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Recalculando rota



“Quando um certo alguém cruzou o teu caminho e te mudou a direção”
  (Lulu Santos)


A passagem para Nova Iorque já estava comprada. Ela iria sem olhar para trás, com toda sua independência buscada ao longo de seus vinte e cinco anos, com os sonhos guardados nos compartimentos das malas. Sem nenhuma história mal acabada, sem nenhum final feliz em aberto, sem nenhuma ferida deixada em alguém. Só ela e seus sonhos, livres, leves e soltos.

Aí ele apareceu.

Como quem não queria nada. Fez com que ela começasse a ouvir U2. A levou para os bares da Vila Madalena e apresentou seus amigos cults, tão distantes do universo que ela estava acostumada. Apresentou a ela sua hamburgueria favorita, muito melhor que aquela do shopping que ela adorava, e bem mais barata. A levou no show da banda cover do Queen e disse que ela nunca mais iria a um show tão bom quanto aquele. A levou para sua casa e fez com que ela ficasse em silêncio, porque ela sempre falava demais.

Ela achava, no íntimo, que tinham firmado um contrato em silêncio de que era só mais um daqueles relacionamentos passageiros, então ela não precisava se preocupar. Iriam rir muito enquanto dava, depois se abraçariam e diriam que foi ótimo se conhecer e depois cada um iria para seu caminho. Ela viraria à esquerda, ele à direita e quem sabe lá na frente não se encontrassem em algum cruzamento.

Enquanto isso, ela começou a ler seu primeiro livro de Nietzsche porque sabia que ele adorava. Não levou para conhecer a família, naqueles almoços de apresentação do namorado (porque ele não era seu namorado), mas levou a irmã na festa de aniversário surpresa que ajudara os amigos dele a organizar. Aprendeu a dormir do lado direito da cama porque ele não deixava o lado esquerdo por nada no mundo.

Pulou de paraquedas com ele e deixou de lado seu pavor de altura, pelo simples fato de que ele estava lá, segurando sua mão e jurando, olhando nos seus olhos, que ela estaria segura. E ela acreditou.

Começou a comer salada no almoço de segunda a sexta porque ele era um pouco natureba e ela achava isso lindo nele e queria lhe deixar orgulhoso. Entrou no curso de francês só para conseguir conversar melhor com os primos franceses dele. Aprendeu, finalmente, depois de tantos anos vendo futebol com seus ex-namorados, o que era um impedimento. Achou engraçado que ele preferia torcer para a Portuguesa do que para o Corinthians.

Ele lhe convenceu que Londres era melhor que Nova Iorque. Que Paris era melhor do que a Disney. Que café era melhor do que Nescau. Que a Vila Madalena era melhor do que o Morumbi. Que passar a noite com os amigos em casa era melhor do que a balada mais cara da cidade. Que dormir com ele era melhor do que dormir sozinha.

Um dia, depois de aprender com ele por tantos dias, ela tinha uma passagem na mão e as malas arrumadas. Ele pediu para ela ficar. E ela ficou. Não tanto porque ele pedira, mas porque ela queria.

Respirou fundo, desarrumou as malas e recalculou a rota: a direção agora era outra. 

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