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Minha pequena e rara


"Essa é uma das coisas que as pessoas não nos ensinam quando falam de crescer: como lidar com as dores que não passam com um beijo". 
(Soul Love - À noite o céu é perfeito)

Você nunca está preparado para receber a notícia. Mesmo que seja esperada (e olha que é, porque é aquela coisa universal que vai acontecer com to-do mundo). Mesmo que já venha sendo anunciada por alguma doença, por algum motivo, qualquer coisa assim. Pior ainda se não tem aviso, se é rápido, se é do nada, se nem dá tempo de você respirar. Você nunca está preparado para receber a notícia. 
Não tem abraço, não tem beijo, não tem apoio, não tem palavra, não tem ajuda. Por mais que tudo isso amenize, nada disso serve de verdade. Dói do mesmo jeito. E dói muito. Muito. Dói de um jeito que eu nunca vou saber explicar e também nunca vou saber como é a dor do outro. Dores só suas, sabe? Ninguém nunca vai sentir igual, mesmo em casos parecidos. Ninguém nunca vai conseguir quantificar: se é pouco, se é muito, se vai passar rápido. É uma dor sua e, por mais que todo mundo tente, é só você também que vai saber a hora de levantar e limpar a lágrima.
Aí vem o momento que você aprende que limpar a lágrima não é o fim, como era quando você era criança. Começa aí a parte mais difícil: quando o choro já cessou, mas a falta se faz cada vez mais presente. E você escuta o riso que já não está, pensa em como aquela pessoa iria gostar de estar naquele lugar, de ver aquela coisa, de saber aquela história. Você começa a pensar o que ela falaria, o que diria, se ela saberia como te abraçar. E aí em cada vez, sozinha, em silêncio, você tem que lembrar que a pessoa não vai entrar pela porta e te fazer rir como em outros tempos. E aí dói desesperedamente, de novo. 
"Uma hora passa", todo mundo diz, sobre todas as dores. E você tenta imaginar como é que passa nesse caso, mas não passa. Ainda dói. Eu ainda choro por gente que se foi há muito tempo. Eu ainda choro por gente que nem consigo mais lembrar do rosto. E por gente que nem tenho coragem de olhar a foto. Mas choro em silêncio, escondida de mim mesma, quando pesa demais. Porque chega uma hora - e isso é verdade - que você começa a lembrar das coisas boas.
Acho que é aí que você entende que não tem porque guardar coisas ruins das pessoas. Um dia, elas não vão estar mais para ouvir seus gritos, nem para se esquivar de suas acusações. E você não vai lembrar de todas as vezes que chorou por algum erro do outro. Você vai lembrar só daquela vez que vocês riram juntos até perder o fôlego. E vai se perguntar se um dia você vai encontrar alguém para rir junto daquele jeito de novo.
A gente encontra por aí meia dúzia de pessoas que valem a pena. Pessoas que talvez a gente não dê o valor que precise, que a gente deixa passar batido. Para chorar depois, quando o baque é forte. E, no baque, o beijo da mãe não faz passar. 
Você escorrega e arranha o joelho e acha que nada mais vai doer tanto quanto aquilo. Aí sua mãe passa remédio, você continua chorando por um tempo, até que ela te segura no colo, te dá dezenas de beijos e você esquece. Você acredita em alguém, a pessoa te decepciona, você acha que seu coração partido nunca vai se curar. Você acha, de novo, que nada na vida vai doer tanto quanto aquilo. Aí o tempo passa, a vida te obriga a seguir em frente, outras pessoas aparecem, e você esquece. Você é traída, desiludida, todas essas coisas que doem muito. E toda vez acha que nunca voltará a doer tanto. Até que um dia você perde alguém que você ama muito. Aí você entende o que é dor de verdade. 

Continua doendo, mas te guardo no peito com a maior alegria. Por mais irônico que isso possa parecer. 


Parte de um projeto: Prólogo - Cartas...

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