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Se isso fosse uma carta de despedida...


Oi

Nem sei como começar. 
Tudo bem, isso não é mesmo o começo de nada. Está mais para fim, para ser sincera. Calma, desculpa, nosso fim também já foi. Acho, então, que isso é tipo…sei lá, a conclusão de um livro qualquer. É feio se referir assim a nossa história, não é? "Um livro qualquer". A gente teve lá nossos capítulos. Aqueles sinceros e aqueles emocionantes e aqueles diálogos surpreendentes. Mas não sei, vejo mais como se fosse só mais um daqueles livros que a gente lê e esquece depois, sabe? Não é aquele livro que a pessoa vai ler e vai mudar sua vida. 
A gente não mudou a vida de ninguém. 
Acho que nem cabe mais pedir desculpa, não é? Não sei, tenho a impressão de que as oportunidades para que eu te pedisse desculpa já passaram e eu também tive muito tempo para voltar atrás e decidir não fazer o que fiz. Eu fiz. Não sei se um dia você vai me perdoar. Não sei se você já perdoou. 
Será que você se lembra de mim com o mesmo carinho que eu me lembro de você? Será que surge aquele sorriso no rosto ao lembrar de cada coisa que a gente superou, viveu, chorou? Fazia tempo que eu não via seu sorriso. Eu sei, fui eu que os roubei de você. Mas outro dia, outro dia eu te vi passar. Você sorria. Muito. Fiquei feliz por você. Você nem olhou para mim. Eu entendi: a partir dali, você seguia. Eu ficava. 
É estranho que, depois de tudo, a gente tenha se afastado assim. Veja bem, achei que depois do fim a gente acabaria junto, sabe? Mãos dadas para superar o que viesse depois, mesmo com a raiva, mesmo com a traição, mesmo com você não entendendo meus motivos. 
Como é que a gente se separa de si mesmo?
Mas o nosso divórcio veio antes, muito antes. E foi pedido por você, que estava tão exausta dos meus pesos e dos meu erros. Mas não te larguei, não assinei a papelada. Te persegui como sombra para você lembrar que não importa para onde a gente vá, nossa história vem atrás. A gente vive e convive com nossas escolhas e nossos erros e nossas consequências. Eu fui só a consequência de tudo o que você escolheu. 
Algumas pessoas vão estranhar uma carta assim. Seria mais óbvio que você que se despedisse - e dos amigos, dos parentes, dos seus pais. Tudo bem, até eles já se foram. Faz tempo. Acho mesmo que eu tinha que me despedir apenas de você. Mesmo depois de tudo, mesmo depois do fim. 
Acho que é a minha forma de pedir perdão por não ter lhe deixado ver como seria a continuação daquele livro. A segunda parte daquela história. É meu pedido de desculpa por não ter te deixado aproveitar todas as suas vitórias nem chorar as derrotas que você teria se seguisse em frente. Desculpa por não ter te deixado ver no espelho as rugas que ganharia com seus filhos, seus netos, bisnetos. Desculpa por não ter te deixado entrar na Igreja e nem ter deixado que todos vissem por mais tempo como seu sorriso era encantador quando você ficava perto das pessoas que amava. 
Desculpa por ter te pesado tanto. Por ter te obrigado a conviver comigo, a ficar no escuro comigo, a dar a mão para mim e não soltar mais. Desculpa ter agarrado seu pé quando você tentou, inutilmente, fugir. Desculpa que nenhum remédio foi suficiente para me expulsar da sua vida. Mas você sabe, sou uma aquisição difícil de devolver. Algumas pessoas conseguem e saem fortes. Você não. 
Não, não entenda que eu esteja dizendo que você não foi forte. Você foi uma das mais fortes. Até surpreendeu sua força, com tanto tombo que tomou. Foi muita decepção, muita facada, muita perda. Você aguentou até bastante tempo. Quase fiquei orgulhosa de você. Você só falhou bem no fim, quando desistiu e jogou a tolha. Não devia ter jogado a tolha.
É, eu sei, não precisa gritar. A culpa é minha. Não retiro essa responsabilidade. Minha, só minha. E é por isso que faço essa carta. Essa nossa conclusão, depois de anos lado a lado, te deixo viver aí do seu lado sozinha, leve e em paz. Em paz. Espero que você esteja assim. Porque de tortura, já basta o que viveu aqui. E comigo. 
Foi meu fim também. Mas agora aqui, no frio desse caixão, eu penso se valeu a pena. 
Não, não valeu. 
Eu devia ter te deixado. Eu devia ter desistido de você assim como você tentou tantas vezes desistir de mim. Eu devia ter te deixado ver como seria, mesmo que você sofresse, mesmo que doesse muito. Acho que você teria aguentado. Foi falta de coragem, desculpa. Agora, sou obrigada a ficar. E te deixar ir. 
Aqui, depois de tudo, não tenho mais poder sobre você. E você já tem muito mais força sobre mim. 
Desculpa pela dor. E desculpa pela falta de coragem no fim, quando só consegui te dopar o suficiente para você nem perceber que já tinha acabado. Você demorou a perceber. E quando viu, nunca mais voltou a me olhar. 
Você vai ser feliz agora, eu sei. Aonde quer que vá. Por isso eu digo, aqui não é o fim. Nosso fim já foi. O nosso. A sua história está só começando. Essa é só a conclusão da primeira parte. Desculpa ter feito desse um livro qualquer. Vai escrever sozinha a sua continuação agora. 

Essa é uma carta para tirar meu peso da consciência, apenas. 

Mas se isso fosse uma carta de despedida, eu só te pediria uma coisa:

Desculpa. 


Com carinho, 

Sua amiga Depressão. 

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