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Solidão, meu nome é Sozinha.

Tomou um pouco de seu café. Mirou aqueles tantos corpos se abraçando em despedidas e reencontros. Gostava de aeroportos por isso. Aquela sensação cíclica de fins e recomeços. Dava uma certa esperança. Mais café. Era difícil ficar acordada depois de tantas noites de insônia. Mas obrigações, ela sabia, tinha que cumprir. Tudo bem. Mais café. Sem tempo de sentar, pensar, refletir sobre os erros. Quantos erros. Lembrou, com pesar, de cada pessoa que fora perdendo no caminho por não saber como lidar com os erros dos outros. Por não saber perdoar, por não saber respirar fundo, por ter sido mimada a vida inteira. Olhou para o lado. Nem um abraço. Ninguém para dizer "Oi, que saudade, bem vinda". Ninguém para dizer "Vai com Deus, te espero". Era o peso, ela sabia. Que a gente carregava por cada vez que não conseguiu engolir os sapos da vida e saiu por aí gritando com as pererecas. Sozinha. Talvez assim fosse que iria morrer. 
Tudo bem. Pensou em seu pai. "A gente vem sozinho pra esse mundo e é assim que vai embora também, filha", ele dizia. Tinha razão. Então tudo bem. Respirou fundo, tomou o café e continuou esperando seu vôo. 

— Pra quem a gente chora quando não tem colo nenhum ao redor? — uma voz interior perguntou.
— A gente não chora. — ela pensou. — Respira fundo e toma café.

Ok.

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