5 de fevereiro de 2014

Nós nunca passamos do ano 2000

Era 1999 e eu vi milhares de matérias sobre o fim do mundo. Havia gente se matando, se jogando de pontes, dizendo que íamos todos acabar e sofrer muito. O Fantástico exibiu um programa inteiro especial sobre o assunto. Deu no Jornal Nacional. Se eu não me engano, saiu até na Veja. Havia seitas, grupos de oração, gente apavorada. O ano 2000 traria o temido fim dos tempos e muita gente tinha medo do que aquilo poderia significar. Afinal, o Apocalipse nunca foi retratado como algo fácil e rápido. Então, basicamente, o ano 2000 seria o começo do fim.

Depois que o temido dia passou, a gente comemorou. Lembro que acordei gritando que tinha sobrevivido, feliz e contente (desculpe, mas eu era apenas uma criança com medo de morrer, no fim das contas). Houve festa, comemoração, risadas, mais matérias nos jornais, gente aliviada, "uhul não morremos!!!!". O ano 2000 acabou só como um mito, historinha para boi dormir, lenda para assustar todo mundo. Nada tinha acabado, a vida continuaria, os dias passariam e o mundo continuaria igual.

Acho que esse foi o nosso grande pecado. Continuar igual, digo. Talvez tenha sido esse o nosso maior problema. Veja bem, quatorze anos se passaram. Mais de uma década de muitas descobertas, inovações, realizações, avanços tecnológicos etc etc etc. Tempo o suficiente para uma espécie evoluir, pelo menos um pouco, nem que seja quase-nada. Tempo o suficiente para transformar o mundo em um lugar um pouquinho melhor, mais tolerante, mais justo, igualitário. São quatorze anos, idade do meu irmão (que já tá maior que eu, quase com barba na cara), não quatorze dias. Já deu pra ler muito, aprender muito, repensar muita coisa. 

Não sei se foi otimismo exagerado da minha parte, mas eu realmente achei que passar vivo pelo ano 2000 era uma coisa bacana. Afinal, eu sou destas pessoas que acham sempre que as coisas vão melhorar e tudo mais, porque eu tenho uma esperança meio inexplicável no ser humano. E eu analiso um mesmo fato mil vezes, só para tentar encontrar um, pelo menos um, lado bom em tudo. Porque, veja bem, um lado bom há de ter, não há?

Chegou 2014 e, como em todo começo de ano, rola aqueles momentos de reflexão. Daí que eu parei para analisar o mundo estes dias (principalmente porque ouvi e vi coisas que me doeram e me enojaram a um ponto que nem minha esperança aguentou). E olhando seriamente agora, me pergunto: de verdade, no que a gente melhorou depois daquele anunciado fim?

Estes dias, um beijo gay em uma novela no horário nobre global foi tratado como algo surreal. Veja bem, eu dou pulos de alegria, vejo aí um avanço social maravilhoso, acho lindo. Mas é 2014, sabe? Na minha cabeça, não tinha que ser mais algo UAU, e sim algo normal, parte da história, da narrativa, como em qualquer outro casal da trama. Cadê a nossa evolução nisso?

O que evoluiu foi nosso preconceito. Cada vez que eu olho, parece que o monstro cresceu. E, para a minha surpresa, não só na galera mais velha, conservadora, criada com outros padrões de educação e tudo mais, mas na galera jovem, descolada, antenada, que, supostamente, aceitava tudo. A geração XYZ não é tão desprendida de velhos valores como eu imaginava.

Ainda há preconceito lá fora (e aí dentro). A religião ainda é mais importante que a fé (e ainda quer se intrometer em decisões de um Estado laico). Uma mulher ainda é julgada por fazer uma coisa banal como beijar mais de um cara em uma noite (nossa, hein?). Um casal gay  ainda não pode manifestar afeto publicamente - pelo menos, não sem sentir medo de ouvir xingamentos, de receber olhares de reprovação ou, pior, de apanhar na frente de todos sem que alguém os defenda. 

O pior é que ninguém nos defende de nós mesmos. O inferno, na real, somos nós. Nós e nossos preconceitos nojentos, nós e nossos julgamentos baratos, nós e nossas certezas impostas aos outros como verdades absolutas. Antes ou depois dos anos 2000, fomos nós que estragamos tudo.

No fim das contas, o Fantástico deveria anunciar: a profecia do ano 2000 aconteceu. O fim começou (lá ou até antes). E não sobrevivemos felizes e contentes como imaginávamos. As coisas desandaram aqui por baixo. Deu ruim. Acho que a gente não passou pelo ano 2000. Pelo menos, não ileso. 

Porque a verdade, meus amigos, é que o ser humano é nojento. 


Comentários
5 Comentários

5 comentários:

  1. Amei o texto^^ E sobre essa história do beijo gay, tem muita gente que assume o preconceito e pronto, mas me parece que ainda é pior aquele tipo de pessoa que não é preconceituosa, mas só até página dois. Aquele tipo que acha lindo ver beijo gay na novela, mas expulsa o filho homossexual de casa. A verdade é que precisamos sim diminuir o preconceito, mas também precisa diminuir a hipocrisia...

    ResponderExcluir
  2. Olá Karine, como estou chocada por não ter encontrado seu blog antes, haha!

    Estou amando seus textos! Você escreve absurdamente bem!

    Com toda certeza, virei seguidora fiel ,hasiusahisauhsaiusa!

    Abraços,
    Thamara Laila
    www.thamaralaila.com.br

    ResponderExcluir
  3. Seu blog me lembra um tumblr, adorei s3 kkkk seus textos são muito bem escritos e profundos, adorei tudo!
    Seguindo!

    www.vivadesaltoalto.blogspot.com.br
    www.ohvida.com.br

    ResponderExcluir

Gostou do post? Deixa sua opinião ou sugestão de post aqui que a gente vai adorar ler! ;)