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Os carnavais em que nosso amor não vingou

Você disse que voltava logo, que ia ligar, que não daria tempo nem de deixar saudades. E então desligaram o som, varreram os confetes das ruas, subi a serra. Os dias vieram, a correria já estava comigo de novo, e olha só, que coisa surpreendente: você não voltou. Também não quis correr atrás, não quis cobrar as promessas, não quis gritar por aí o seu abandono. Engoli calada a sua não-volta e segui em frente. Eu era dessas que não se deixava abater por desamores sem importância.

Depois, como quem não quer nada, a gente se esbarrou ali, no meio da rua, e eu sorri, como quem não queria nada, e nem queria mesmo. Demos as mãos, beijos nos rostos, um abraço apertado, falamos rápido da vida, combinamos uma coisa aqui ou outra ali. “Quando der, me liga”, você disse. Também não liguei, não quis, não lembrei, não teve importância. Não sei, a gente não teve tempo um para o outro e nem chegou a sentir saudade para se procurar.

Já era verão outra vez, eu estava na praia, a Ana estava comigo e mais umas duas ou três pessoas. Você passou, e só de longe, a gente sorriu um para o outro. Na minha cabeça passou aquele tanto de coisa que a gente viveu, não sei se na sua também. Tive vontade de ligar, saber como você estava, se aquele feriado estava sendo tão bom quanto os três últimos. Quis dizer que era a última vez que iríamos nos encontrar ali, naquela época do ano. Quis contar que eu venderia o apartamento, que não teria porque voltar, que você podia ligar quando quisesse.

Mas como quem não queria nada também, você virou o rosto e continuou andando. Continuou andando e eu continuei também. Porque em três dias o feriado acabou e tive que arrumar as malas e guardar as lembranças nos armários disponíveis, porque agora era isso que tudo tinha virado: passado. Você virou passado também, mas isso não doeu.

“Você nunca me doeu”, quis ligar só para te contar. “Você nunca me doeu”, quis repetir e repetir e repetir. Nem nas suas não-voltas, nem nas ligações que nunca fez, nem nos esbarrões só de vez em quando, no olhar falso de como se só eu importasse no mundo. “Você nunca me doeu”, quis gritar dessa vez. E te contar que exatamente por isso eu tinha vontade que você me doesse. Quis te contar que não sabia como era aquilo: quando os amores não doem. Quis te dizer que talvez você fosse o primeiro amor de verdade, talvez eu estivesse madura o suficiente para você, que talvez houvesse chegado nosso tempo.

Mas não encontrei seu telefone nas minhas coisas (e olha que procurei em cada canto). Também não te encontrei na última noite, quando eu, como quem não queria nada, caminhei pelo mesmo calçadão em que a gente se conheceu. Mas a gente não se esbarrou, como tantas outras vezes, nem nos abraçamos só para fechar a história com chave de ouro, nem demos o último beijo. Nada. Nada de história bonita para contar para os netos.

A gente foi isso: uns auges de amor entre um Carnaval e outro. Uns abraços eternos que duraram minutos. Uns beijos com gosto de festa. Um amor que não doeria, se a gente tivesse deixado ser amor. Mas não foi. O Carnaval acabou. E nosso amor não vingou. 

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