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"Alguém me interne no paraíso"


Tô fazendo de tudo para não perder as estribeiras. Tô respirando fundo, contando até 100, usando todas as dicas que aprendi ao longo da vida sobre meditação. Tô tentando fazer aquilo que todo mundo repete que eu deveria fazer: levar tudo mais numa boa. Escutou bem? Tô fazendo de tudo para não enlouquecer, para não gritar, para não querer descontar cada porrada que ando levando. Tenho sorrido muito, rido com desespero, abraçado bastante. Tudo para não cair num choro compulsivo nem dar patada em gente que vai me cutucando com a vara curta.
Acho que prender tanta coisa vai me render uma gastrite. Mas tudo bem, eu devia mesmo parar de brigar com todo mundo por causa de uns errinhos bobos. Não devia? Todo mundo erra sempre, todo mundo fala mal pelas costas, todo mundo falha. Então, fica quieta e respeita o erro alheio. Não foi o que me mandaram fazer? Levar tudo numa boa e parar de me importar tanto? Aprendi direitinho. A gente complica a vida, não é? Numa boa, eu cresci, mãe, já até sei descomplicar as coisas.
Talvez tenham que me internar num manicômio. Mas quem se importa? Talvez eu comece a ter umas crises de riso descontroladas. Mas quem se importa? A gente ri do desespero que é pra não chorar que nem criança. A gente diz assim que tá-tudo-bem, magina-eu-não-ligo-mais-pra-isso. Mas liga. E aí a gente fica sabendo de algo e morre de vontade de chorar, mas morde a bochecha e engole o choro, porque não pode ficar ligando pra tanta coisa pequena, né?
E aí, no meio disso tudo, a gente finge que acostuma. E acostuma com a facada nas costas. Acostuma com os sorrisos falsos, com os abraços hipócritas. Acostuma com os olhares indiferentes. Acostuma com toda essa merda. E vai virando um pouquinho de merda também por conviver com tanta podridão. Mas, no fundo, no fundo, tudo o que a gente queria era estar bem distante de tudo isso e dessas pessoas de gelo. E sorri. No meio de tudo isso, sorri. E todo mundo acha que tá tudo bem. “Mas quem vê cara não vê coração”, né?
Sei lá quanto isso vai durar. Essa minha calmaria. Essa dor que não dói. Essas dicas de meditação. Essa decepção sem lágrimas. Sei lá. Sei lá se eu não vou resolver descontar essas porradas nos outros e acabar errando também. Sei lá, eu queria um colo, mas também não queria. Eu queria chorar, mas também não queria. Pra falar a verdade, até eu já cansei de me importar. E gosto um pouquinho disso de levar tudo como se eu fosse alguém bem equilibrada.
E depois, depois eu vejo no que isso vai dar. Mas relaxa. Porque quando eu tiver a crise de choro, não grito ninguém. Vai ser entre eu e Deus, um choro particular. 

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