20 de junho de 2013

Eu nunca coube aqui dentro

Em uma mera ida ao banheiro, eu consigo me bater nos móveis de casa aproximadamente quatro vezes. Fiz as contas uma vez. Bati o joelho na cadeira, o dedinho na quina da cama, o cotovelo na maçaneta da porta e a mão na pia. Para uma pessoa normal, coisa de gente louca, desastrada, desvairada. Para minha mãe, que se acostumou com meu jeito desde criança, apenas coisa de Karine

Durante toda a minha infância, tive mais roxos do que um garoto que jogava futebol todos os dias. Quem me via, considerava que eu era uma esportista, uma criança levada, até uma dançarina de balé - o que, de fato, fui durante alguns anos. Mas meus machucados sempre tiveram causa bem menos glamurosa: apenas nunca coube aqui dentro. Nem de casa, nem do meu quarto, nem de mim. 

Minha brincadeira preferida na infância era criar personagens. Eu vestia as roupas da minha mãe e saía pela casa atuando como se fosse uma modelo famosa, uma advogada de sucesso ou uma empregada doméstica. Vira e mexe, eu começava a chorar em frente ao espelho, como se alguém tivesse morrido. E minha mãe corria ao meu encontro, desesperada, procurando o sangue pelo meu corpo. Eu sorria e, com a maior cara lavada do mundo, dizia: eu tô só brincando. Porque minha brincadeira, a vida toda, foi viver vidas que não eram minhas. Representar personagens que não eram eu. 

Quando eu comecei a escrever, diferente de muita gente, poucas vezes quis falar sobre minhas próprias dores. Não que eu não as tenha escrito. As encaixei em metáforas aqui e ali, em vírgulas e reticências em dois, três ou trinta textos. Mas eu sempre quis falar da história do outro. Do amor do outro, da dor do outro. Porque falar só de mim nunca foi o suficiente.

Pouca coisa, aliás, foi o suficiente. O espaço da minha cama, por muito tempo, foi pouco. Caí dela algumas vezes, até, finalmente, aprender a me segurar quando chegava na ponta. Bati a cabeça nas portas dos armários algumas vezes, até conseguir delimitar o caminho pelo qual tinha que passar. Meu banheiro nunca teve tamanho o suficiente, nem meu armário, nem meu sofá. Minha cidade também não teve. E, às vezes, acho que nem o mundo tem. Mas onde mais faltou espaço mesmo foi no meu coração. Até vazio ele transbordou. Um médico diria que é loucura. Eu vou além: talvez seja só excesso de amor


Comentários
14 Comentários

14 comentários:

  1. aaaaah como eu me identifiquei *-*
    eu amava brincar assim também quando era mais nova, eu sempre fingia que era uma madame mt rica AOSUDOASU

    http://vidapreguica.blogspot.com.br/

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    1. Melhor brincadeira, né Elaine? HAAHAHAH <3
      que bom que curtiu!

      beijos

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  2. Anônimo21/6/13

    Lindo texto ><

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  3. Anônimo21/6/13

    Nossa que texto lindo ! Cada vez mais você me surpreende com tanto talento . Engraçado que quando acho que você foi perfeita em um texto , você me aparece com outro ainda melhor ! Parabéns , você merece todo sucesso do mundo .

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    1. Ah, que fofo esse comentário <3
      Obrigada mesmo mesmo mesmo!

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  4. Minha brincadeira preferida era brincar de ser princesa , vai ver é por isso que quando cresci quebrei a cara com todo quando encontrei um prícipe que na verdade , era sapo . Lindo texto <3
    www.sonhando-porai.blogspot.com

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    1. Pelo menos agora vc já sabe que o príncipe não vai vir no cavalo branco, né? ahahhah
      Obrigada, Sarah <3

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  5. E o segundo texto seu que eu leio e eu achei muito perfeito, quando era criança também brincava de não ser eu, às vezes nem queria que me chamassem pelo meu nome, sempre inventava outro, Por isso me identifiquei com seu texto, também com a questão de nada ser do tamanho suficiente pra mim, realmente nunca é ...
    beijos
    Upsides Down

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    1. Obrigada, Lizaaa <3
      E bem vinda ahhaha :D

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  6. Eu adorava fingir que era a mocinha da novela, ou a patricinha dos filmes da disney rs'
    Texto lindo *---*

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  7. Oi karine, você escreve muito bem, vi seu conto no blog da bruna e cheguei aqui. Também curto esse lance de escrever.

    Beijo :*
    http://pequenosviciosdiarios.blogspot.com.br/

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    1. Luana, que bom que chegou aqui e que bom que gostou! <3
      Obrigadaaaaa!

      beijos

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