Pular para o conteúdo principal

Querida Saudade,

Antes de qualquer coisa, deixe-me retirar o termo "Querida". De querida, você sabe, não tem nada. 
Você parece dessas pessoas que sempre nos cercam, sempre estão por perto, mas nunca desejam nosso bem, querem só alimentar nossas feridas nessa intenção boba de ressaltar nossas fraquezas. 
Sei que falando assim, até parece que você é de todo mal. Quando você chega devagar, pede licença pra entrar, dá uma de visita educada, dá até pra conviver com você. Porque aí só dá aquela saudade gostosa de sentir, de lembrar daquela fase na vida que passou e foi boa e deixou memória. Ou então daquela pessoa que marcou e foi especial. Dá até pra te aceitar quando você aparece assim. E como boa visita, se retira sem deixar bagunça, sem causar estragos, diz adeus e pronto. 
O problema, Saudade, é que você gosta de causar impacto. Aí, na maior parte das vezes, chega com o pé na porta, invade a casa sem nem saber se a gente tá preparada pra te receber. E machuca, sem saber se a gente tem como se reerguer. Você não poupa esforços, não tem dó, não é compreensiva: ma-chu-ca. E o que é pior: nem pede desculpa. Faz a gente ter aquela sensação de buraco, de faltar alguma coisa muito importante na vida, de que a gente nunca mais vai conseguir ser feliz de novo. Dói. Desesperadamente. Nem todas as lágrimas do mundo acalmam a alma. Nem todas as ligações, nem todos os e-mails, nem todas as cartas. Nada te afasta, nada te leva embora. 
Não me entenda mal, Saudade. 
Não quero parecer grosseira ou mal educada. 
Mas acho que quando alguém maltrata o outro tanto assim, deve pelo menos pedir perdão. E deixar algum remédio para as feridas pra gente conseguir se recuperar. Se é que isso existe. 
Caso não existir, peço humildemente, mantenha distância, não tenho forças pra te aguentar. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Cansei de brincar de ser trouxa

Eu cansei das mensagens visualizadas e não respondidas. De ter que estar pronta pra quando você quisesse, mas nunca poder contar com sua presença quando eu queria. Eu cansei de ser sempre tudo do seu jeito, de mendigar sua atenção, de tentar me encaixar entre um horário e outro da sua agenda, de me esforçar pra caber nuns buraquinhos esquecidos da sua vida. 
Cansei das idas e vindas, cansei da falta de atitude, cansei das vezes em que você disse que eu era tudo o que você queria, só não era agora, só não era a hora. Eu cansei de escrever sobre você, de dizer que ia te esquecer, de voltar atrás, de tentar mais um pouco, de insistir mais um tanto. Eu cansei naquela noite em que você não voltou. Naquele silêncio em que a gente não dividiu. Na madrugada inteira que você não me aqueceu e eu morri de frio. 
Eu cansei depois daquele seu olhar vazio quando eu apareci de surpresa. Eu cansei de achar que era você, e era eu, você só não sabia. Porque, quando é, a gente sabe desde o começo. Eu cans…