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Ou ele ou eu.

É claro que ele acreditava no seu time, mas depois de alguns anos se decepcionando na hora H, ele não acreditou, realmente, que as coisas fossem melhorar. Então, ainda na fase classificatória para o campeonato do ano seguinte, deixou que ela marcasse a data do casamento. Afinal, eles já namoravam há tantos anos e já havia passado da hora de finalmente darem aquele passo adiante. Então era isso: o casamento fora marcado para o dia 4 de julho do ano seguinte. 

Ela começou a preparar tudo: escolher o lugar, o vestido de noiva, os convidados, a organização, as músicas, os padrinhos, os câmeras, os doces, o jantar, os enfeites. Pensou em cada detalhe com o maior carinho do mundo. Ia riscando um a um cada item de sua lista de afazeres até o grande dia. Ele, por outro lado, dizia que concordava com tudo o que ela escolhesse, que não tinha jeito para coisa, que era melhor deixar tudo nas mãos dela. 

Ela não reparou, é claro, mas ele também andava para lá e para cá com uma lista no bolso todo santo dia: a lista dos jogos que iriam ser disputados até o seu grande dia. Começou a preparar tudo: apostas, ingressos dos primeiros jogos, reuniões na casa de amigos, conversas de mesa de bar, a nova camisa do time que tinha que comprar. Foi riscando um a um cada jogo que seu time enfrentava (e vencia!, para sua surpresa), enquanto tentava disfarçar o temor que sentia do momento que fosse eliminado. Porque, afinal, depois de tanto se acostumar com a eliminação, ninguém podia julgá-lo, de fato, por não colocar a mão no fogo por aqueles jogadores.


Por outro lado, envolvida na cerimônia de sua vida, ela colocava a mão, o corpo e a alma no fogo de que aquele seria o dia mais feliz de sua vida. Sonhara com aquele momento durante anos (quando ainda era uma criança e via suas primas mais velhas se casando), mais ainda nos últimos, quando finalmente tinha encontrado o cara certo, para quem diria mais do que o "sim", diria: "claro, é óbvio, por que você esperou tanto para pedir?".


E ele pediu: três anos após o início do namoro, quatro anos antes de finalmente marcar a data. E agora, ela sabia, era para valer. Chegaria, ela se emocionava só de imaginar. Os detalhes já estavam quase todos escolhidos e os dias passavam cada vez mais rápido. Ela não ligava que ele não se interessasse muito por suas escolhas, afinal ele sequer ligava para detalhes. Mas ele tinha pedido, o que era o que realmente importava. Ela ainda até tentava, só para que não dissessem que ela tinha tomado totalmente as rédeas da vida dos dois. 


"Amor, olha, o que você acha dessas flores para enfeitar a Igreja?".
"Lindas, amor", ele dizia, sem olhar, concentrado demais na televisão.
"Você não olhou, presta atenção rapidinho".
"Agora tá passando o jogo, amor", ele repetia, "Vou adorar tudo o que você escolher. Confio em você". 


E ela também confiou nele. Que ele cumpriria o prometido. Que adorasse todas as suas escolhas. Que estivesse lá. Que dissesse o sim.


Mas o que ele não esperava aconteceu. O time foi se classificando, classificando, classificando, até que ele percebeu: naquele ano ia. 


"Agora vai", gritou para o amigo, após o fim de mais um jogo. "Esse ano vai, esse ano vai, esse ano vai!", comemorava sem parar. E então pegou sua lista de jogos, olhou o calendário e sua felicidade momentânea acabou. "Puta merda, esse ano vai, que droga!". O amigo não entendeu, mas ele não explicou. Apenas olhou o calendário, o sorriso morrendo no rosto, vendo a grande merda que tinha feito. 


"Amor, e se nós adiássemos o casamento só um mês?", ele propôs a noiva, depois de muito pensar no que fazer. Mas a cara nada contente que ela fez já denunciava sua resposta. Entraram em uma discussão sem fim, de gritos, acusações de 'você não se importa comigo, com meus sentimentos, com meu time, com meu amor' e tudo mais. Acusações gratuitas, cada um tentando defender seu próprio objetivo, até que veio a frase final:


"Você vai ter que escolher: ou esse time ou eu", ela intimou. Não iria dar o braço a torcer, não iria reenviar convites, remarcar data na Igreja, da festa, dos preparativos. Ele sequer poderia ter cogitado a possibilidade. "Ou ele ou eu", ela repetiu.


E então, horas depois, dizem que uma mulher ligava para uma série de amigos desmarcando um casamento que nunca mais iria ocorrer. E dali alguns dias, dizem que um homem passava correndo pela rua, com uma bandeira, gritando a plenos pulmões: "Não vou mais casar, mas não importa porque meu time é campeão da América!!!!!". 



Comentários

  1. Hahahaha!

    Qualquer semelhança...(?)

    Rapaz, que situação complicada. Mas, olha, não duvido não que isso tenha acontecido em algum lugar por aí. heheh.

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  2. KKKK, eu adorei.. Mas é como se diz, pimenta no c* dos outros é refresco, fico imaginando se acontecesse comigo... eu matava!!! kkk

    Beijos, flor.

    ResponderExcluir

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