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Beijos na testa

Já era quase fim de noite quando ela acordou assustada. O grito preso na garganta não foi escutado por ninguém. Sentiu, de repente, uma saudade doentia da época que meia dúzia de pessoas viria correndo ao seu quarto ver o que tinha acontecido. Mas essa meia dúzia de pessoas estava muito longe. Respirou fundo e pegou o copo d'água na cômoda ao lado. No escuro, seu quarto parecia um pouco assustador. Olhou pela janela, mas não via estrelas dali. A poluição não deixava.
Quando era criança, antes de dormir, sua mãe deitava na cama com ela e lhe contava histórias. Ou seu pai ia até lá para ver se estava bem e lhe dar um beijo na testa. 
Um beijo na testa.
Era tudo o que mais queria na vida naquele momento. Era tudo o que mais sonhava naqueles dias sozinhos na grande cidade. Tinha medo. Vontade de arrumar as malas e correr para aquela cidadezinha do interior onde todos os problemas eram tão grandes, mas que sumiam com um abraço da avó. Não tinha nenhum abraço agora.
Tinha esses amigos que iam para as festas com ela. Que a acolheram quando chegou. Que lhe deram um pouco de carinho e atenção. Mas no fim da noite, era só ela e o travesseiro. E seus pesadelos. 
E se tudo aquilo fosse uma escolha errada? E se aquela mudança de vida só a levasse para maus caminhos? E se ela não conseguisse viver sozinha? E se ela caísse e quebrasse alguma parte do corpo?
Saudade. 
E nem era de pessoas, coisas, lugares. Era de sentimentos. Saudade de se sentir segura. Tinha lido uma vez, em um livro que levava com ela, que a parte mais triste de crescer era ter que lidar com dores que não saravam com beijos e band-aid. Ela ia além: a pior parte de crescer era ter que lidar com uma vida sem beijos na testa.
Sorriu. Fechou os olhos. Tinha que encarar a vida sozinha agora. Sonhou com um beijo na testa. E dormiu. Sem amor. Em SP. 

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