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A saudade que eu tenho de Clara

A Clara tinha a risada mais linda que eu já tinha ouvido na vida. Acho que essa é a primeira recordação quando alguém me pede pra pensar na Clara: a risada dela. E exatamente por isso, pela aquela felicidade que ela emanava, que ela sempre foi uma das pessoas que eu mais admirei na vida. 

A Clara já tinha sido uma segunda mãe para mim. Mentira, mesmo com os contatos escassos, com os e-mails esporádicos, com os abraços cada vez mais rasos, mesmo com a distância que eu fui colocando entre a gente, ela nunca deixou de ser essa mãe. Por mais que eu tenha sido uma péssima filha. 

Ela dizia por aí que eu era a filha que ela não teve. Quando eu era criança, eu agarrava a mão dela e fingia que nunca mais ia soltar. Clara tinha paciência comigo, me levava para todos os lados com nossas mãos agarradas, como se a gente não fosse se soltar mesmo. E quando eu chorava muito, ela não brigava por eu fazer birra, ela me pegava no colo e dizia que minha risada era mais bonita do que meu choro.

Minha risada nunca seria tão bonita quanto a dela. 

Clara fazia parte da minha vida, da minha história, da minha família e da minha casa, mas eu estava sempre ocupada demais para dar atenção em uns poucos minutos para ela no MSN. E por isso, eu nunca prolongava o papo. Por mais que ela perguntasse como estava minha vida, minha escola, meus amores, meus amigos. Eu nunca mais parei e contei pra ela o que me machucava, eu só dizia que tudo estava bem e fim.

Aí um dia, a Clara parou de perguntar. Acho que ela entendeu que a filha ingrata aqui estava sem tempo. Mas quando eu ia a casa dela, ela ainda me abraçava com a maior força do mundo e ainda fazia questão de dizer pra todo mundo o quanto me amava e que eu era filha dela. Mas eu tinha crescido, e não queria mais agarrar a mão dela, porque eu era boba, então eu só sorria e dizia que eu a amava também. 

Mas era um "eu te amo" vazio e sem sentido, sabe? A Clara sempre fingiu que não percebia. Eu cresci e construí esse muro em frente a casa da pessoa que mais me dava atenção além dos meus pais, simplesmente porque meus amigos, minha escola, meus amores platônicos e meus ídolos eram mais importantes do que a Clara. 

Mas a Clara nunca jogou isso na minha cara. 

Um dia deram a notícia que a Clara estava doente. Eu não quis acreditar, porque tudo o que eu conseguia ter na mente da Clara era aquela risada bonita que encantava o mundo. Como uma pessoa daquela poderia estar doente? Ela era vida, simplesmente vida, puramente vida. Vida linda. 

Um dia eu vi a Clara pela última vez, mesmo que eu não soubesse que seria a última. Eu abracei ela apertado e tive vontade de nunca mais largar. Mas nem os minutos eternos daquele abraço compensavam todos os outros anos que a adolescente imatura não soube corresponder ao amor da segunda mãe mais linda que teve. Nem aquele abraço serviu de perdão para o muro que eu nunca destruí, nem para os silêncios que eu não evitei. Eu sei que para ela, aquele abraço foi a melhor coisa, mas ainda me dói saber que eu podia ter dado muito mais a Clara, assim como ela se deu para mim. 

Quando Clara se foi, ela se foi junto com a risada mais bonita do mundo. Foi junto com uma parte da minha risada mais bonita. Foi junto com a risada de todo mundo da nossa família. Clara foi levar esses nossos pedaços de risadas para um lugar mais bonito, mais leve, sem o sofrimento que ela teve que encarar, sem as lágrimas dos últimos dias que ela só mostrava para a pessoa que ela mais confiava, sem a dor que ela teve que sofrer durante tantos meses. Clara se foi e levou nossa risada mais linda, para encantar todo mundo por onde ela passasse, porque sabia que a gente se reergueria e conseguiria formar outras risadas tão bonitas quanto. 

Mas quando recebi a notícia de Clara, no meio da escada de minha casa, sem cuidado e sem tato, só dei meia volta e voltei para a cama. Sem risadas naquele dia. Choramos todas as lágrimas de Clara, para ela poder partir em paz, sem mais sofrimento algum. 

Choramos por você, minha segunda mãe, pela saudade que você ia deixar, pela força que você teve, pela risada mais linda do mundo. Choramos por você por orgulho, de quem você era para todos ao seu redor e pelo anjo que você ainda conseguiu deixar aqui antes de partir. 

E eu, eu chorei pela Clara que não tive porque não soube aproveitar mais desse riso. 

Quando eu te encontrar de novo, seguro a sua mão como se nunca mais fosse soltar. E dessa vez não solto mesmo. 



Comentários

  1. De arrepiar... amiga, você tem o dom das palavras e expressa muito bem seus sentimentos por meio delas....

    Você sempre será um orgulho, e aquela amiga famosa que a gente sempre sonha em ter!

    Te amo!

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