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Era pouco... - Parte 1


Um dia a gente se encontra,
Você com suas fotos do mundo que buscou,
Eu com as histórias do mundo que ficou. 

Nem tinha o que falar. Você tinha feito sua escolha, eu não tentaria impedir. Tinha te impedido uma vez, quando pedi que ficasse, quando insisti, quando te pedi em casamento. Você ficou, fingiu que era o que queria, me abraçou. Mas não era aquilo. Você sabia. Eu sabia. Todo mundo sabia. A gente insistiu, tentou, teimou. Porque é isso que a gente faz quando ama. E a gente se amava. Mais até do que os outros desconfiavam. E por isso a gente tentou muito. Eu tentei muito. Você sabe, te convencer que valia a pena, que o seu lugar era aqui, que o lar era onde estivéssemos juntos. Mas não era. Perdoa a ilusão que acreditei e que te fiz acreditar também.

Nem tinha o que falar. 

Você arrumava suas malas e eu sabia que talvez a gente não se visse de novo. Você tinha seus sonhos agora. Eu tinha a minha vida, aqui. Você sabia. Eu não ia atrás de você. Essa parte da história tinha ficado para trás. Assim como todo o resto que ficou para trás: nosso casamento, o filho que nunca nasceu, nosso namoro, nosso amor. Tudo aquilo era agora parte de uma lembrança que não tinha mais futuro. A gente nunca teve futuro. 

Eu era feliz aqui, você nunca soube onde era feliz. Você nunca soube o que queria, o que buscava, quem esperava. Você se esforçou também, então obrigado. Obrigado, mesmo. Pelos anos que insistiu contra si mesmo e ficou, teimou, tentou. Eu sei que doeu, eu sei que foi difícil, eu sei que foi quase insuportável. Ficar em casa, quando tudo o que queria era morar em todas as cidades do mundo. Me esperar chegar, quando tudo o que queria era que te esperassem. 

Eu te esperei. O quanto deu.

Esperei que passasse, que você entendesse, que visse que o amor era maior do que tudo aquilo. Achei, pobre ingênuo, que o amor era maior que o sonho. O sonho. Acho que foi esse nosso maior erro. Acreditar que conseguiríamos entrelaçar nossos sonhos. Eu desisti do meu por você, porque meu maior sonho sempre tinha sido te ter. Você desistiu do seu por mim, porque achou que era sua obrigação. Outro dia você disse que o meu sonho de te ter era pouco. 

Era pouco. 

Foi quando eu decidi que não ia te impedir. Não ia atrás. Nem ia falar nada. 

Era pouco.

Todo o amor, toda a atenção, todos os anos, todas as palavras, todos os abraços, tudo. Era pouco. 

E por ser pouco, nem usei como argumento.

Que eu te amava? De que adiantava dizer?
Que eu esperaria? De que adiantava dizer?
Que eu iria com você? De que adiantava dizer?

Era pouco. 

Você, você não, sempre foi muito. E por ser muito, era difícil de agarrar, de segurar, de conquistar. E por ser muito, eu sabia que não dava mais. 

Nem tinha o que falar. Você me olhou, sorriu, deixou umas lágrimas caírem e tentou me abraçar. Não abracei. Eu estava te soltando do abraço ali. Te soltei do abraço para você finalmente abraçar quem sempre quis: o mundo.

Enquanto você ia, eu ficava. Enquanto partia, eu rezava. 

Que seus braços não fossem curtos. Que o mundo te abraçasse de volta. 

E que te amasse, como eu amava. Pouco. 



Para ler a parte 2, clique aqui.

Comentários

  1. "A gente insistiu, tentou, teimou. Porque é isso que a gente faz quando ama."

    me identifiquei tanto *---*

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