Pular para o conteúdo principal

Escolha, a vida por um fio

Dizem que quando a vida está por um fio é que as pessoas se mostram de verdade. Antes, eu até achava que situações limites não expunham quem a gente é de verdade, afinal, na pressão tem gente que faz coisas que até Deus duvida.  Mas quem a gente é, os valores, aquilo que a gente acredita, eu acho, permanece com a gente mesmo na hora H.

Assisti a um capítulo ontem de Criminal Minds que me fez pensar nas atitudes das pessoas quando a vida está em perigo. No capítulo, três melhores amigas eram sequestradas e expostas a uma escolha: se duas delas quisessem ser soltas, precisavam escolher uma para morrer. A coisa piorou quando o sequestrador contou que não bastava que escolhessem uma para a morte, as outras duas precisavam matá-la.

Eu, aqui, do meu lado de telespectadora, longe de qualquer situação de perigo, achei um completo absurdo que as amigas chegassem sequer a cogitar realizar tal escolha. Afinal, para mim, estava mais do que claro o que deveria ser feito: morremos as três juntas, então.

Mas, como uma já estava bastante doente (pela fome, frio e falta de água durante dias), as outras duas acreditaram que o mais sensato a fazer era deixá-la a mercê da morte. Quando descobriram que teriam que matá-la com um machado, houve uma nova discussão: uma delas não queria realizar tal ato de maneira alguma, a outra insistia que o fizessem. A doente, caída em um canto, aparentemente dormindo, ouvia tudo.

No auge da discussão entre as duas amigas, a doente se levantou, pegou o machado e matou a mais insistente. “Eu não tive escolha, elas já haviam escolhido que seria eu”, contou, depois, no depoimento. Talvez muita gente teria feito o mesmo. Talvez até eu, que achei um absurdo a princípio, teria repetido a ação com uma enorme facilidade na hora do desespero.

Na hora do desespero, talvez eu também faça coisas que até Deus duvida. Mas eu queria mesmo acreditar que mais gente, como eu, escolheria morrer com as duas melhores amigas ao invés de escolher uma para morrer e voltar para casa como se nada tivesse acontecido. Afinal, como é que se vive depois de ter tomado uma decisão dessa?

Depois do fim da série, ainda assisti ao programa do Jô, em que a médica e escritora Cínthya Verri disse, em um momento da conversa, que o instinto violento ainda está muito presente no ser humano, afinal, acabamos de sair das cavernas há muito pouco tempo. Está aí uma verdade. Talvez isso explique grande parte da coisa: nós somos violentos, e mostramos nossa violência quando encontramos a oportunidade.

Era só um capítulo de uma série. A amiga não morreu de verdade, as outras duas não fizeram escolha alguma. Ainda assim, imaginar que aquilo poderia, facilmente, acontecer de verdade, me deixou assustada. Não sei, talvez eu seja ingênua demais em acreditar que alguém me daria a mão e morreria comigo na hora H. Talvez, eu mesma seja ingênua de mais ao acreditar que eu daria a mão e morreria com alguém. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Querido namorado da minha ex-melhor amiga,

Ela chorou durante uma semana quando o primeiro cara quebrou o coração dela. E a gente passou o fim de semana vendo Diário de Uma Paixão e Um Amor Pra Recordar por vezes seguidas. A gente comeu brigadeiro, e tomou sorvete, e eu dei colo, e eu ouvi e limpei as lágrimas. Você não viu, porque você não tava lá, mas eu tava. 
Ela sofreu para escolher que faculdade iria fazer. E me fez ir a palestras e cursos com ela, mesmo que eu não estivesse interessada em nada daquilo. E me fez saber um pouco mais sobre as profissões que tava considerando. E pediu minha opinião milhões de vezes. E só decidiu o que iria prestar no vestibular aos quarenta e cinco do segundo tempo. Você não ficou nervoso com a ansiedade de ver se ela tinha passado na faculdade pública, mas eu fiquei. Porque você não tava lá, e eu tava. 
Ela conheceu um monte de babacas nos anos seguintes. E algumas vezes chorou, algumas vezes bebeu, algumas vezes disse que nunca mais ia ficar com cara nenhum. Algumas vezes ela só dormiu com …