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Um dia, ela vai...

Ela é grossa por natureza. Você vai dizer alguma coisa legal, vai tentar ajudar, ouvir e coisa e tal, mas ela vai te dar aquela resposta atravessada que vai até te deixar sem graça. Durante um tempo, você vai acreditar que ela gosta de você e que vocês são bastante amigas - afinal vocês conversam sobre essas mil coisas e desabafam e, poxa, você até acha que têm essa conexão que amizades iniciantes possuem. Mas aí ela te dá alguma daquelas patadas e você dá meia volta, coloca o rabo entre as pernas e abre mão. 

Abre mão porque é mais fácil desistir de gente que não te abraça toda hora do que aguentar o mau-humor e a ingratidão alheia. Abre mão porque ninguém é obrigado a lidar com a chatice dos outros. Abre mão porque um "obrigada" não faz mal a ninguém. 


Eu ia abrir mão também. Porque, cara, por mais que eu não seja a pessoa mais simpática e carinhosa do mundo, eu realmente não acho que o outro tem o direito assim de cutucar ferida só para provar que não se importa. 

Nossa, e como ela cutuca ferida. Parece que faz de propósito, tenta gerar a intriga aqui e ali, tenta dizer que falaram mal, agiram mal, fizeram mal. Na primeira vez, você deixa passar, porque todo mundo faz isso vez ou outra. Na décima, você começa a ignorar porque não é possível que ela realmente esteja fazendo isso de propósito e deve ser sem querer. Na centésima, você abre mão.

Abrir mão.

Talvez eu devesse mesmo abrir mão dela, porque era o mais inteligente. Mas tenho a mania boba de insistir em gente que não merece atenção. "Mas por que ela é assim?". "Mas será que ela não sente?". "Mas será que quando coloca a cabeça no travesseiro ela não se sente sozinha também?". Aí eu desisti. Juro, com muito peso na consciência por dar a mão a alguém que - aparentemente - não merecia. Com muito peso na consciência por insistir em gente que não insiste em mim. Com o rabo entre as pernas e as orelhas abaixadas. Desisti de abrir mão. E dei a mão.

Tudo bem, vamos lá, você pode ser tudo isso aí que insiste em ser. Eu tô aqui. Quando você cansar, eu vou estar aqui. Quando a máscara dessa sua fortaleza inalcançável cair, tudo bem, a gente vai conversar sobre o que tanto te machuca aí dentro que te faz ser assim. Porque, eu sei, ninguém fica assim de um dia para o outro sem ter sofrido milhares de dores só suas. Quando você quiser parar de fingir que nada te importa, que as pessoas podem ir, que tudo bem todo mundo abrir mão: eu ainda vou estar aqui. 


Porque eu sei que te machuca essas dezenas de pessoas que abriram mão antes mesmo de ousar saber tudo o que você guardava aí dentro. E eu sei que você guarda muita coisa aí dentro. Eu sei que dói, eu sei que arde, eu sei que você também chora. Mas uma hora, uma hora você vai entender que esse jeito, que machucar os outros, que cutucar ferida, você vai entender que nada disso adianta. Que nada vai te fazer melhor. E que só vai te tornar mais sozinha. Eu ainda vou estar ao seu lado quando isso acontecer. 


Eu espero que um dia você aprenda que não precisa mostrar indiferença o tempo todo, não precisa mostrar força o tempo todo, não precisa fingir que não se importa que desistam o tempo todo. 

Eu não abri mão de você. Porque eu acredito que por trás dessa pessoa criticável, que por trás desses erros, que por trás dessas atitudes impensadas e dessas ações condenáveis, eu acredito, juro que acredito, que há só uma menina indefesa que pensa que não se encaixa e pensa que tem mesmo é que ficar sozinha. Não, você não tem. 


Você é só uma menina e você também vai se arrepender de seus erros lá na frente, como todo mundo. Só peço que, por favor, pense bem antes de me fazer me arrepender por ter insistido. Por não abrir mão. Por ter dado a mão.

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