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O amor depois que o amor acaba

Mãos dadas o tempo todo, que é pra não esquecerem que eles se pertencem. Mas um silêncio de dar dó, de gente que não tem mais o que dividir, o que compartilhar, o que conversar. As conversas ficaram em outra época, os beijos intensos ficaram em outra época, a vida dividida ficou em outra época. Agora só tem esse lado-a-lado quieto, mansinho, de segredos velados. Ela, às vezes, tem vontade de gritar, de jogar tudo, de quebrar uns pratos, de dizer pra ele que-bosta-de-ponto-é-esse-que-a-gente-chegou. Mas depois pensa que nem vale à pena, que é perda de tempo, que isso é coisa de gente que ainda se importa. 

Mãos dadas o tempo todo, que é pra não esquecer porque eles acabaram juntos. Porque se amaram um dia, porque compartilharam tudo, porque eram considerados o casal mais bonito da cidade. Esse esforço incessante e inacabável de não esquecer porque chegaram até ali, porque aguentaram tanta coisa, porque viveram tanto tempo sem se separar. Ele tem vontade de soltar a mão, de ir embora, de conhecer outras pessoas. Mas depois pensa, triste, que mesmo com aquele silêncio, ela é ela e o que eles viveram no passado talvez seja melhor que um futuro que ele não conhece.

Mãos dados o tempo todo, porque eles têm medo de soltar e nunca mais se encontrarem. Porque eles têm medo de ser perderem pelo caminho, do amor se perder pelo caminho, da história se perder pelo caminho. Mas acham, escondidos, que tudo isso já se perdeu pelo caminho. Ela tenta lembrar qual foi a última vez que disse, assim, só pra ele "amo-você-mais-do-que-a-minha-vida". Ele tenta lembrar qual foi a última vez que ele a abraçou e pensou em nunca mais soltá-la. Eles não se lembram, mas não soltam as mãos. "É medo, é medo, é medo", eles se convencem. 

Mãos dadas, porque ele sabe que ela tem medo de ser sozinha. Ela sabe que ele gosta que ela faça carinho em sua mão com o dedo. Ele sabe que quando ela está brava, pisca sem parar. Ela sabe que quando ele a beija no pescoço é porque não tem mais o que falar, mas ainda quer demonstrar uma vida.

Mãos dadas, porque ela não quer desistir dele e ele não quer desistir dela. Porque apesar do silêncio, apesar dos segredos velados, apesar de não terem mais o que dividir, compartilhar ou conversar, ainda são eles. E se não têm mais o que dividir, compartilhar ou conversar é porque já se tornaram uma coisa só e já se conhecem só pelos olhos, só pelo toque, só pelas palavras-não-ditas. 

Mãos dadas, sorrisos para convencer o público, uma vida a dois que não quer ser destruída. No fundo, eles sabem, ainda se amam, mas têm medo de admitir. Têm medo de admitir que ainda estão assim, que não soltam as mãos, porque não se imaginam sozinhos, não se imaginam distantes, não se imaginam sem base. O amor acabou, ficou silêncio, mas o amor depois que o amor acaba pode ser bonito e sincero também. 

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