14 de outubro de 2012

A vizinha da porta ao lado

A vizinha da porta ao lado vem a minha casa. Nós já temos um relacionamento de ois e tchaus de elevadores, mas agora ela vem tentar nutrir uma amizade, trazendo consigo um bolo que acabou de fazer. Começamos a falar sobre a decoração do apartamento, damos nossas opiniões rasas sobre a síndica e caímos sobre o tema de sempre: relacionamentos. Ela fala sobre seu namorado, o quanto ele é sensacional e como eles se dão bem. Para não ficar por baixo, não conto da última briga que tive com Caio, apenas me atenho a contar suas qualidades. E aí ela começa a falar sobre liberdade, que eu deveria tentar experimentar um relacionamento aberto, que iria ser bem mais feliz.


“Vocês deveriam tentar”, ela repete. E começa a enumerar todas as vantagens de sair com quem quiser, ser livre pra escolher, frequentar casas de swing, essas coisas que falam tanto sobre relacionamentos abertos. Um frio percorre minha espinha só de imaginar Caio e eu fazendo parte de um relacionamento desse tipo. Tento entender qual o conceito dela de liberdade. Pego-me pensando nessa escravidão do corpo, como acontece quando caímos em tentação e fazemos sexo por sexo com qualquer um, mesmo quando dizemos que estamos em um “relacionamento”. Dessa liberdade eu não entendo.


“O relacionamento fica muito mais feliz quando entendemos que não somos propriedades e conseguimos dividir e multiplicar amor”, ela fala, como se soubesse tudo sobre nós, como se estivesse sempre aqui, entre nós, quando damos nossas maiores provas de amor. O que ela sabe sobre nossa divisão e multiplicação de amor?

Ele me acorda com um beijo na testa e sorri como se eu fosse a mulher mais linda do mundo e nosso amor se multiplica. Ele me abraça e eu sinto que eu fui feita para estar exatamente naquele lugar e nosso amor se multiplica. Nosso amor se multiplica, divide-se e é somado em cada sorriso, cada beijo, cada abraço, cada briga e em cada reconciliação. Ela não sabe nada sobre o nosso amor.

Cansada e vendo que não vai me convencer, ela dá um sorriso amarelo e diz que tem que acabar de arrumar umas coisas em casa. Finjo que acredito e deixo que ela vá. Ela vai me achando estranha por ainda “prender” meu homem. Eu fico, respeitando que ela faça de seu relacionamento o que quiser, mas não permitindo que opine no meu. 

Caio volta para casa no final do dia, olha-me e eu sei: ele escolheu voltar quando poderia ter nunca mais voltado. Ele tem a chave de casa, as malas guardadas no armário e seus próprios cartões de crédito. A porta fica aberta todo o tempo, a janela está escancarada e ele pode, a qualquer momento, arrumar suas coisas e ir para aonde quiser. Tudo fica a sua disposição, para quando ele se cansar desse relacionamento e decidir ir viver sozinho e bem longe de mim. Não há amarras, algemas, cordas nem nada. Depende só dele.

Na mente dele, eu sei, a ideia já passou muitas vezes. Depois de uma de nossas brigas sem sentido, principalmente quando joguei sua camisa de futebol pela janela ou quando ameacei usá-la como pano de chão. Ele respirou fundo, todas essas vezes, e reconsiderou a ideia. Decidiu ficar.

Ele decide ficar quando tem a escolha, quando é livre o suficiente para deixar para trás e ir tentar outra coisa, bem diferente do que temos. É livre para ir e, mesmo assim, volta sempre para os mesmos braços, para o mesmo peito e o mesmo amor. Liberdade, para mim e para ele, é poder ir, sempre ir, mudar, correr, fugir. E, mesmo assim, todas as vezes, todos os dias, mesmo com todas as brigas, não dar o braço a torcer e escolher sempre ficar, ficar, ficar, amar. Caio me beija e me carrega até o quarto. Somos felizes, livres, abertos e tudo isso sem precisar de outras pessoas entre a gente. Minha vizinha não tem nem ideia de quanto amor a gente multiplica.


Comentários
6 Comentários

6 comentários:

  1. awwwwn, acabei achando teu blog super por acaso, mas comofaz para eu para ler? geeeeeeeeeeente amei teus textos, são muuuuito bons, e muito bens escritos e bem pensados sabe, eu também amo escrever e tenho blog que coloco alguns dos meus textos também >< e nossa, eu tenho uma paixão platônica por Cai F, e adoro ficar achando trechos do que ele escreveu por ai, mas você sabe como é né, nem sempre colocam os tais importantes créditos, e lendo ai, descobri que na verdade é teu o texto né? *---------------* que lindo, ai pronto, apaixonei pelos teus textos de vez, parabéns pelo teu trabalho viu? s2

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    1. Ah, fico muito feliz que você tenha gostado dos meus textos! <3 Sério mesmo! E pois é, o texto é meu, apesar de circular por aí como do Caio ahahahahahah faz parte. Tbm adooooro ele, por isso mesmo que não me sinto a altura de ter um texto confundido com os deles hahahahahahahaha Espero sua visita mais vezes por aqui, obrigada mais uma vez! <3
      beijos

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  2. amei demais teu blog , achei ele por acaso e me identifiquei com alguns textos , são realmente lindos

    eu tbm tenho um blog ,não escrevo textos nele é um blog sobre cosméticos se vc puder dar uma olhada seria mto legal : http://coisadecabelo.blogspot.com.br/

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  3. amei seu blog,estou seguindo.
    também escrevo (mas não tão bem assim) caso queria conhecer: http://www.avidaemletras.com/

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