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A história de uma amizade que não vingou

Acha triste. "Um dia voltará a ser como antes", ela escuta. Essa certeza que os outros têm de que o tempo consegue curar as feridas sem deixar marcas. Ledo engano. Ela olha as cicatrizes que tantos machucados foram deixando em sua pele e ri. Ri porque é ridículo acreditar que uma coisa que cortou tanto, que sangrou tanto, que ardeu tanto, pode ir sem deixar nenhuma marquinha pequena de que esteve por ali. Então ela nem se engana mais: sabe que quando passar, quando parar de doer, quando formar aquela casquinha em cima do machucado, sabe que ainda assim, vai lembrar. Vai lembrar o que causou, vai lembrar quem fez, vai lembrar o quanto doeu. E sabe que quando perguntarem "como você fez essa cicatriz?" vai vir aquele nó na garganta só de lembrar da dor. Sabe também que depois da fase da casquinha (aquela quando uma passada de unha mal pensada pode fazer voltar a sangrar), a cicatriz ainda vai estar lá. E não importa que ela faça tratamentos estéticos na pele, se 80% da cicatriz desaparece, ela sabe: ainda vai estar lá.
Mas acha triste. "Não vai voltar a ser como antes". Ainda que uma conversa sem precedentes seja feita, ainda que haja desculpas, ainda que haja perdão, ainda que que não doa. Não voltará. É triste porque no fundo dela dói saber que duas pessoas que antes se davam tão bem podem se perder nesses pequenos erros diários. Porque era uma amizade gostosa e por mais que ela não tenha desistido, houve uma desistência por ambas as partes não assumida. Porque viraram inimigas não declaradas. 
Aliás, tem coisa pior do que essas discussões não assumidas, essa inimizade não declarada? Esses silêncios cortantes, essas indiretas nas redes sociais, esses pequenos venenos soltos em poucas palavras, esse jeito seco de falar, esse fala-não-fala na cara, mas por trás como se não houvesse amanhã. Assume: ela prefere quem peca no erro de gritar em uma briga ao silêncio de uma discussão não-dita. 
Acha triste. Muito, muito triste. Porque se deu, se doou, se importou. Porque acreditou na amizade. Porque acreditou quando disseram "você me faz bem". Porque acreditou nos elogios. Por saber que não vai mesmo voltar a ser como antes. Por saber mais: que não tem volta. Não tem volta. Não importa se correr atrás, não importa se correrem atrás dela, não importa se ainda conversam banalidades, não importa se não viraram (ainda) a cara de vez uma para a outra. A amizade morreu. No silêncio.
(Shhhhhhhh, não conta pra ninguém)

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