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Como dizer para você que eu não te amo mais?

A gente demorou muito para soltar a voz no “eu te amo”. Acho, até, que a gente já se amava antes disso. Em uma noite só nossa, depois de tantas outras noites: “olha, eu acho que amo você”.

Foi assim mesmo. Com um “acho” na frente, porque eu tinha medo de admitir até para mim mesma o que já era uma certeza. Coisa de gente que tem medo de se jogar de cabeça em um relacionamento depois de já ter dado de cara no chão em outros mergulhos. E ele sorriu para mim, beijou minha testa e disse o mesmo.

A gente se amava.

Essa parte foi difícil, eu sei. E foi difícil todo o resto. As brigas por coisas bobas, por coisas sérias, as manias que ele tinha de não me ligar para ver se eu sentia saudade, meu orgulho que não me deixava procurá-lo quando a saudade chegava. Foram difíceis as crises de ciúmes de dois escorpianos tentando se relacionar. E o dia a dia corrido, a falta de tempo, a falta de tato, a falta de espaço, a falta de amor.

A falta de amor. Que chegou depois de tanto tempo.

Como é que se diz para alguém “Olha, escuta, eu te amei bastante, mas não te amo mais”? Como é que não se ama mais uma pessoa?

Vão dizer que eu menti. Que eu não o amava lá atrás, no começo. Mas amava. Amava muito. Com muita força. Mas passou. Fui me afastando, buscando novos sonhos, me esforçando por outras coisas, tendo menos tempo para ele, ele tendo menos tempo para mim. Ele também mudou, não me achem assim tão horrível. Quando a gente está junto, agora, parece que se repele.

E eu fico olhando para ele e procurando saber: Como é que eu te digo que não te amo mais?

Ele faz perguntas automáticas no fim do dia, como alguém que também não sabe mais como salvar o relacionamento. A gente se olha sem graça, nenhum dos dois tendo coragem o suficiente de pular do barco. E aí ele pergunta: “Como foi seu dia hoje?”.

Meu dia? Trabalhei muito. Sabe a Clara? Ela não está mais lá na empresa. Foi para uma agência de publicidade. Você sabe que um dia eu também quero ir para uma, não sabe? Foi tudo cansativo. Trabalhei como um camelo. Queria minha cama, um café forte, um final de semana na praia. Liguei para minha mãe, disse que eu ia passar uns dias por lá, olhei umas passagens para o Rio, pensei seriamente em pedir demissão. Acho que vou reformar meu apartamento, acho que vou mudar a cor do meu cabelo, acho que vou comprar roupas novas, acho que vou comprar um carro, acho que eu não te amo mais. 

Acho que eu não te amo mais.


Foi assim mesmo. Com um “acho” na frente, porque eu tinha medo de admitir para ele o que já era uma certeza para mim.

Ele me olhou assustado. Eu o olhei assustada também.

Acabou.

Eu não te amo mais.

Não me odeie.

Me perdoa. 

Comentários

  1. Olá, tudo bem?
    Adorei o seu blog! Estou seguindo!
    Lindo esse texto!

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    Beijossss
    Andreza

    ResponderExcluir
  2. Anônimo31/3/14

    Triste mas ao mesmo tempo lindo..

    ResponderExcluir

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