da minha vidinha segura e me arriscar só um pouquinho, só pra variar. De ter ficado quando o que eu mais queria na vida era ter ido. 
Me arrependo de ter acredito em muita gente. Gente que mentiu, que machucou, que falou mal, que fez intriga, que gerou ódio. Gente responsável pela minha gastrite. Gente que não merece nem que eu olhe no olho, mas que mesmo assim conseguiu meu perdão. Me arrependo de ter sido boba e perdoado - e aí ter quebrado a cara de novo. É muita acusação, muita fofoca, muita falsidade. Não tenho estômago pra tanta gente ruim.
Me arrependo por cada vez que me doei demais para as pessoas. Que fiz de tudo, que corri atrás dos sonhos delas, que esgotei minha alma. Por gente que nunca fez nada do tipo por mim. Me arrependo por cada vez que coloquei na cabeça que eu deveria fazer as coisas sem esperar nada dos outros. Porque, na real, a gente tem que esperar sim dos outros. Não é possível que amizade seja isso que tão mostrando por aí. Não é possível que não dê pra esperar que os outros façam pela gente metade do que fazemos por eles.  Mas me arrependo pela quantidade imensurável de vampiros que deixei que se aproximasse de mim. 
Me arrependo de ter achado que era amigo quem não passava de mero conhecido. De ter confiado, de ter contado meus sonhos, meus segredos. Por ter achado que iria torcer por mim. Que iria ficar feliz com as minhas vitórias. Que iria secar minhas lágrimas nas minhas derrotas. Me arrependo de não ter gritado, batido, feito um barraco quando me machucaram feio. De ter ficado lá, quieta, chorando, desiludida. Sem força pra nada. Mas eu não consigo nem falar quando a decepção é muito grande. 
Me arrependo pelas pessoas das quais eu desisti. Abri mão, na cara dura. Simplesmente por não ter mais força e vontade de correr atrás de tanta gente e nunca ver ninguém correr atrás de mim. Me arrependo de ter deixado sair da minha vida gente que talvez valesse a pena por causa de meia dúzia de gente ingrata e infeliz que me fez desacreditar em amizades. 
Me arrependo por coisas que ainda nem fiz, mas sei que vou fazer. Porque me conheço, porque sou boba, porque me dôo. Porque acredito, porque me entrego, porque espero sim o melhor das pessoas. Me arrependo pelas lágrimas que ainda nem chorei, porque tenho plena consciência que a maior parte delas poderia ser evitada se eu fosse um pouquinho menos idiota. Se eu parasse de acreditar naquilo que todo mundo diz. 

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