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Nossas curiosidades

O curioso é que a gente tem vontade de gritar e não grita. Tem vontade de chorar e não chora. Tem vontade de abraçar e não abraça. O curioso é que a gente morre de vontade de correr atrás, de dizer que sente falta, de dizer que perdoa. Mas o orgulho não deixa, o coração não deixa, o nariz em pé não deixa. O curioso é que a gente diz que não vai mais acreditar em ninguém, mas acredita. Diz depois que não devia ter acreditado, mas acreditaria de novo. O curioso é que a gente diz que não vai mais amar, mas ama. Diz que não vai mais chorar, mas chora. Diz que não vai mais voltar atrás, mas volta. O curioso é que a gente sente vontade de largar tudo, mas não larga. De jogar tudo pro alto e não joga. Sente vontade de ligar e não liga.

O curioso é que a gente segura a risada e depois reclama que queria rir mais durante os dias. A gente segura o choro e depois reclama de uma tristeza eterna sem motivo aparente. Segura a raiva e depois reclama que fica doente. O curioso é que a gente segura, segura, segura e se acha fraco quando larga tudo e senta no chão esgotado. O curioso é que a gente esquece nossos momentos de força e se crucifica pelas pequenas fraquezas. Se crucifica pela falha, se crucifica pelo erro, se crucifica por aquela vez que não aguentou o peso. O curioso é que a gente esquece que a gente também tem o direito de errar.

O curioso é que a gente sente vontade de falar, mas não sabe se fala. E quando decidi que quer realmente falar, não sabe como. E quando arranja o jeito, não sabe se querem ouvir. O curioso é que a gente pensa o tempo todo no que o outro vai pensar, mas sai por aí falando que não tá nem aí com a opinião alheia. O curioso é que a gente diminui o tom, diminui os sonhos, diminui o riso, diminui a vida. Que é pra se enquadrar na normalidade que os outros esperam. O curioso é que a gente grita aos quatro ventos que os outros são todos iguais, mas faz as mesmas coisas que o resto do mundo.

O curioso é que a gente grita sinceridade, mas esconde tristeza. E sorri, quando não quer. E diz que tá bem, quando não está. E diz que passou, quando ainda dói. E diz que esqueceu, mas ainda lembra todas as noites. O curioso é que a gente detesta quem vive só de aparências, mas pega todos os dias as máscaras de vida boa e deixa os pesos acumularem-se nos ombros, longe do sorriso e dos olhos, onde ninguém presta atenção.

O curioso é que a gente diz que não liga pra aquela palavra atravessada, mas liga. Diz que não foi nada, mas doeu. Diz que perdoa, mas não perdoa. O curioso é que a gente se diz superior, mas torce pelo karma. E torce para que doa um pouquinho só do que doeu na gente. Como se isso mudasse alguma coisa.

O curioso é que a gente fica anos em um trabalho que não suporta. Mora anos em uma cidade que não gosta. Prorroga anos os sonhos que eram pra agora. O curioso é que a gente não muda nada e espera mudanças. E aguenta tudo e diz que não aguenta mais.

O curioso é que a gente sente raiva e não admite. Sente ódio e não admite. Sente medo e não admite. Sente amor e não admite. O curioso é que eu ainda amo, mas não admito. Queria dizer que ainda amo, mas não digo.

Não digo. 

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