5 de janeiro de 2014

Sobre coisas reais



Eu não consigo me lembrar de quando vi o primeiro raio de sol da minha vida, mas imagino que tenha sido um momento assustadoramente maravilhoso. Talvez meus olhos de bebê tenham se irritado com a claridade que eles traziam, mas tenho certeza que minha pele gostou de sentir aquele calorzinho gostoso que apareceu do nada. Eu também não consigo me lembrar da última vez que de fato olhei para o céu na intenção de apenas observá-lo. Outro dia, um daqueles quases que nunca viraram alguma coisa na minha vida (mas que no momento eu acreditava que viraria), em meio a uma promessa (não cumprida), disse que o céu estava tão lindo que até parecia uma pintura. Naquele momento então eu soube que um quase jamais se tornaria algo.

Porque, afinal, o céu não se parece a nenhuma pintura, ele é a própria coisa. É que os artistas olham e tentam copiar. E se alguém não consegue diferenciar a beleza do real para a ilusão do perfeito reproduzido em uma tela, não consegue diferenciar pessoas reais nem sentimentos reais.

É desses pequenos sinais que monto minha própria cartilha do amor sem futuro e descarto mentalmente, enquanto permaneço sorrindo, pessoas que certamente não mereciam ter entrado na minha vida, mas que já entraram, e terão o prazer de ir embora quando eu quiser. Por isso que hoje quando acordei eu decidi olhar para o céu com os olhos bem abertos até meus olhos começarem a arder com o sol. E entendi finalmente que reparar profundamente em algo ou alguém exige não só um par de olhos e muita ideologia atrás da despretensiosa observação. Exige também entrega e vulnerabilidade para se sentir tocado pelo efeito que o outro causa em você, ainda que possa doer.

Porque sentir dor é ter a certeza de que você existe. A mesma certeza que eu devo ter sentido quando vi o meu primeiro raio de sol. Essa é a diferença entre uma pessoa real e um quase. Insistir em quases é a mesma coisa que olhar para o raio de sol em uma pintura. Você pode ficar ali o tempo que desejar, mas a pintura não vai te aquecer. Nem o quase.



SOBRE A AUTORA: CAROLINA RUEDAS tem 21 anos e é autora do livro O Mundo Imutável de Melina. É estudante de letras da Unicamp, mora no interior de São Paulo e é (não estranhe!) apaixonada por elefantes. Escreve sobre relacionamento, comportamento, cotidiano, cultura e outros assuntos no blog Abraçando Elefantes e topou escrever por um dia para o Isso não é um diário.


Comentários
8 Comentários

8 comentários:

  1. *clap clap clap*
    Lindo!!

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  2. "Exige também entrega e vulnerabilidade para se sentir tocado pelo efeito que o outro causa em você, ainda que possa doer" não acho que posso concordar mais, essa Carolina sabe das coisas s2
    Deem uma conferida no meu mais recente blog, http://valentinassake.blogspot.com.br/ (:

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  3. Olá Karine, sou michelle. Terminei o ensino médio esse ano,só que naõ sei bem ainda em que faculdade vou entra,gosto muito da área do jornalismo,mas tenho medo.Por exemplo a minha escrita não é muito boa, eu sou um pouco tímida.Mas se eu fazer mesmo vou quer se colunista de moda...
    Queria um conselho seu ? Esperando sua resposta.... Obrigada *-*

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. COMO A GENTE FAZ PARA PARTICIPAR TAMBÉM E POSTAR UM TEXTO NOSSO AQUI? BEIJOS!

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