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Me miras diferente...

Esse conto é totalmente baseado no videoclipe dessa música abaixo. Seria interessante que o vissem e prestassem atenção na letra, antes ou depois da leitura. A ordem é de sua preferência. 



Era uma vez um casal feliz.

Nós éramos esse casal. Éramos felizes.

Você me abraçava com força, segurava-me com uma possessividade que me agradava. Rodávamos pela casa, felizes, bêbados, como se nada mais importasse no mundo. Eu lhe jogava na cama, enquanto retirava lentamente cada peça de roupa e lhe enlouquecia. Você me olhava, jogado na cama, e minha única certeza era que eu não gostaria de estar em nenhum outro lugar do mundo.

E eu acreditava, na época, que você queria estar apenas ali também. Não reparava em como desviava o olhar para a carteira. Ou então em como mudava a expressão descontraída por um olhar compenetrado quando um de seus amigos lhe chamava para jogar cartas. Eu não reparava. Reparava apenas no que eu sentia quando você me jogava na cama, feliz porque havia ganhado uma bolada, e me amava de uma maneira que eu nunca havia sido amada antes (hoje eu sei que preferia nunca ter sido amada daquela maneira). Éramos felizes enquanto você ganhava.

Seus beijos em meu pescoço me levavam a algum lugar entre o céu e o inferno. Sabia que estava muito próxima ao paraíso, ao mesmo tempo em que tinha consciência de que cometia algum pecado grave por insistir em estar com você, mesmo quando todos diziam que você só fazia coisas erradas. Eu não acreditava. Eu não acreditava que alguém que me levava a lugares tão surreais, como você me levava na cama, poderia fazer aquilo sem amar a outra pessoa. Você me amava, eu tinha certeza disso.

Mas a sorte mudou de lado e você pareceu mudar também. Seus olhos agora estavam mais focados no dinheiro, os olhares só eram destinados a mim entre uma piscada e outra, rapidamente. Achei que passaria logo. Não passou. Achei que se eu dissesse o quanto aquilo começava a me incomodar, você mudaria. Não mudou. Você foi perdendo cada vez mais dinheiro e eu fui perdendo cada vez mais sua atenção. E seu amor.

As pessoas continuavam me dizendo que eu deveria lhe deixar. Eu continuava a insistir, porque eu lhe amava e acreditava em você. Tentei, várias vezes, últimas tentativas. Deixei de lhe acompanhar em seus jogos, em uma última tentativa de lhe salvar. Você deixou que eu passasse minhas noites cada vez mais sozinha. Olhava o relógio, o dia quase amanhecendo, e seu lado da cama intacto.

Você quase não voltava mais para casa. Perdia cada vez mais. E cada vez mais se envolvia com as pessoas erradas. Porque eu insistia que os errados eram os outros, nunca você. Nunca foi você.

Enquanto eu lhe esperava em casa, você fazia dívidas e mais dívidas. E se perdia mais um pouco na bagunça que você mesmo formou. Quando eu tentava lhe puxar desse buraco em que você se afundava, você me repelia, como seu eu queimasse sua pele, como se eu quisesse seu mal.

As cenas em que nós nos afastávamos eram mais frequentes conforme o tempo passava. Eu tentava me apegar a figura de quem você era antes, mas a distância entre quem você era quando parecia me amar e quem você se tornou foi ficando cada vez maior.

Um dia, você decidiu que passaria a me enganar. E a me roubar. Você, talvez, tenha se iludido de que devolveria tudo, de que era apenas um empréstimo, de que não fazia por mal. E, sem querer meu mal, você foi perdendo meu dinheiro também.

Enquanto você estava cercado de jogos, dinheiro e dívidas, eu ficava em casa, começando a enfrentar a fase que deveria ser a mais feliz de nossas vidas. Preparei tudo, uma noite, para lhe contar que você iria ser pai. Já imaginava como você ficaria feliz, como voltaríamos a ser o casal feliz do início da nossa história. Naquela noite, você jamais chegou para o jantar.

Comecei a pensar que talvez as outras pessoas tivessem razão sobre você. Afinal, quem eu queria enganar? Você não era mais o homem que já havia sido e nem chegava perto do homem que eu queria como o pai dos meus filhos. Mas eu sofri por chegar a essa conclusão. Chorava, dias seguidos, enquanto nossa casa ficava cada vez mais vazia. Sem nossas coisas e sem você.

Acordei, um dia, perto do final, sem minha aliança. Dei-me conta, imediatamente, de que você a havia tirado para usá-la em suas apostas. Você estava perdido em um vício que nos matava, eu estava sem a aliança que nos unia. E eu percebi que nós já havíamos acabado.

Cansada, de insistir em nós e de acreditar em você, arrumei o que me sobrava e fui embora. Deixando-lhe o recado de que se quisesse conhecer seu filho algum dia, ele esperaria por você.

Antes que eu pudesse partir, ouvi você me chamar. “Amor”, você gritou. Enquanto me virava em direção a sua voz, lembrei-me de quando éramos um casal feliz. E então veio o barulho do tiro. E eu me desesperei. Nunca mais ouviria outro “Amor” como aquele, tão sofrido, tão gritante de quanto o você, sim, me amava. Mas seu vício havia ganhado. Você tinha minha aliança na mão. E morreu em meus braços.

Você me amava, eu continuo tendo certeza disso. Mas, hoje, eu tenho a certeza também de que, às vezes, só amor não basta. Não bastou. 

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