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A gente foi demais (ainda amo você, ok?)

Já faz tempo. Você mudou, eu mudei, a gente cresceu. A vida passou, olha só que coisa bonita, mas aí o passado ficou pra trás também. Já faz tempo, a gente não se vê mais com aquela frequência, nem se abraça, nem divide nossas vidas, nem comenta mais sobre todas as outras pessoas do mundo. Mas outro dia, outro dia bateu essa saudade louca que só dá de gente de quem a gente gostou muito, sabe?

Lembrei de um tanto de coisa que me fez rir sozinha. Só coisa boa, porque chega uma fase que não faz mais sentido guardar sentimento ruim. Além do mais, não guardo nenhum sentimento ruim de você. Só sentimento bom e lindo, por tudo o que a gente viveu e riu.

E a gente riu muito, não é? 

Você lembra daquele dia que a gente tava sozinha em casa e era madrugada e a gente via TV? A gente começou a assistir um filme de terror qualquer, daqueles bem mal feitos e a gente ria até chorar. A gente sempre ria até chorar. Nunca era risadinha boba, nem sorriso amarelo, a gente ia até o fim das consequências, daquelas que se orgulham de engasgar de rir. A gente engasgou muito de rir na vida.

Lembra também como a gente se conhecia? A gente se conhecia muito, muito, muito, muito. Nem precisava olhar, só a respiração já fazia entender o que a outra pensava. E a gente sempre pensava tão igual.

Um dia, falaram que conforme os anos fossem passando, a gente ia se afastar. A gente até se revoltou com isso, que absurdo, claro que não, era pra sempre. A gente jurou, de pé junto, que não ia acontecer, não ia afastar, que a vida não ia ter esse poder todo. Que viessem as responsabilidades, as outras pessoas, os problemas, o tempo e a falta dele, a distância, que viesse tudo: a gente era mais forte. A gente acreditou tanto que a gente era mais forte. Não era. 

Andam acontecendo coisas tão boas na minha vida, de repente tudo tá dando tão certo, os sonhos tão parecendo tão mais perto. E eu fiquei com uma vontade louca de te ligar pra contar tudo isso, pra você ficar feliz por mim, pra gente comemorar como a gente costumava comemorar as vitórias uma da outra. Mas aí eu já tava com o celular na mão quando travei. Travei. Não consegui. Porque vieram as responsabilidades, as outras pessoas, os problemas, o tempo e a falta dele, a distância. Veio tudo e a gente não foi mais forte.

Já faz tempo e é triste que eu não consiga mais nem te ligar pra te contar da minha vida. Logo a gente, logo a gente. Sabe, aquelas que eram tão grudadas que tinham as vidas tão entrelaçadas, que todo mundo dizia que não se largavam. Logo a gente, olha só, foi se perder nos nossos próprios caminhos.

Eu quis te ligar, quis muito, muito mesmo. Mas não soube como começar a conversa, não soube se falava "Oi, tudo bem?" ou "Oi, quanto tempo" ou "Oi, lembra de mim?". Não soube se você ia ficar feliz de verdade, como era antes. Nem soube se a gente ainda tinha aquela ligação ou era só coisa da minha cabeça. Não soube se eu ainda era a futura madrinha do seu casamento, do seu futuro filho. E aí eu lembrei também de como eu já não sei mais quase nada de você e você sabe cada vez menos de mim. Lembrei que nossas risadas diminuíram tanto, que ninguém mais fala como a gente vive juntas, que nossas certezas não são mais as mesmas. 

Queria te dizer, apesar de tudo isso, que te levo na alma, no coração e na minha história. Que talvez quase ninguém mais seja tão importante na minha vida como você foi. Que talvez quase ninguém mais tenha tanta influência na pessoa que eu me tornei. Nem tenha me ensinado tanta coisa como você fez. Queria dizer que eu ainda fico feliz por você, por tudo, qualquer coisa, porque o sentimento não acabou. Pode ter acabado o contato, o dia-a-dia, a liberdade de poder ligar e contar minha vida. Mas eu ainda espero que eu possa te chamar pro meu casamento e que você esteja lá no altar, olhando tudo, com o sorriso mais lindo, com a certeza de que não importa se o presente não colabora, a gente é o que é por tudo o que a gente foi. E a gente foi demais. 

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