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A primeira vez que fui embora

Você nunca assumiu a culpa por nada quando se tratava da gente.

Era sempre eu a que desistia primeiro, a que errava mais. Você não. Você era o cara sério, perfeito e maduro que levava a relação adiante. Se é que eu posso chamar assim, não é? Relação. A gente nunca teve nem isso.

Jogar a tolha, gritar, fazer escândalo e dizer que nunca mais iria voltar: tudo isso era tarefa minha. Você só se fechava no seu mundinho e agia como se não importasse. Fechava a cara, ficava mal humorado, começava a me tratar como uma qualquer. Mas dar chilique? Não. Isso era demais para o seu jeito adulto de ser. E, por isso, a primeira a ir embora fui eu. Fui eu sim, a que desisti da primeira vez. Fui eu sim que arrumei minhas coisas, dei as costas e deixei você sem entender os porquês. Eu sempre fui imperfeita demais para você. Eu sempre fui infantil, sempre cansei rápido, sempre agi como uma imatura. Não era isso o que você sempre dizia quando queria me magoar? Eu lembro.

Você estava tão ocupado procurando os defeitos para apontar em mim que nem se olhava no espelho para ver o que estava fazendo de errado. E nunca nem entendeu por que fui embora pra começar. Eu tava ali, entregue em seus braços, me doando inteirinha, e você ocupado demais em não me deixar dominar sua vida, preocupado demais em delimitar seu espaço, em deixar claro seus planos. Eu, nua em sua cama, toda entregue, e você me provando mais uma vez que eu não fazia parte de você.

No meio do abraço, você me olhou com aquele seu olhar de: “como é que eu vou fazer pra te encaixar na minha vida?”. E eu soube. Eu soube que não tinha espaço pra mim em você. Que por mais que eu ficasse naquela cama a noite toda, aquilo nunca seria meu. E eu fui embora. Peguei tudo, corri, quis distância. Quis distância das verdades que você sempre me mostrou. Sem se preocupar com o tato, com o espaço e com meu coração.

Eu fui embora. E você nem ousou pedir que eu ficasse. Nem sonhou em ir atrás e me pedir pra voltar. Você me tinha nos braços, mas na sua cabeça só você importava. Só você sempre importou. E no seu discurso, nunca nem reparou que eu não cabia. No seu pódio, você nunca me deu lugar. E as minhas vitórias? Você nunca nem quis comemorar.

Mas eu voltei. Tentei de novo, insisti em nós dois. Quem sabe eu não conseguia me colocar em seus planos. Quem sabe eu não virasse importante na sua vida da noite pro dia. Talvez eu saísse do quarto ou quinto lugar na sua lista de prioridades. Eu voltei porque era teimosa, porque te amava e achava que podia fazer dar certo na marra. Eu voltei porque, iludida que era, achei que você me amasse também.

Eu voltei. Não devia. Eu devia ter acreditado naquele seu primeiro olhar. Eu devia mesmo ter sido a primeira que ia. E devia ter sido eu a ir por último também. Eu devia porque eu soube, olhando nos seus olhos naquele dia.

Na sua vida, eu nunca tive nem chance. Nem chance.


Esta é uma série desenvolvida em parceria com a Nanda Campos, para ler a versão masculina desse conto clique aqui

Comentários

  1. "Eu voltei. Não devia. Eu devia ter acreditado naquele seu primeiro olhar. Eu devia mesmo ter sido a primeira que ia. E devia ter sido eu a ir por último também. Eu devia porque eu soube, olhando nos seus olhos naquele dia"

    Lindoooooo demais Kah. Infelizmente isso aconteceu comigo. Nâo tive um pingo de amor-próprio e ainda levei um NÃO.

    Parabéns pelo texto. Maravilhoso.

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    Respostas
    1. Triste, né Débora? Mas vida que segue...

      Que bom que gostouuu!!!

      Obrigadaaa!

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  2. Karineee..nossa como eu fiquei feliz em encontrar seu blog...nossa! simplesmente amei seus textos..fico tão feliz quando encontro blogs com textos tão bons como o seu eo da bruna vieira...fiz um post em homenagem a ela..vou explorar mtu seu blog e te homenagear em breve porque to adorando..
    Dá uma olhada no meu?
    http://cantinhodanina19.blogspot.com.br/

    o post da bruna é esse
    http://cantinhodanina19.blogspot.com.br/2013/01/minha-blogueira-favorita.html

    beijaoo e meus parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, Cyh, que linda! Fico feliz que tenha gostado dos textos! Dei uma olhada no seu post pra Bru, fofo!

      Obrigada pelos elogios! E apareça mais vezes!
      Um beijão

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  3. Como eu disse no Depois dos Quinze: você tem talento de sobra para virar escritora. Cada palavra, frase, parágrafo consegue nos fazer voltar para o passado e entender melhor o porquê de as vezes a vida parecer ser cruel por nos ter afastado de quem amamos, mesmo que na verdade não seja. Amei!

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    Respostas
    1. Hélvio, vi seu comentário no DDQ e fiquei muito feliz, aí vi aqui agora também!
      Nossa, fico muito feliz de ler isso. Às vezes bate aquela insegurança chata, dá uma vontade de desistir e buscar outros sonhos. Aí vocês aparecem com essas palavras de força e incentivo. Obrigada, é muito importante <3

      Beijão

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  4. Quero um livro seu pra ontem menina!
    Conheci seu blog hoje e estou "devorando" os textos. São lindos!

    O engraçado é que estou na exata situação desse texto. Isso toca MUITO.

    Parabéns pelo talento :)

    ResponderExcluir

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