8 de abril de 2014

Blogagem coletiva: Posse é diferente de admiração


“Minha mãe disse que eu preciso fazer medicina. Ela quer mandar na minha vida!” 
“Meu pai disse que não posso namorar ele! Ele quer mandar na minha vida!” 
“A vida é minha, eu posso e vou pintar o meu cabelo de azul! Você não manda na minha vida!” 
“Ela não entende que não quero falar sobre o fim do namoro. Ela quer controlar até isso, como se a vida não fosse minha.”

Ah, a liberdade! Somos tão ferozes e bravos quando defendemos a nossa própria liberdade e individualidade. Não há quem seja indelicado, grosso, ríspido ou mal educado. E daí se gritou com a própria mãe? E daí se falou palavrão enquanto discutia com o pai? São pessoas normais e que nos amam, mas ao roubarem um pouquinho daquele espaço que julgamos nosso, podemos extravasar a fúria da maneira que seja. É só o desejo de autopreservação, de querer tomar as próprias decisões e guiar os próprios passos, certo?

Em alguns casos parece que isso só está certo quando nós somos vítimas da invasão e do controle de alguém. Mas porque é tão difícil inverter um pouco a situação? E quando digo inverter, quero dizer por nos colocarmos no lugar de quem está cobrando demais, se metendo demais, querendo palpitar demais onde não foi chamado. Pode ser na vida de um amigo, aquela pessoa que a gente conhece e acha que vai dar o conselho perfeito pra resolver todos os seus problemas. Mas, calma, ele nem pediu isso. Talvez ele esteja só querendo guiar a própria vida. 

Pode também ser na vida daquelas pessoas que nem conhecemos pessoalmente. Não sabemos com que cara acorda e nem o que gosta de tomar no café da manhã. Sabemos que é um ator incrível ou um cantor admirável, que, por acaso, conquistou nossa admiração e amor. Às vezes, o trabalho daquela pessoa é tão incrível que é inevitável que a gente se identifique e passe a acompanhar seus passos. No entanto, há um limite muito tênue entre admirar, se tornar um fã e achar que aquela pessoa é um fantoche ou um propriedade nossa, que podemos facilmente controlar e dizer se vai ou se fica. 

É a hora de se colocar no lugar do outro, sabe? Se nós podemos ter um dia ruim, ter cólicas, escolher quem namorar, o curso da faculdade, o trabalho que vai aceitar, o que fazer no cabelo, porque aquele outro ser humano ali não pode? E daí que o outro é seu grande ídolo? Vamos tratar todo mundo nesse exercício de troca de lugares como ser humano, ok?

Imagina só que, por acaso, bebemos demais e demos vexame. Ou fomos pegos colando na prova. Sempre tem aquela pessoa que “nos adora” pra apontar o dedo na cara e dizer “EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ, LOGO VOCÊ, FOI CAPAZ DISSO!”. Imagina quando são um milhão de dedos de adoradores no júri? Nosso próprio senso crítico já nos pune quando sabemos que estamos fazendo algo errado, sabe? Se nós estamos sujeitos a fazer uma escolha errada ou vacilar vez ou outra, por que aquela pessoa com algum destaque não pode? Ser fã de alguém é diferente de assumir que aquela pessoa é uma espécie de Deus da Perfeição, onde podemos depositar todas as nossas expectativas. Alguém que nunca vai mudar de opinião, dar um passo errado, acordar de mau humor ou fazer uma escolha que a gente não concorda. 

Precisamos separar as coisas que, embora não andem juntas, as pessoas insistem em colocar no mesmo pacote. O trabalho, que é aquilo que aquela pessoa faz e vende: música, ilustrações, vídeos, fotos, livros, filmes, dança. Esse, a gente admira e acompanha enquanto acha que se identifica. A vida, que é aquela que pega todo mundo do mesmo jeito: um dia em que tudo dá errado, um pé na bunda, uma semana com intoxicação alimentar, unha encravada ou, por outro lado, amores, amigos, viagens e todas as experiências que somadas nos fazem crescer. 

Conhece aquela frase que diz que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é?” Eu acho que, quando admiramos alguém, devemos saber fazer parte da delícia. Deixar a dor pras dificuldades da vida, para a falta de privacidade imposta pela imprensa, para as desilusões e decepções do caminho. Como dizia Lulu, nós “consideramos justa toda a forma de amor”, mas fanatismo está longe de ser amor. Muito menos admiração. 

Ps. Escrevi em primeira pessoa porque acredito que essa seja uma reflexão e um exercício que vale pra todo mundo, até mesmo pra mim. Afinal, o limite é tão delicado que está todo mundo sujeito a dar uma ultrapassada às vezes. Mas aí é hora de pensar, enxergar e se reposicionar. O que não dá é pra ficar do lado negro da força pra sempre, sendo eternamente um mala.

Esse texto é da Karla Cunha, do blog Não Tenho Pressa (aliás, blog incrível!). Ela enviou o texto "Posse é diferente de admiração" para a blogagem coletiva sobre fanatismo e teve o texto escolhido para ser postado aqui no blog. Para conhecer um pouco mais sobre a Karla, basta seguir ela no twitter

Além dela, outras leitoras participaram da blogagem. E ó, eu realmente gostei muito dos textos dessa vez, concordo com todos. 

Famosos são gente?!, da Taysa Marcon 
Fanática, da Vanessa Correia 
Qual o limite do fanatismo?, da Paula Toledo
Seja fã e não um chato, da Anna Lira 


Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Karine, muito obrigada por escolher meu texto! <3 <3
    É muito mágico isso de ver alguém que a gente admira, indicando algo que fizemos! Valeu mesmo! :D

    Um beijo!

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  2. Amei os argumentos que a Karla usou, super me identifiquei ^^

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  3. #chateada que eu perdi a blogagem coletiva :( hahah
    mas amei o tema e a Karla arrasou, falou tudo!

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