Pular para o conteúdo principal

Procura-se: assassina


I don't wanna do this anymore
I don't wanna be the reason why
Everytime I walk out the door 
I see him die a little more inside
I don't wanna hurt him anymore
I don't wanna take away his life
I don't wanna be a murderer
(Unfaithful - Rihanna)

Ele liga. Antes de atender, tento listar os trinta e nove motivos pelo qual devo odiá-lo. Paro no quinto motivo, porque tenho medo que ele desista e desligue a ligação. Atendo, mas só para dizer que ele vá para o inferno e me esqueça. Que me deixe viver a vida longe do descontrole que ele provoca em tudo ao seu redor. Atendo somente para deixar claro que não sou nada dele nem ele meu.

Ele me chama para ir ao nosso ponto de encontro, para conversar pessoalmente, porque é melhor. Eu deveria deixar já claro no telefone que não vou mais a ponto de encontro nenhum na minha vida desse jeito: escondida, como se fosse uma assassina. Deveria deixar claro que, se eu tivesse que matar alguém nessa história, a vítima seria apenas ele. Mas, talvez, ele tenha razão, essa conversa fluiria melhor pessoalmente, talvez faça até melhor para mim descarregar toda essa frustração olhando em seus olhos e o acusando de tudo o que minha mente perversa o acusa. Digo a ele, então, que me encontre em meia hora.

Saio escondida, sem fazer barulho, sem deixar recado de aonde vou. Não deixo de me sentir culpada mais uma vez, mas essa é a última, somente uma despedida cheia de gritos e vazia de lágrimas, apenas para deixar claro que esse pecado não cometo mais. Penso nas perguntas que enfrentarei quando voltar, nas novas mentiras que terei que contar, mas essas valerão a pena porque significarão minha liberdade.

Chego primeiro. Enquanto o espero, acabo de lembrar os outros trinta e quatro motivos do meu ódio. A raiva volta e sinto a sensação de um soco no estômago. Certo, pronta para o combate. Ele abre a porta e a primeira coisa que reparo é em seu ar abatido. Ele tem olheiras abaixo dos olhos, o que significa que não está dormindo. Isso pode significar que suas noites estão realmente boas e agitadas, o que aumenta ainda mais meu ódio. Ou pode significar que ele não dorme bem pelo mesmo motivo que eu: nós. Isso diminui um pouco a raiva.

Ele traz consigo uma mochila, típico de quando vem para dormir. Dou um sorriso irônico e me pergunto qual o problema da vez: o jantar em que ele não foi alegando estar em uma reunião, o jeito mais rude que respondeu a alguma pergunta, a ligação não identificada que não quis explicar de quem era. Provavelmente, era minha.

Ele me lança aquele seu olhar acolhedor que esquenta meu coração e me faz esquecer todos os cinco motivos do meu ódio, ou seis, ou dez, não sei mais quantos eram. Ele me lança aquele olhar que sempre lança quando a vida dele está um caco. E eu caio outra vez.

Ele sorri, me abraça, diz que sentiu minha falta, que só nos meus braços se sente seguro. Diz que queria ter coragem de largar tudo e fugir comigo nas costas, sem os pesos que nos separam. Diz que nunca é igual a mim. Diz que me quer com todas as suas forças. Sei que tudo é mentira, juro que sei, sei, eu sei. Fico repetindo mentalmente após cada uma de suas frases manjadas: é mentira, idiota, é mentira. Sou uma mentira também.

Caio na dele e quando vejo estamos na cama, abraçados. Ele dorme profundamente. Provavelmente, amanhã as olheiras terão sumido, junto com ele. Vou acordar, como todas as outras vezes, e ele já terá voltado para ela, ciente de que a raiva dela já terá diminuído e eles estarão bem. Eu, fingindo que não me importo que seja para os braços dela que ele corra quando a alma está tranquila, arrumo minhas coisas e parto para minha própria mentira. Não assumo que me dói saber que sou apenas um extintor para seus incêndios.

Saio do nosso canto me sentindo suja. Grito para mim mesma que foi a última vez. Que nunca mais deixarei que ele me use dessa forma e depois volte para os braços dela. Juro que tentarei salvar meu relacionamento com os braços que me envolvem quando ele parte. Penso nas perguntas que terei que encarar e nas mentiras que contarei. Tudo bem, foi a última vez, nunca mais erro assim. E volto, em silêncio, escondida, sem deixar rastros. Como a criminosa que sou. Assassina de casamentos: o júri a declara culpada.  

Comentários

  1. eu vim aqui como quem não quer nada e não consegui mais parar de ler os seus textos, só quero que você saiba que seus textos são envolventes, emocionantes, surpreendentes, perfeitos, estou apaixonada por eles, continue assim. Parabéns.

    Black pepper
    naty-todasaspequenascoisas.blogspot.com

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Gostou do post? Deixa sua opinião ou sugestão de post aqui que a gente vai adorar ler! ;)

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Querido namorado da minha ex-melhor amiga,

Ela chorou durante uma semana quando o primeiro cara quebrou o coração dela. E a gente passou o fim de semana vendo Diário de Uma Paixão e Um Amor Pra Recordar por vezes seguidas. A gente comeu brigadeiro, e tomou sorvete, e eu dei colo, e eu ouvi e limpei as lágrimas. Você não viu, porque você não tava lá, mas eu tava. 
Ela sofreu para escolher que faculdade iria fazer. E me fez ir a palestras e cursos com ela, mesmo que eu não estivesse interessada em nada daquilo. E me fez saber um pouco mais sobre as profissões que tava considerando. E pediu minha opinião milhões de vezes. E só decidiu o que iria prestar no vestibular aos quarenta e cinco do segundo tempo. Você não ficou nervoso com a ansiedade de ver se ela tinha passado na faculdade pública, mas eu fiquei. Porque você não tava lá, e eu tava. 
Ela conheceu um monte de babacas nos anos seguintes. E algumas vezes chorou, algumas vezes bebeu, algumas vezes disse que nunca mais ia ficar com cara nenhum. Algumas vezes ela só dormiu com …