13 de abril de 2014

Sobre A Nossa Música Que Eu Tanto Amava (e acabou)


O outono chegou e com ele as folhas secaram – que nem o nosso amor que não resistiu as mudanças de estações até morrer, por fim. Diferente do outono, hoje eu sei, nosso amor não vai ressurgir depois de enfrentar tempestades. Ele acabou. Como se acaba a vontade, o desejo, a coragem, a esperança, o querer seguir em frente e enfrentar mais um obstáculo. Como se acaba o café. E como o café, a gente bem sabe, escreveram por aí também, não dá para requentar porque não vai ter o mesmo sabor.  E eu fico me perguntando quando foi que aconteceu, entre que instante, que você juntou as suas malas e foi embora e a minha aceitação enfim de sua partida. Porque demorou, sabe? O amor não acaba quando a pessoa vai embora. Não acontece fácil assim. Primeiro vem o desespero, vem a angústia, vem o medo, vem a raiva, vem a dor, vem a culpa e o arrependimento. Aí a gente percebe que passa. Porque tudo meio que passa mesmo que bem devagar; a passos de tartaruga, mas passa; sem vontade como naquela música que tanto amo, mas o importante é que passa.

Ontem eu ainda te amava mesmo você não me amando mais. Ontem eu ainda queria ir aí, te implorar pra voltar, fazer promessa e procurar um pai de santo que me prometesse te trazer em três dias em troca de umas bebidas. Mas fiquei só com as bebidas e sem você. Ontem eu ainda te odiava também. Quis pegar o telefone e destilar meu veneno a você; cuspir na sua cara as verdades que engoli pra te evitar qualquer dor – a dor que você não evitou que eu sentisse – falar o quanto você consegue ser idiota e imaturo também. Hoje já não quero tanto quanto ontem; amanhã possivelmente não quererei mais ainda. Até que talvez, um dia, eu possa olhar pra blusa que você esqueceu aqui no meu guarda-roupa vazio e o sentimento que abandonou aqui em meu coração destroçado e não sentir mais nada; ou sentir tudo aquilo que você disse na nossa última briga, antes de juntar suas coisas e declarar na porta que chega de drama, de briga, de ciúme doentio e de desespero para nos salvar; não nos salvamos, acabou.

Aquele dia eu não te falei nada, sabe, porque eu achei que você ia voltar. Eu achei que você ia tropeçar pelo caminho, quebrar uma perna, machucar um pouco o rosto, e aí perceber que seu lugar era aqui, onde você me deixou. Eu fiquei calada e esperei que você jogasse em mim toda a culpa do nosso fim. Eu acho que me sentia culpada também; você adorava me fazer me sentir culpada não é? Eu adorava bancar essa cena pra você se sentir um grande ator. Eu deixei você me colocar na posição que queria porque assim seria mais fácil você voltar pra ver se eu ainda estava aqui. E eu estava. Fiquei por muito tempo esperando você como mocinha de filme que busca seu fim feliz. Mas não era você meu fim feliz. Só o meu fim. Demorei a aceitar; é lento o processo, talvez você não entenda porque você, quando dá adeus a uma paixão, dá adeus com glórias e festas; se livra de uma vez dos lixos no dia seguinte pro lixeiro vir buscar; não guarda nada e desafoga seu peito de tudo que é dor da noite pro dia, do dia pra noite, substituindo por outra paixão logo em seguida. Foi assim que você fez comigo; é assim que você está fazendo com sua nova conquista; vai ser assim com todas. Você não curte seu momento, não deixa a dor dilacerar nem o machucado se curar por si só. Se apressa. Toma seu rumo. Esquece tudo pra trás e começa de novo. Tantas e tantas vezes sem se preocupar em colocar um ponto final nisso tudo. Até que fica inconstante e incoerente demais para se suportar e aí vai, e começa todo o ritual de novo, mais uma vez e sempre.

Eu não, eu sou do tipo que deixo a dor doer, assim, redundantemente, dilaceradamente, pra quando a dor passar ela realmente ir – sem chances de voltas, sem chances de me atropelar num novo caminho e estragar uma outra história. Mordi a língua e não te mordi –não quis te causar a dor que você me causava ali – Ao invés disso, deixei que você se esvaísse da minha casa com a lentidão que se esvai os dias sem motivo, os domingos tediosos, a água por uma torneira que apenas pinga, mas não encharca. Deixei que a catarse viesse e me descarregasse de você, sem medo de enfrentar minhas dores tão suas dores que você nem quis saber.

A catarse passou. Você passou. A gente passou e cruzou uma linha de chegada separados, porém no mesmo destino. Ficou faltando te dizer coisas que agora já não consigo mais guardar para mim; coisas que não fazem mais sentido agora que acabou, coisas que já não quero sufocar aqui. Ainda penso em você quando escuto a nossa música, ainda queria te contar coisas do meu dia só para ver sua cara de entediado uma última vez e perceber o quanto você não servia para mim. Sei lá, se emocionar com as conquistas dos outros, você não consegue? Que merda de vida você deve ter, não é? Pedir um colo, cê já aprendeu? Ou sua nova conquista precisa mudar o mundo dela pra caber aí, no seu? Tenho dó dela, mas sei que ela vai perceber em breve o quão perda de tempo você é. A gente sempre percebe, entende? Antes de você juntar as malas, eu já sabia que ia dar ruim. Eu já sabia que já era, cara, não tem como amar uma pessoa que não consegue amar os outros nem a ele mesmo. Porque você não se ama não. E por isso fica aí se sabotando e sabotando a todos que diz amar na busca da felicidade. Felicidade, cara, é questão de ser. E a gente não é. A gente está. Está sempre. Eu quis estar sempre aí com você, mas você sempre esteve em outro lugar; um lugar que eu acho você nem faz ideia de que mora lá. Eu meio que sinto pena de você, sabe? Eu meio que poderia te fazer uma música, mas de uma nota só, que é pra significar o que sinto por você: em dó. Eu olho nossas fotos e me pergunto se a gente realmente se perdeu ou se a gente na verdade nunca se encontrou: só se esbarrou por aí, causou um acidente de trânsito, um caos em nossa volta e depois se abandonou pra cada um cuidar das suas feridas. Sei lá. Eu me lembro dos momentos, cara, você deve lembrar-se também; quando seus olhos se perdem muito tempo na cor de uma parede como se perdia quando estava comigo ela deve saber que você está pensando na outra, na anterior, em mim.  Eu tenho vontade de pegar o telefone e te ligar, ou bater aí na sua casa e esmurrar a porta até você atender, te encontrar numa balada só pra te dizer tudo isso. E mais. Só pra falar:

Você se lembra quando eu, apaixonada, tola, idiota por você, cantava aquela música te olhando nos seus olhos cheios de promessas, aquela que eu dizia que era minha maior prova, e que você adorava ouvir, que te amaria de janeiro a janeiro até o mundo acabar? Sabe, babaca, tô te dizendo tudo isso para você se lembrar toda vez que ouvir essa música tocar que eu realmente te amei de janeiro a janeiro. Que minha promessa de que seria até o mundo acabar era sincera. Mas que, nunca se esqueça, o nosso mundo acabou. Meu amor também. Como você um dia declarou na porta da minha casa, sem nenhuma compaixão pela história que (me) abandonou. A gente perdeu o ritmo, nossa música perdeu a rima, e você perdeu meu amor.


SOBRE A AUTORA: FERNANDA CAMPOS é estudante de psicologia, escritora e blogueira, apaixonada por café e autora do livro Um Dose de Café Pingado. De São João del-Rei (MG), ela escreve sobre relacionamentos, amor, temas polêmicos e o que mais lhe der na telha lá no Um Dose de Café e topou escrever um texto especial para o Isso não é um Diário. 




Comentários
6 Comentários

6 comentários:

  1. https://www.facebook.com/pages/Consciente/1425344471053140 Acessem ! obg

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  2. Acho que já sou até meio suspeita pra falar dos textos da Fernanda rs' Esse, como sempre, está muito bom^^

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  3. Ai que texto lindo ♥
    http://girlsmachine.tk/

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  4. A síntese do coração partido. Acho que todo ser humano já conheceu um babaca desses. E sofreu desesperadamente.

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  5. Me arrepiei de ler! Incrível

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