27 de setembro de 2012

Portas arrombadas



Escuta, não é assim. Você não pode entrar, tirar o sapato e colocar o pé na minha mesinha de centro. Quem disse que você podia pegar meu controle remoto e mudar de canal? Calma, eu não te autorizei a abrir minha geladeira e escolher o que vai fazer para almoçar. Não dá para você ir entrando assim como se fosse o primeiro que passa por aqui e tendo essa certeza absurda de que será o último. Não dá para bagunçar as coisas assim porque depois você pega suas coisas e vai para a sua casa e quem arruma essa bagunça toda sou eu.

Não coloca o copo da cerveja na minha estante. Ei, espera, eu não deixei você dormir do meu lado da cama. Vamos combinar assim? Você precisa respeitar o meu espaço, afinal isso aqui é meu e eu vou acabar ficando louca com esse seu jeito de achar que manda nas coisas por aqui. Você não pode simplesmente chegar e começar a empurrar os móveis de um jeito que tudo pareça melhor para você. No final, eu não vou ter força para empurrar sozinha isso tudo de volta.

Eu não deixei que você entrasse sem pedir autorização. Era para você ter pedido para o porteiro interfonar. Eu teria tempo de arrumar as coisas por aqui. Eu tinha roupas jogadas na cama que eu queria ter guardado no armário. As fotos do meu ex-namorado ainda estavam no mural do meu quarto. Você tinha que ter me dado tempo para organizar minimamente a minha casa e a minha vida. Mas você decidiu fazer uma surpresa e combinou com o porteiro que subiria sem avisar. Você não tocou a campainha, foi abrindo, sem precisar de convite.

Você regravou a minha mensagem na caixa postal. Atendeu aos meus telefonemas. Fuçou as mensagens do meu celular. Você foi agindo assim, como se tudo o que envolvesse a mim dissesse respeito a você também. Eu não deixei que você entrasse e fizesse o que bem entendesse, mas quem disse que eu tive força de te mandar parar e voltar para o começo? Quando eu vi, seu cheiro já estava registrado na casa inteira e meus vizinhos te conheciam mais do que a mim.

Você não pode fazer minhas compras, mudar a decoração, nem deixar a toalha molhada na cama. Não enquanto eu não conseguir entender ainda como tudo isso foi acontecer, sem que eu tivesse controle de alguma coisa. Entenda, eu preciso do meu tempo, eu não vou abrindo a porta da minha casa assim, deixando que qualquer um entre, faça sua bagunça e conquiste seu espaço.

Mas, olha só, antes que eu me desse conta, você já tinha invadido minha casa. E arrombado, derrubado, escancarado a porta que eu mais temia: a do meu coração. 



Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. AMEI esse texto! Ai Karine, que dom é esse que você tem de só escrever textos que eu me identifico? Haha, sério! Você é demais! :D:D

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    1. hahahaha Obrigada, Beatriz <33
      Beijos

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  2. Nossa viciei em seus textos, cada um mais maravilhoso que o outro :D

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