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Não mordo

Não tenha medo, eu não mordo. Ainda que grite, ainda que tenha uma risada escandalosa, ainda que te olhe como se pudesse te desvendar a alma. Não tenha medo, eu não desvendo minha própria alma, que dirá a de pessoas que se escondem atrás de um mundo para que não vejam suas próprias fraquezas. Não vou perder meu tempo gritando suas próprias falhas quando mal tenho tempo de encarar meus próprios erros. 

Não tenha medo, eu não mordo. Ainda que eu tenha vontade, ainda que eu tenha uma alma vingativa, ainda que eu queira pegar essa meia dúzia de gente e enfiar a cabeça delas na privada. É só vontade, é só desejo mental, vingança imaginária. Relaxa, não coloco em prática. 

Não tenha medo, eu não mordo. Ainda que, se você me magoar muito, eu vire as costas e vá embora sem nunca mais voltar. Ainda que eu tenha uma dificuldade tremenda de sair perdoando gente que cutucou até onde não dava mais. Mesmo que eu grite quando minha vontade não é atendida e abrace até sufocar porque tenho medo que as pessoas fujam. Tenho medo que as pessoas fujam. E por isso, sim, me julgue, sou ciumenta. Mas não tenha medo: esse é um mal que guardo para mim, e te deixo ir se quiser, porque demonstrar ciúme iria além do meu orgulho. 

Não tenha medo, eu não mordo. Mas também não assopro ferida de gente que nem liga quando eu choro. Vejo de longe o sofrimento alheio, que é para não parecer falsa, mas se quiser, pode chegar, também sei ouvir. Não mordo. Mas sou estranha, bipolar, possessiva, mimada. E tenho um pânico de que as pessoas que eu amo não me amem de volta. E tenho pânico de perder minhas bases. E por isso ao invés de colocar os pés no chão e me assustar com a falta dele, prefiro sair por aí voando com minhas próprias asas. 

Não tenha medo, eu não mordo. Mas confio. E isso talvez seja o que você mais deva temer. Porque confio como não devia confiar, por mais que evite, por mais que demore, confio. E aí já era, porque vou esperar de você talvez mais do que você consiga retribuir. Porque vou esperar que você faça tudo o que eu faria por você. E vou me sentir a pior pessoa do mundo quando você mostrar que não. Mas não mordo.

Não tenha medo, eu não mordo. Mas você vai se assustar. Vai querer fugir. Vai ter pavor de dar a mão e de eu nunca mais soltar. Ou ainda vai ter medo que eu retire a mão e saia correndo. Vai ter medo de ficar porque é isso o que eu espero das pessoas, que elas fiquem. E ter pânico porque, exatamente por ter medo que as pessoas fujam é que vou antes. Você vai ter medo de lidar com minhas loucuras, com minhas noites sem dormir, com minhas incertezas, com minhas crises de choro. Mas não mordo. Não mordo. Faço pior: te amo. 

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