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O dia em que você deixou de me amar


Você não sabe ainda, mas deixou de me amar. Aconteceu naquele jantar de quinta-feira, no barzinho que você tanto adora ir. Em um momento de distração, nosso amor fugiu e escapou pela janela. Eu até tentei correr atrás, puxar pelo pé, insistir que ele ficasse. Tentei chamar sua atenção para que você lutasse por ele comigo. Mas o garçom chegou, você bebericou seu uísque sem gelo, eu dei uma golada na caipirinha de morango, e nosso amor se foi. Sumiu e só Deus sabe se foi capturado por outro alguém.
Talvez ele esteja caído no meio da Avenida Ipiranga. Talvez tenha se mandado em um avião e esteja, agora, descansando na areia da praia de Ipanema. Talvez outro alguém o tenha visto passando e o roubou para si. Quem sabe, está nas esquinas de São Paulo, mendigando um pouquinho de carinho e atenção. Ou vai ver o amor ficou doente, acabou, morreu, como aconteceu dentro de você. Enquanto isso, o meu amor, aqui, ainda preso em mim, fica perdido sem seu par.
O que me sobra é engolir meu amor enquanto vejo seus olhos deixando de ser meus. É esconder minha decepção ao te ver lutando para disfarçar e não conseguindo. Porque, no fundo, por mais que você tente com todas as forças, amor não se obriga. Mas desamor, quando invade, abre um buraco e deixa uma cama em que falta você e sobram lençóis vazios.
A parte triste é que, uma hora ou outra, vou acabar caindo na armadilha de perguntar se há algo errado, se você quer fugir, se está infeliz. E você vai desviar o olhar, fingir que não percebe, jurar que não é nada. Sem saber que o seu “nada” bate aqui dentro como a certeza do que, às vezes, nem eu quero acreditar.
E, então, como alguém que ainda tem tanto amor guardado, eu vou assistir você partindo um coração que, um dia, jurou proteger. Eu vou ver você questionando todas as suas decisões. E você não vai entender. Porque me amava tanto até ontem. Porque me queria tanto. Porque era o suficiente. E vou ver você teimar, teimar, teimar, enquanto finjo que acredito. Ou melhor: querendo muito acreditar.
Você não sabe ainda, mas deixou de me amar. Aconteceu durante os nossos jantares, durante os abraços, as brigas, as lágrimas, as saídas, a rotina. Aconteceu durante o dia-a-dia, sem que você sequer notasse. Não te culpo – às vezes amor acaba. E nem imploro – porque amor não se pede. Quando termina, no máximo, se agradece. Então, mesmo sabendo que dói, agradeço: um dia, houve muito amor entre nós.


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