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Beautiful goodbye


And I remember your eyes were so bright
(Beautiful Goodbye - Maroon 5)


Mesmo com a música alta, ela percebeu os burburinhos que indicavam que ele havia chegado ao bar. Sem pensar duas vezes, então, correu para o banheiro, onde poderia ensaiar várias vezes como reagiria quando finalmente estivessem cara a cara outra vez. Não conseguiria esbarrar assim nele, depois de tanto tempo, e agir como sempre, sem precisar de nenhuma muleta para mostrar alguma felicidade ou alegria ou qualquer coisa que não incluísse uma saudade absurda que sentia dele por perto.

Olhou-se no espelho e abriu o maior sorriso que conseguia. Afinal, ela sabia e todas as outras pessoas também, sua fachada de felicidade não era tão sincera quanto ela queria que acreditassem. E também, todos sabiam, inclusive ela, que ela sentia uma falta quase desumana das broncas diárias dele quando ela agia impulsivamente ou quando era mais infantil que qualquer outra criança. Todos sabiam, inclusive ela. Menos, é claro, ele. Porque ele simplesmente deixara de reparar nos sinais óbvios que ela ainda lhe dava todas as vezes que se falavam, por telefone, na internet, por indiretas, recados de amigos ou qualquer coisa assim.

Mas, pessoalmente, ela sabia, tudo era bem mais difícil. Os milhares de sorrisos que dizia dar por trás da tela do computador não soavam tão verdadeiros agora que ela se olhava no espelho. Por mais que todos aqueles anos de palcos e novelas lhe tivessem transformado em uma grande atriz, ela não sabia ao certo atuar frente aos únicos olhos que haviam lhe importado por tantos anos. 

Então, sem vergonha nenhuma, começou a ensaiar risadas, gargalhadas, olhares, falas e improvisos que não deveriam soar falsos, mas na cabeça dela nunca seriam verdadeiros. Imaginou todos os diálogos possíveis. Imaginou fingir que não havia o visto, e então, quando ele viesse até ela com aquele sorriso lindo que tinha, ela iria fingir uma grande surpresa e o abraçaria rápido, antes de dizer que alguém estava a esperando em algum outro canto, porque ela não podia lhe entregar de bandeja a informação de que já não era mais a mesma depois dele. Depois dele, ela queria lhe revelar, tudo havia sido bem menos divertido, bonito e colorido. Mas ela tivera que seguir em frente, porque tinha uma vida inteira, e ele também. 

Pensou, também, em ir atrás dele, lhe dar um beijo no rosto, dizer que nem sabia que ele estaria lá, dizer que eles podiam marcar alguma coisa com os amigos, que não podiam ficar tanto tempo sem notícias um do outro. Nem sonhou em lhe contar que ela lia todas as notícias sobre ele, que estava informada sobre cada passo seu, e que tivera vontade inúmeras vezes de lhe telefonar e lhe dar um sonoro parabéns por cada uma daquelas conquistas. 

Então, depois de vários minutos se encarando no espelho, ela deu um último sorriso, respirou fundo e finalmente decidiu que iria atrás dele e falaria o que de mais sincero poderia lhe dizer: "Meu Deus, que saudade eu estava de você". E, depois disso, ela sabia, eles iriam engatar o papo mais fácil de todos os tempos, porque apesar de todo o tempo sem contato, eles ainda eram os mesmos. E ele lhe daria um daqueles sorrisos que só ele sabia dar e ela suspiraria. E os dois prometeriam que não iriam perder mais tanto o contato. Mas então eles entrariam naquele ciclo só deles e começaria tudo de novo.

E aí, finalmente pronta, ela se encaminhou para fora do banheiro. Ainda da porta, olhou para sua mão, onde uma recém aliança de compromisso havia sido colocada. Lembrou-se, então, que não fora ele que havia feito o pedido, nem ele que lhe abraçara em todas as outras noites em que estivera muito amedrontada do que viria pela frente. Lembrou-se que não fora ele que lhe dera o abraço mais forte depois de sua maior conquista. E lembrou-se, triste demais, que não era com ele ao lado que ela estava planejando seu futuro. Mas saiu, sem pensar mais em nada, porque depois que mirasse aqueles olhos, talvez, ela tivesse coragem de abandonar todas as suas certezas e mergulhar no sentimento mais sincero que já havia sentido na vida. 

"Onde ele está?", ela perguntou para a amiga que ainda estava no mesmo canto em que lhe deixara quando correra para o banheiro. Olhou em volta, mas não o encontrou. Os burburinhos também já haviam sido silenciados. Questionou novamente a amiga, que apenas balançou a cabeça negativamente. "Ele já foi embora", lhe contou. "Ele e a namorada só vieram marcar presença e já foram". 

Ela olhou para a porta do bar. Não lhe diria que sentia uma falta absurda. Não lhe contaria dos próximos planos. Não lhe daria aquele abraço que planejara, nem os sorrisos que ensaiara durante os últimos minutos. A aliança em seu dedo continuaria sendo de alguém muito longe de ser ao menos parecido com ele. E sua vida não seria planejada com ele ao lado. Sorriu. Logo ela diria "sim" para alguém que não era ele, porque ele não ousara lhe propor sequer algo parecido. 

"Ele foi embora", ela entendeu. E, dessa vez, se conformou: tinha sido para sempre. 

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