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"Há um desencontro, veja por esse ponto"




Você aqui?

Vim te desejar boa sorte. É, eu sei, faz tempo. Você lembra do nosso último abraço? Nem eu. Acho que foi por isso que eu vim. É um absurdo eu não lembrar mais do nosso último abraço. Logo a gente que costumava se abraçar tanto.

A gente costumava fazer muita coisa, mas todas essas coisas mudaram.

É, eu sei. Mas será que tem que mudar? Você sabe, eu sempre adorei mudanças e novos desafios, mas acho que eu gosto da parte fixa da minha vida também e você faz parte dela. Aquelas pessoas que estão sempre aí. 

Escuta, será que a gente não pode ter essa conversa outra hora?

Não. A gente chegou a esse ponto porque foi sempre deixando para outra hora. Você deixou para gritar verdades comigo outra hora e ficou com raiva porque não extravasou suas frustrações comigo. Eu deixei para te pedir perdão outra hora, e acabei esbarrando numas pessoas muito erradas pelo caminho. 

Você fez suas escolhas, eu fiz minhas escolhas, só. A gente sabia que uma hora ou outra ia ser assim.

Não, mentira! A gente sabia que uma hora ou outra a gente ia ficar junto. Mas, novidade: um tempão passou, as pessoas pararam de acreditar na gente, a gente deixou de acreditar na gente, você não gosta mais das mesmas coisas que eu sabia, eu faço coisas que você nem imagina. E cadê a parte do “nós”? Eu cansei de esperar que a vida tome a providência e faça a gente se encontrar de novo. Então, eu vim aqui te abraçar e te desejar boa sorte, porque eu quis.

Esse é o seu problema. Você só faz as coisas quando você quer. Você sentiu falta, você veio. Você quis, você fez. Você quis ir embora, você foi. Você quis sumir, sumiu. Você quis parar de falar comigo como se eu tivesse errado muito feio, parou de falar comigo e todo mundo passou a me achar um grande filho da puta! Novidade: para de ser mimada, a vida não espera que você queira as coisas, as pessoas seguem em frente!

Nossa, que surpresa! Você jogando meus erros na minha cara e me dizendo como sou mimada. O que? Renovou o mesmo discurso? Já ouvi isso outras vezes. Mas, bem, você também não foi atrás de mim. E suas vontades sempre foram bem distantes de fazer com que ficássemos bem. É sempre você, seus sonhos, seu tempo, seu jeito, seu ego, seus pensamentos. Você, seu, eu. Egoísta! Eu vim aqui te desejar boa sorte, por você, porque eu torço por você, mas você nem sabe fazer o mesmo por mim!

Chega. Vamos deixar essa conversa para outra hora, eu não posso falar disso agora!

Eu não quero deixar para outra hora. Que saco, a gente deixou o amor para outra hora até aqui!

Quem tá aí? Amor, quem tá na porta? Por que você não vem logo?

Eu não acredito! Ela tá aí! E você aqui na porta comigo, como se a gente importasse! Ela tá aí na sua vida ainda! Ela, que não era ninguém, que era só alguém para fazer com que você se esquecesse de mim. E eu? Era só alguém pra fazer você se esquecer de si também?

Que droga, eu disse que essa não era a hora! Espera, amor, eu já vou, não é ninguém, é engano!

Uau! Que ótimo ouvir isso depois de oito anos! Mas essa parte você tem razão. Foi engano! Isso tudo! Eu vir aqui, eu acreditar que você ainda se importava, eu achar que ainda podia nos salvar de alguma coisa. Não dá para nos salvar de você e sua mania de me tratar como se eu fosse alguém horrível só porque não sou seu tipo de mulher ideal. Deus me livre ser seu tipo de mulher ideal, dessas que ficam na cama te gritando enquanto você discute na porta a relação com sua ex-namorada. 

Que droga! Deixa isso para outra hora! Eu vou fechar a porta. Depois a gente se fala e resolve isso. Outra hora. 

A gente deixou nosso amor para outra hora. E novidade: ele perdeu o prazo de validade. Já deu. Tchau. 

É só isso.
Não tem mais jeito.
Acabou.
Boa sorte.

(Boa sorte/ Good Luck - Vanessa da Mata)


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