Pular para o conteúdo principal

A gente acostuma, eu juro

Depois de tantas vezes, a gente acostuma. 

Não dói mais tanto como das primeiras vezes. O que não quer dizer que não doa nem um pouco. Mas dói e eu sorrio, dói e eu vou comprar roupas novas, dói e eu continuo a conversa, dói e eu continuo vivendo. Perguntam se eu tô brava e eu não tô. Se eu tô puta, e eu não tô. Se eu vou arranjar briga, parar de falar, qualquer coisa assim, e eu não vou. Eu não vou. 

Perdi a vontade até de discutir o que me magoa. Tudo bem, quem vai ser o próximo? Nem é mais questão de perdoar os erros das pessoas, é questão de ver as pessoas errando e deixar para lá. Vou limitando até aonde eu confio, até que ponto posso ir. Deixo para lá os planos em comum, começo a sair com outras pessoas. Simples assim, como quem vem perdendo o contato sem motivo aparente, mas sabendo perfeitamente o que afasta. 

Que eu sempre acabo me dedicando a amizades que me dão rasteiras depois? Mas de que adianta falar isso pela trigésima vez? Chorar, fazer manha, querer gritar poucas e boas? Vai mudar alguma coisa? Vai me fazer ficar melhor? Não vai. 

Também nem tem o que ficar melhor. Eu tô normal. Eu juro. Normal só, na minha, considerando realmente quem merece ter tanta importância. Depois de tantas vezes, a gente acostuma, eu juro. Com as palavras ditas sem pensar, com as atitudes feitas sem considerar se aquilo é mesmo o melhor a ser feito. Depois de um tempo, você para de esperar dos outros o mesmo que você faria por eles. Você para de esperar qualquer tipo de retribuição; mesmo que você tenha emprestado tempo, atenção, dinheiro, sua casa, seus amigos e tudo mais. 

Você aprende, realmente, a não esperar nada em troca. E vai, pouco a pouco, se preparando para esperar tudo de todo mundo. Aí você recebe o baque e não cambaleia como das outras vezes. Recebe o baque e ri (um tanto de desespero, mas ri). Você recebe o baque e muda de assunto; conta uma piada; canta como se não houvesse amanhã. E talvez, não haja mesmo amanhã. Porque você entende que por mais que continue vivendo com a pessoa no presente, não é aquele tipo de pessoa que você quer no seu futuro. Uma hora, você se afasta e é pra sempre. 

Depois de um tempo, eu acostumei. Depois de tantas vezes, parei de chorar, ficar brava, querer gritar. Eu descobri que a gente esquece, que a gente continua em frente, que não faz mais tanta diferença. E depois de tantas vezes, eu entendi que espernear não muda nada, que mudar meu jeito também não, que tentar preservar meu coração não adianta tanto assim. E que se eu parar de me ater tanto a cada um que me decepciona, meu coração vai sair preservado de algum jeito. 

Depois de todas as vezes que eu quebrei a cara, eu acostumei. Sem gritos, sem lágrimas, sem nada. Depois de um tempo, eu aprendi a me decepcionar. 

E descobri que decepção não mata; no máximo, engorda. 

Comentários

  1. que isso moça.. você escreve muito! Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Texto lindo, exatamente o que estou passando agora.
    Desculpe mais peguei "emprestado" e coloquei no meu Blog, deixando claro que a autora do texto é você. Se poder dê uma visitada no meu também.
    Parabéns, escreve muito bem!

    Meu site http://usodrogaeasvezesminto.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigadaaa! Acabei de dar uma olhada no seu blog <3

      Excluir

Postar um comentário

Gostou do post? Deixa sua opinião ou sugestão de post aqui que a gente vai adorar ler! ;)

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Querido namorado da minha ex-melhor amiga,

Ela chorou durante uma semana quando o primeiro cara quebrou o coração dela. E a gente passou o fim de semana vendo Diário de Uma Paixão e Um Amor Pra Recordar por vezes seguidas. A gente comeu brigadeiro, e tomou sorvete, e eu dei colo, e eu ouvi e limpei as lágrimas. Você não viu, porque você não tava lá, mas eu tava. 
Ela sofreu para escolher que faculdade iria fazer. E me fez ir a palestras e cursos com ela, mesmo que eu não estivesse interessada em nada daquilo. E me fez saber um pouco mais sobre as profissões que tava considerando. E pediu minha opinião milhões de vezes. E só decidiu o que iria prestar no vestibular aos quarenta e cinco do segundo tempo. Você não ficou nervoso com a ansiedade de ver se ela tinha passado na faculdade pública, mas eu fiquei. Porque você não tava lá, e eu tava. 
Ela conheceu um monte de babacas nos anos seguintes. E algumas vezes chorou, algumas vezes bebeu, algumas vezes disse que nunca mais ia ficar com cara nenhum. Algumas vezes ela só dormiu com …