Pular para o conteúdo principal

As pessoas que a gente costumava ser


Talvez você não lembre, mas não dispenso o cobertor nem nos dias de verão. E tenho mania de deixar o pé descoberto, mas nunca descobrirei o porquê. Gosto da comida morna, e disso você nunca esquecia, mas depois de tanto tempo, começo a desconfiar. Ainda não consigo deixar minhas mãos paradas quando vou em algum restaurante e acabo destruindo latas de refrigerante, copos de plásticos e guardanapos. Ainda prefiro all star do que salto, ainda moro com meus pais, ainda acho que comer é uma das melhores coisas do mundo, ainda adoro pintar minhas unhas de vermelho, ainda escrevo como se eu fizesse isso bem, ainda amo você.

Ainda amo você, e você costumava saber bem disso. Mas acho, realmente, que você já se esqueceu disso também, junto com todas as outras coisas sobre mim. Exatamente como esqueceu que eu odiava que as pessoas saíssem da minha vida batendo a porta, sem olhar para trás e esquecendo de propósito roupas e acessórios dentro das minhas gavetas (só para me fazer lembrar).

Não sou mais fã daquela banda. Isso você já não sabia. Comecei a gostar mais de espanhol do que de inglês, é um choque? Vou para Londres no final do ano, então nem sonhe em esbarrar comigo em Nova Iorque, que é para onde eu dizia que iria antes. Minha cor preferida deixou de ser rosa e agora é vermelho. Mas continuo não gostando de flores.

Aquele nosso amigo em comum já não sabe mais nada da minha vida, então nem adianta perguntar de mim para ele. Mudei meu círculo de amizades também, os lugares que frequentava e a cor do meu cabelo. Mudei meu gosto musical (agora eu escuto até sertanejo!), mas ainda sou apaixonada pelas letras do Chico e do Caetano.

Deixei de ir naquela casa de show de rock underground que foi onde a gente se conheceu. Nem consigo me imaginar mais em um lugar daquele, dá para acreditar? Continuo desorganizada, com isso você não precisa se preocupar, mas abandonei de vez aquelas listinhas de coisa para fazer nas quais eu insistia em escrever e não cumprir.

Seu nome continua na minha agenda do celular, mas seu nome é tão comum que eu não sei qual deles é você. Aliás, eu sei lá quem você ainda é. Olho para trás, vejo nossas fotos, a vida antiga, já não nos reconheço. Você tinha o cabelo diferente, ainda não tinha tantas tatuagens e usava umas roupas estranhas, bem diferente das camisas que agora usa para trabalhar. E eu? Ainda sou aquela? Ainda te espero, de braços abertos, pronta para quando você voltar?

Arrumei as malas com as coisas que você deixou. Algumas roupas, um cinto que nunca usava (agora deve usar cintos como aquele, não é verdade?) e sua cueca preferida (na época). Está tudo arrumado, lavado e passado. Pronto para quando você vier buscar. Ainda amo você. Ou quem você era. Ou quem a gente era junto. Ou qualquer coisa assim. Mas não sou mais aquela. Nem te espero, de braços abertos, para quando você resolver voltar.
Continuo sem gostar de comida requentada, que vai perdendo o gosto cada vez que a gente tenta colocar no microondas e fingir que acabou de sair do forno.

Nem ouso requentar nosso amor, porque nem sei mais que tipo de amor era o nosso. E você também já não sabe mais nada sobre quem eu sou.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Cansei de brincar de ser trouxa

Eu cansei das mensagens visualizadas e não respondidas. De ter que estar pronta pra quando você quisesse, mas nunca poder contar com sua presença quando eu queria. Eu cansei de ser sempre tudo do seu jeito, de mendigar sua atenção, de tentar me encaixar entre um horário e outro da sua agenda, de me esforçar pra caber nuns buraquinhos esquecidos da sua vida. 
Cansei das idas e vindas, cansei da falta de atitude, cansei das vezes em que você disse que eu era tudo o que você queria, só não era agora, só não era a hora. Eu cansei de escrever sobre você, de dizer que ia te esquecer, de voltar atrás, de tentar mais um pouco, de insistir mais um tanto. Eu cansei naquela noite em que você não voltou. Naquele silêncio em que a gente não dividiu. Na madrugada inteira que você não me aqueceu e eu morri de frio. 
Eu cansei depois daquele seu olhar vazio quando eu apareci de surpresa. Eu cansei de achar que era você, e era eu, você só não sabia. Porque, quando é, a gente sabe desde o começo. Eu cans…