12 de agosto de 2012

Procura-se: assassina


I don't wanna do this anymore
I don't wanna be the reason why
Everytime I walk out the door 
I see him die a little more inside
I don't wanna hurt him anymore
I don't wanna take away his life
I don't wanna be a murderer
(Unfaithful - Rihanna)

Ele liga. Antes de atender, tento listar os trinta e nove motivos pelo qual devo odiá-lo. Paro no quinto motivo, porque tenho medo que ele desista e desligue a ligação. Atendo, mas só para dizer que ele vá para o inferno e me esqueça. Que me deixe viver a vida longe do descontrole que ele provoca em tudo ao seu redor. Atendo somente para deixar claro que não sou nada dele nem ele meu.

Ele me chama para ir ao nosso ponto de encontro, para conversar pessoalmente, porque é melhor. Eu deveria deixar já claro no telefone que não vou mais a ponto de encontro nenhum na minha vida desse jeito: escondida, como se fosse uma assassina. Deveria deixar claro que, se eu tivesse que matar alguém nessa história, a vítima seria apenas ele. Mas, talvez, ele tenha razão, essa conversa fluiria melhor pessoalmente, talvez faça até melhor para mim descarregar toda essa frustração olhando em seus olhos e o acusando de tudo o que minha mente perversa o acusa. Digo a ele, então, que me encontre em meia hora.

Saio escondida, sem fazer barulho, sem deixar recado de aonde vou. Não deixo de me sentir culpada mais uma vez, mas essa é a última, somente uma despedida cheia de gritos e vazia de lágrimas, apenas para deixar claro que esse pecado não cometo mais. Penso nas perguntas que enfrentarei quando voltar, nas novas mentiras que terei que contar, mas essas valerão a pena porque significarão minha liberdade.

Chego primeiro. Enquanto o espero, acabo de lembrar os outros trinta e quatro motivos do meu ódio. A raiva volta e sinto a sensação de um soco no estômago. Certo, pronta para o combate. Ele abre a porta e a primeira coisa que reparo é em seu ar abatido. Ele tem olheiras abaixo dos olhos, o que significa que não está dormindo. Isso pode significar que suas noites estão realmente boas e agitadas, o que aumenta ainda mais meu ódio. Ou pode significar que ele não dorme bem pelo mesmo motivo que eu: nós. Isso diminui um pouco a raiva.

Ele traz consigo uma mochila, típico de quando vem para dormir. Dou um sorriso irônico e me pergunto qual o problema da vez: o jantar em que ele não foi alegando estar em uma reunião, o jeito mais rude que respondeu a alguma pergunta, a ligação não identificada que não quis explicar de quem era. Provavelmente, era minha.

Ele me lança aquele seu olhar acolhedor que esquenta meu coração e me faz esquecer todos os cinco motivos do meu ódio, ou seis, ou dez, não sei mais quantos eram. Ele me lança aquele olhar que sempre lança quando a vida dele está um caco. E eu caio outra vez.

Ele sorri, me abraça, diz que sentiu minha falta, que só nos meus braços se sente seguro. Diz que queria ter coragem de largar tudo e fugir comigo nas costas, sem os pesos que nos separam. Diz que nunca é igual a mim. Diz que me quer com todas as suas forças. Sei que tudo é mentira, juro que sei, sei, eu sei. Fico repetindo mentalmente após cada uma de suas frases manjadas: é mentira, idiota, é mentira. Sou uma mentira também.

Caio na dele e quando vejo estamos na cama, abraçados. Ele dorme profundamente. Provavelmente, amanhã as olheiras terão sumido, junto com ele. Vou acordar, como todas as outras vezes, e ele já terá voltado para ela, ciente de que a raiva dela já terá diminuído e eles estarão bem. Eu, fingindo que não me importo que seja para os braços dela que ele corra quando a alma está tranquila, arrumo minhas coisas e parto para minha própria mentira. Não assumo que me dói saber que sou apenas um extintor para seus incêndios.

Saio do nosso canto me sentindo suja. Grito para mim mesma que foi a última vez. Que nunca mais deixarei que ele me use dessa forma e depois volte para os braços dela. Juro que tentarei salvar meu relacionamento com os braços que me envolvem quando ele parte. Penso nas perguntas que terei que encarar e nas mentiras que contarei. Tudo bem, foi a última vez, nunca mais erro assim. E volto, em silêncio, escondida, sem deixar rastros. Como a criminosa que sou. Assassina de casamentos: o júri a declara culpada.  


Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. eu vim aqui como quem não quer nada e não consegui mais parar de ler os seus textos, só quero que você saiba que seus textos são envolventes, emocionantes, surpreendentes, perfeitos, estou apaixonada por eles, continue assim. Parabéns.

    Black pepper
    naty-todasaspequenascoisas.blogspot.com

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