Pular para o conteúdo principal

Por favor e obrigado, minha mãe me ensinou a dizer...

Depois de idas e vindas, trezentas promessas de que nunca mais voltaria para essa posição, algumas noites sem dormir, alguns potes de sorvetes acabados e novas maquiagens para disfarçar as olheiras, aqui está você de novo. As mesmas decepções de antes e aquela velha sensação de ter se entregado mais do que deveria. A velha sensação de ter tido o amor explorado, usado, abusado. Coisas que só gente que costuma se importar demais costuma sentir. Mas ah, nunca mais, nunca mais ser tão amiga, nunca mais ajudar quem não pede, nunca mais ajudar quem não tem poder nem de dizer obrigado. Porque você não é obrigada e nem vê amizade como obrigação. 

Um milhão de gente que vê amizade como obrigação: de estar ali, de limpar a lágrima, de ouvir o desabafo mais longo do mundo, de levar para sair porque acabou o namoro, porque foi chifrada, porque não tem mais ninguém, porque a família tá brigada, porque a vida tá um caos. Um milhão de gente que aponta o erro, mas esquece cada mísera vezinha que você acertou. Mas ah, você não me atendeu naquele dia, três horas da manhã, quando eu pensei em me matar. Você tinha que ter atendido! Você tinha que ter impedido! Eu podia mesmo ter me matado! Mas não se matou, você pensa. E claro, dane-se todas as horas que você esteve ali, dane-se que você levou para todas as suas viagens, dane-se que você deixou de ir a uma festa incrível porque ela queria ficar em casa e ver filme. Você não reclamou. Mas ela, ah, ela reclama, reclama, reclama...Tem gente que acha que amizade é muito mais apontar o erro do que agradecer os acertos. Não sou obrigada. 

Você pensa: se eu estou aqui, se eu ajudo, se eu limpo a lágrima, se eu faço rir, se eu me dedico tanto, se eu me importo tanto, se eu me desgasto tanto por um sorriso apenas do próximo, é por amor. O que a gente supostamente devia sentir por nossos amigos. Amigos, de verdade, não isso aí que andam chamando de amigos, esses que te conhecem em uma balada e te ligam para conseguir uns vips. Você pensa: mas caralho, eu estou aqui sendo amiga, dando meu máximo, indo até onde eu consigo e a pessoa não consegue nem ficar agradecida? Mas nunca é suficiente. 

Engraçado também que no fundo você sabe que a mesma pessoa que reclama e reclama e reclama e nunca agradece todo o seu esforço é a mesma que nunca se esforçaria tanto por você. E aí pela milésima vez você jura, faz uma promessa a Nossa Senhora das Amizades Certas, anota na agenda e determina uma meta de vida: nunca mais fazer tanto por gente que não faz o mesmo por você. E aí depois...olha você aí outra vez. 

Mas limpa a lágrima, engole o choro, foi você quem procurou. Coisa de gente que se doa e não recebe nada em troca. Coisa de gente que aprendeu por aí que temos que fazer as coisas sem esperar que façam o mesmo pela gente. Coisa de gente que vai ter sempre o amor explorado, usado, abusado, desgastado. 

Passar por tudo isso de novo? Eu? Nunca mais.

Até a próxima vez. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Querido namorado da minha ex-melhor amiga,

Ela chorou durante uma semana quando o primeiro cara quebrou o coração dela. E a gente passou o fim de semana vendo Diário de Uma Paixão e Um Amor Pra Recordar por vezes seguidas. A gente comeu brigadeiro, e tomou sorvete, e eu dei colo, e eu ouvi e limpei as lágrimas. Você não viu, porque você não tava lá, mas eu tava. 
Ela sofreu para escolher que faculdade iria fazer. E me fez ir a palestras e cursos com ela, mesmo que eu não estivesse interessada em nada daquilo. E me fez saber um pouco mais sobre as profissões que tava considerando. E pediu minha opinião milhões de vezes. E só decidiu o que iria prestar no vestibular aos quarenta e cinco do segundo tempo. Você não ficou nervoso com a ansiedade de ver se ela tinha passado na faculdade pública, mas eu fiquei. Porque você não tava lá, e eu tava. 
Ela conheceu um monte de babacas nos anos seguintes. E algumas vezes chorou, algumas vezes bebeu, algumas vezes disse que nunca mais ia ficar com cara nenhum. Algumas vezes ela só dormiu com …