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Tudo aquilo que eu nunca te disse

Nunca ninguém cantou em meu ouvido com uma voz tão bonita quanto a sua. Eles tentaram, se esforçaram, fizeram de tudo. Ninguém nunca me deu um colo como você também. Ninguém nunca me entendeu tão bem, ninguém nunca mais me reconheceu apenas pelo olhar, nem nunca souberem fazer o bolo de chocolate mais gostoso do mundo que você fazia. E olha que eu tentei encontrar isso em todos os que passaram por aqui. Porque eu nunca quis admitir que a minha maior intenção era te encontrar na esquina, te agarrar e dizer que você era todinho meu.

Eu tive chances. Eu poderia ter dito em uma de nossas brincadeiras. Entre um riso e outro, eu podia ter soltado, sem meias-palavras, sem rodeios, sem nada. Cheguei a planejar dizer enquanto você me abraça, enquanto me olhava ou enquanto jurava para todo mundo, no mais alto e bom som que eu podia ouvir, que nós não passávamos de apenas bons amigos. Eu odiava quando você falava de nossa amizade. Odiava.
Eu podia ter falado quando seu primeiro namoro chegou ao fim. Seu coração estava despedaçado e foi nos meus braços que você veio se socorrer. Aliás, você sempre me usava como colete salva-vidas. E eu fazia de tudo para não me apoiar em você também. Porque sabia, na hora que você decidisse ir embora e me deixar para trás, eu inevitavelmente acabaria afundando sem possibilidade de socorro. Eu sabia o quanto eu dependia de você. Sempre soube.
Mas eu sempre te deixava escapar. Deixava as chances fugirem. Outros momentos viriam, outras oportunidades apareceriam. Eu tentava me convencer. Eu não te queria em pedaços, com rachaduras de outros desamores. Eu te queria inteirinho. Eu-queria-você-para-mim. Quem dera você pudesse ter reparado sem que eu precisasse ter dito com todas as palavras. Quem dera você tivesse visto nas vezes que eu corria ao seu encontro, só para ver você sorrindo. Quem dera você tivesse entendido nos meus ciúmes descontrolados, na minha possessividade infantil. Tava tão na cara, só você não via.
E aí um dia você fez o que eu sempre soube que faria: arrumou suas coisas, me deu um beijo de despedida e foi se perder no mundo. Eu também quis dizer naquele dia. Quis implorar que você ficasse. Quis dizer que eu te amava, quis dizer que eu nunca mais queria ser só sua amiga. Não disse e você se foi.
Hoje, tudo o que eu posso contar da nossa história era o que você vivia repetindo: éramos apenas bons amigos. Foi isso o que fomos, foi isso que você nos permitiu ser, foi o que eu deixei que fôssemos porque não tinha coragem de te dizer. Se eu pudesse voltar no tempo, quem dera eu pudesse ter dito: foi sempre você.

Texto publicado no blog Depois dos Quinze, da Bruna Vieira, no dia 12/01/2013. 

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