7 de abril de 2013

Carta à você que nunca voltou

Oi pai,

Talvez você estranhe esse meu contato repentino. Talvez vá além: estranhe o fato de eu ainda te chamar de pai. Todo mundo por aqui estranha. Inclusive eu. Mas meu coração permanece insistindo em você. O coitado ainda acredita. Mesmo depois de todas as coisas que você fez, e que não se faz a nenhuma filha.

Eu esperei tanto que você entrasse em contato, pai. Eu fiquei ao lado do telefone. Eu dormi na sala noites inteiras. Esperando você voltar, pai. Acredita nisso? Minha mãe até tentou me dizer. Só que eu ficava lá, aguardando a hora que você entraria pela porta e diria que tudo não passou de um engano. E era verdade. Você saiu da vida da minha mãe e aproveitou para sair da minha.

Você e ela destruíram tanta coisa por aqui, pai. Talvez, aí de longe, você não se dê conta disso. Mas é em mim que ficaram gravados os gritos, as brigas, as promessas quebradas. Eu ainda assisto às cenas que ficaram intactas em minha mente. Noite após noite. Pode ser até que vocês tenham feito tudo achando que estavam acertando. Mas fui eu que fui criada em um mundo de caos. Fui eu que tive que crescer aos 6 anos de idade, quando você partiu e deixou para trás um mundo destruído.

Eu virei adulta antes da hora, pai. E eu queria tanto te odiar por isso. Eu queria odiar a minha mãe também. Mas ela também está tentando encarar os próprios erros, além de todo o peso que você deixou em seus ombros. Ela está lá, lutando para se encarar no espelho, e eu continuo aqui, lutando para seguir em frente e parar de chorar. E eu queria odiar tudo isso, pai. Talvez, eu até já tenha odiado. Ou ainda odeie. Mas nada disso me basta. Nada bastou. Vocês se separaram e a impressão que eu sempre tive é que os dois se separaram, também, de mim.

Mas eu vim aqui dizer que eu te perdoo. Eu perdoo a minha mãe também. E eu perdoo essa vida torta, cheia de feridas abertas em mim. Eu perdoo porque eu não aguento mais guardar tanto rancor, pai. Então, eu tô te escrevendo essa carta para ver se eu me livro. Pra ver se esse peso sai um pouco de mim. E para te dizer que você pode vir se quiser. Ainda há espaço para um pai na minha vida. Um que esteja disposto a acertar de verdade. E, talvez, recomeçar a história entre um pai e uma filha.

Essa carta, pai, nada mais é do que um grito de liberdade: meu e seu. Tô deixando para trás nosso passado. Dando, mais uma vez, uma oportunidade para o nosso futuro. Tô ao lado do telefone, deitada na sala com os olhos vidrados na porta. Quem sabe alguma coisa não te toca aí dentro e você resolve voltar.

Para ser, finalmente, meu pai.



Texto encomendado pela leitora Maria Eduarda Elerbrock. Espero que você goste!


Comentários
14 Comentários

14 comentários:

  1. Emocionante este texto. Karine você pode dar uma passadinha no meu blog estupidamentesua.blogspot.com e dar uma olhada nesse texto aqui ó http://estupidamentesua.blogspot.com.br/2013/04/maior-abandonado.html e se der, se você gostar poderia tentar postá-lo no seu blog? É que é o meu sonho ter um texto meu (nem precisa ser esse) aqui no teu blog :)

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    1. Nayra, que bom que gostou!
      Obrigada pelo comentário!

      Vou dar uma olhada no texto!
      Mas ó, vou começar umas blogagens coletivas aqui no blog, que vão possibilitar textos de leitores publicados aqui no blog :D

      Beijão

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  2. Lindo demais, realmente emocionante.
    http://vidapreguica.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Elaine!
      Que bom que gostou <33333

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  3. Nossa, falou um pouco da minha historia com meu pai ... não tanto pq meu pai não me abandonou completamente, ele somente foi embora pra bahia, mas me deu toda assistencia .. mas eu sinto realmente falta de um pai mais presente. Posso postar no meu blog e colocar que vc foi a autora e tals? Como vc faz para encomendas de textos.. não entendi muito bem.. bjss

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    1. Oie!
      Pode sim, com os créditos sem problemas :D

      E pra encomendar algum tema, é só mandar um e-mail para o contato@karinerosa.com

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  4. Achei o texto ótimo! Você escreveu muitas coisas que eu gostaria de falar pro meu pai haha.
    Parabéns pelos textos.

    Abraços!

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  5. Muito obrigada, ficou maravilhoso!! Beijos

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    1. Magina!
      Que bom que gostou!

      beeeeeijão <3

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  6. Amei o texto e deu até um nó na garganta enquanto eu lia.
    Você escreve muito bem e se expressa de clara e boa de ler!
    Parabéns por este talento lindo!
    Beijos!

    adoravel-solidao.blogspot.com.br

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    1. Obrigada, Jesielle :D

      Fiquei feliz em ler isso!
      beeeeijos, volte sempre!

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  7. Oi Karine, sou sua nova seguidora, gostei do seu blog, bjus!
    rebeca-mello.blogspot.com

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